As razões da oposição ao Plano Paulson

01 de outubro 2008 - 0:00
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A proposta do Secretário do Tesouro dos EUA, Hank Paulson, desperta forte reacção na sociedade ao propor o resgate dos banqueiros ricos e não dos devedores pobres. Entre os que se opõem à proposta estão nomes como George Soros, Paul Krugman e Michael Moore. Segundo Moore, os republicanos estão a usar os seus velhos truques de provocar medo e confusão "para continuar eles mesmos e o 1% da classe alta, obscenamente ricos".



Texto de Oscar Ugarteche. Este artigo do economista peruano Óscar Ugarteche foi publicado em alainet.org e traduzido por Carta Maior.



A manhã do dia 29 de Setembro de 2008 foi marcada pelo debate no Congresso dos Estados Unidos sobre a proposta elaborada pelo Secretário do Tesouro, Hank Paulson, para comprar activos dos bancos de investimentos. Essa iniciativa, encontrou forte reacção na sociedade que a recebeu como um resgate dos banqueiros ricos e não dos devedores pobres, e gerou também uma polémica internacional. Diferentes vozes, como a do investidor George Soros, o professor Paul Krugman e o cineasta Michael Moore, entre outros, expressaram a sua reprovação à ideia. Uma lista de professores norte-americanos assinou uma carta onde, em essência, criticam o conceito de resgate bancário, considerando-o como um subsídio aos investidores pago pelos contribuintes. Os investidores que assumiram os ricos também devem pagar as perdas, diz a carta.



Nem todas as quebras, acrescenta o documento, envolvem riscos sistémicos. Assim, nem a missão da nova agência que seria criada com os 700 mil milhões de dólares de ajuda, nem o seu âmbito estariam claros. Se os contribuintes devem ser obrigados a comprar activos suspeitos e opacos de vendedores preocupados, as condições, ocasiões e métodos de tais compras deveriam ser claros e as operações de compra submetidas a uma supervisão. Essas condições não faziam parte do plano. A carta dos académicos termina dizendo que se o plano for aprovado tal como formulado, trará efeitos para uma geração de norte-americanos. "Com todos os seus problemas recentes, os mercados de capital privado são dinâmicos e inovadores e trouxeram uma prosperidade ímpar aos EUA. Debilitar esses mercados com interrupções de curto prazo é uma prática desesperadamente míope", critica.



Michael Moore, cineasta crítico dos republicanos, afirmou que não importam o que digam e quantas palavras atemorizantes pronunciem, estão a utilizar os seus velhos truques de provocar medo e confusão para continuar eles mesmos e o 1% da classe alta, obscenamente ricos. Lendo os primeiros quatro parágrafos do artigo principal da edição de 22 de Setembro do New York Times, pode-se ver do que realmente se trata: "No exacto momento em que os formuladores de políticas trabalhavam nos detalhes do plano de 700 mil milhões de dólares para socorrer o sector financeiro, Wall Street começou a buscar formas de se aproveitar disso. As empresas financeiras estão trabalhar para que sejam cobertas todas as formas de investimento problemáticas, não somente aquelas relacionadas com as hipotecas. Ao mesmo tempo, as empresas financeiras estão a manobrar astutamente para vigiar todos os valores dos livros das instituições financeiras nas quais o Tesouro planeia intervir, o que poderia garantir-lhes milhões de dólares ao ano em honorários. Ninguém quer ficar de fora da proposta do Tesouro para adquirir valores das instituições financeiras". Incrível. Wall Street e os seus defensores criaram esse desastre e agora vão limpá-lo como delinquentes. Até Rudy Giuliani está a trabalhar para que a sua empresa seja contratada (e paga) para realizar "consultorias" sobre o resgate financeiro, denuncia Moore.



Criticada à direita e à esquerda, a iniciativa foi rejeitada por uma margem de 23 votos, 228 contra 205 votos no Capitólio, o que fez com que as bolsas descessem drasticamente no mundo inteiro. Após a decisão, Paulson disse que é preciso fazer algo, ainda que tenha reconhecido que o sistema está a funcionar bem apesar de tudo. Nos últimos quatro meses, quebraram toda a banca de investimento menos Morgan Stanley e Goldman Sachs, cuja quebra foi evitada pela sua transformação em holdings bancários, com a ideia de que o governo compre seus activos. Até agora, de uma lista de vinte instituições expostas aos derivados vinculados a seguros de hipotecas, dez deixaram de existir sem que tenha ocorrido nada de substancial nem na banca comercial nem no tipo de câmbio. O que está a ocorrer previsivelmente é que bancos maiores estão a comprar por pouco dinheiro as carteiras das instituições que caminham para a quebra ou a comprar a empresa quebrada inteira de maneira que continue com o mesmo nome ainda que, na realidade, seja agora uma divisão de um banco maior.



Os grandes compradores são Bank of America, Citibank e JP Morgan Chase que adquiriram Washington Mutual e Wachovia nos dias 27 e 28 de Setembro, embora eles mesmos tenham rabo de palha. O possível fim, após a quebra das vinte instituições ligadas a este mercado de derivados relacionados com as hipotecas, é que bancos estrangeiros comprem esses activos nos EUA a preço baixo. Na Inglaterra, quando quebrou o segundo maior banco hipotecário do país, Bradford & Bingley, ele foi nacionalizado pelo Tesouro. É o segundo banco a ser nacionalizado na Inglaterra nesta crise. O que ficou claro é que a opinião pública e a maioria dos políticos decidiram que resgatar banqueiros era um mau negócio.



Entre as consequências desta crise possivelmente estará a