Está aqui

Teletrabalho e Saúde Mental

Optar por teletrabalho é bem diferente de trabalhar a partir de casa por "imposição" de uma pandemia que surgiu sem aviso e que, por isso, não deixou alternativas nem deu tempo para que o processo se tivesse organizado como todos desejaríamos. Artigo de Ana Matos Pires.
“Trabalhando a partir de casa” por Daquella manera/flickr
“Trabalhando a partir de casa” por Daquella manera/flickr

Em rigor, e de acordo com o Código do Trabalho, o teletrabalho é a "prestação laboral realizada com subordinação jurídica, habitualmente fora da empresa e através do recurso a tecnologias de informação e de comunicação". O termo tem sido usado de uma maneira mais ampla como significando "trabalho a partir de casa" e não apenas como "teletrabalho contratualizado". É dessa forma mais generalizada que aqui o usaremos.

Optar por teletrabalho é bem diferente de trabalhar a partir de casa por "imposição" de uma pandemia que surgiu sem aviso e que, por isso, não deixou alternativas nem deu tempo para que o processo se tivesse organizado como todos desejaríamos.

O Barómetro Covid-19 é um projeto de investigação da ENSP da Universidade Nova de Lisboa e o seu grupo da Saúde Ocupacional - António Sousa Uva, Florentino Serranheira e Marta Mello e Sampayo - desenvolveu um questionário dirigido a pessoas que tivessem tido uma experiência de teletrabalho e cuja aplicação decorreu entre os dias 12 de Maio e 3 de Junho de 2020.

Não sendo uma amostra representativa da população geral dá-nos algumas pistas importantes. Os resultados apontaram para a existência "de um elevado nível de resiliência", com uma boa capacidade de adaptação e gestão entre vida pessoal e teletrabalho, ainda que, como referem os autores "A falta de apoio dado por parte das empresas quer ao nível da saúde e segurança do trabalho, quer ao nível de comparticipação de equipamentos e meios de trabalho, indispensáveis para o desenvolvimento do teletrabalho" seja inquestionável.

desenvolver teletrabalho sem ser por opção própria e em confinamento tem, com toda a certeza, consequências substancialmente diferentes e piores sobre a saúde mental das pessoas

Por outro lado, e com resultados que dizem respeito também ao primeiro confinamento, um estudo da Universidade do Minho coordenado por Pedro Morgado mostrou que continuar a trabalhar, mesmo que na forma de teletrabalho, foi um fator protetor da saúde mental quando a comparação é feita com ter parado de trabalhar.

O prolongamento no tempo deste estado pandémico e das consequentes adaptações e readaptações necessárias à prática da atividade laboral obriga a que novas avaliações sejam necessárias para que se responda com sustentação à pergunta "quais os efeitos do teletrabalho na saúde mental dos portugueses?".

Enquanto não temos esses dados parece-me importante deixar algumas reflexões, e alertas, sobre o assunto.

Em primeiro lugar, desenvolver teletrabalho sem ser por opção própria e em confinamento tem, com toda a certeza, consequências substancialmente diferentes e piores sobre a saúde mental das pessoas.

As dificuldades de gerir os períodos de trabalho, de vida familiar e de lazer trazem riscos psicossociais acrescidos

As dificuldades de gerir os períodos de trabalho, de vida familiar e de lazer trazem riscos psicossociais acrescidos. A ausência de condições físicas, nomeadamente habitacionais, para que os diferentes elementos da família desenvolvam o seu trabalho a partir de casa são outro importante fator a ter em conta e comporta riscos acrescidos de tensão familiar. Adultos com maiores níveis de ansiedade e de irritabilidade, "enfiados" numa casa sem condições potencia situações de conflito e mesmo de violência psíquica e física. Se a isso adicionarmos a permanência das crianças no mesmo espaço, já que as escolas estão fechadas e o ensino está a ser feito à distância, e também elas com necessidades acrescidas de supervisão e apoio, nomeadamente para as tarefas escolares, temos um outro fator de risco para desenvolvimento de fadiga, stresse e reações ansiosas e depressivas, por exemplo.

As desigualdades sociais determinam uma menor capacidade de resiliência

Também o aumento do sedentarismo e a diminuição das relações sociais presenciais que existem em locais de trabalho saudáveis contribuem para o agravar o risco de mau funcionamento emocional e consequente prejuízo da saúde mental.

As desigualdades sociais determinam, também elas, uma menor capacidade de resiliência, com consequente prejuízo da saúde mental.

A manutenção das rotinas básicas possíveis nesta altura, com horas destinadas às paragens laborais e ao cumprimento dos horários de refeições, a manutenção do regular ciclo sono/vígilia e o exercício físico dentro ou fora de casa, são dicas que ajudam a proteger a saúde mental e a prevenir a doença

No jornal Público de domingo foi publicada uma reportagem onde era referido que "Sara Falcão Casaca, professora do ISEG-School of Economics and Managment, alerta que esta modalidade de trabalho vem reforçar as desigualdades entre homens e mulheres e espera que os estudos que estão a ser feitos neste momento possam ser um "farol importante" para o conhecimento sobre os impactos de género da pandemia e sobre o efeito do teletrabalho na conciliação entre a vida profissional, pessoal e familiar. "Todos os estudos que vamos conhecendo, a nível europeu e internacional, dão conta de como o trabalho doméstico e relativo ao cuidar tem aumentado com a pandemia", sendo as mulheres quem maioritariamente responde a este aumento da demanda. Este aspeto particular quando se pensa no acentuar de desigualdades merece, da parte de quem trabalha em saúde mental e das entidades responsáveis pelo desenvolvimento de estratégias de intervenção em saúde mental, uma atenção redobrada e o planeamento de resposta direcionadas.

A manutenção das rotinas básicas possíveis nesta altura, com horas destinadas às paragens laborais e ao cumprimento dos horários de refeições, a manutenção do regular ciclo sono/vígilia e os exercício físico dentro ou fora de casa, são dicas que ajudam a proteger a saúde mental e a prevenir a doença. Sensibilizar as entidades empregadoras para que sejam desenvolvidos programas de apoio psicossocial integrados na Saúde Ocupacional, quer já quer quando a tão desejada normalidade pós-pandemia voltar, parece-me absolutamente necessário e julgo que da parte da tutela deverão sair indicações precisas neste sentido.

Artigo de Ana Matos Pires, médica psiquiatra. Assessora do Programa nacional para a Saúde Mental da DGS

(...)

Neste dossier:

Dossier Teletrabalho

Teletrabalho e os riscos da teledisponibilidade

O teletrabalho permitiu que muitas pessoas continuassem a trabalhar em tempo de pandemia e com mais proteção. Porém, tem elevados riscos para quem trabalha, em particular o da violação do direito ao repouso. Dossier organizado por Carlos Santos.

teletrabalho - foto de Paul Skinner / flickr

Teletrabalho: uma realidade (ainda) desconhecida?

O advento tecnológico das sociedades pós-industriais trouxe inegáveis consequências em todas as dimensões da nossa vida, incluindo, para o que aqui releva, o trabalho e a crescente diluição entre as suas fronteiras e o tempo de descanso. Por Rita Garcia Pereira.

Teletrabalho. Foto de Peter Kaminski/Flickr

A desconexão dos trabalhadores: direito ou dever?

A questão dos tempos de trabalho e da sua limitação, marca de origem do Direito do trabalho, adquire novas roupagens nesta economia digital. Quem pode dizer, atualmente, qual é o tempo de trabalho de um trabalhador digital? E qual o seu período de repouso? Artigo de João Leal Amado** e Teresa Coelho Moreira*.

Mulher em teletrabalho. Foto de Ecole polytechnique/Flickr

(Des)ilusões: teletrabalho, qualidade de vida e igualdade de género

Não negamos que o teletrabalho pode constituir-se como uma oportunidade em certas fases dos ciclos de vida. Importa, contudo, ter presente que se trata de uma oportunidade que exclui muitos/as profissionais, não sendo indiferente às desigualdades sociais, incluindo as assimetrias marcadas pelo género. Artigo de Sara Falcão Casaca.

Foto tirada em março na sala de trabalho de um dos call-centers do Porto

Teletrabalho nos Call Centers

Estar em teletrabalho não pode ser motivo impeditivo de prestar assistência aos filhos, mas neste momento é essa a realidade, neste momento os filhos de quem está em teletrabalho são verdadeiros órfãos de pais presentes. Artigo do Sindicato dos Trabalhadores de Call Center (STCC-Tás Logado?).

Automatização. Foto do A L´Encontre

Será o teletrabalho o futuro do trabalho?

Será muito difícil voltarmos à situação de pré-pandemia, mas teremos de aprender bastante mais como estas formas de trabalho poderão contribuir para a melhoria da qualidade de vida no trabalho. Artigo de António Brandão Moniz.

Teletrabalho e almoço? - Foto de bubem/flickr

Nas empresas ou em casa: os efeitos da pandemia e as medidas urgentes

O teletrabalho como resposta sanitária passou a ser um mal menor, passando por entre os pingos da chuva. Mas será o paradigma que queremos do ponto de vista laboral? E será que, depois de passar a pandemia, o mundo laboral voltará a ser o que era? Artigo de Nelson Silva

“Trabalhando a partir de casa” por Daquella manera/flickr

Teletrabalho e Saúde Mental

Optar por teletrabalho é bem diferente de trabalhar a partir de casa por "imposição" de uma pandemia que surgiu sem aviso e que, por isso, não deixou alternativas nem deu tempo para que o processo se tivesse organizado como todos desejaríamos. Artigo de Ana Matos Pires.

Teletrabalho não anula o direito a desligar

Transição digital, teletrabalho e “direito de desligar”

O teletrabalho, de momento em Portugal legalmente obrigatório, pode ser um instrumento organizativo e de gestão. Contudo, pode também ser um factor de riscos profissionais e isso não pode deixar de ser também ponderado e reflectido. E agido.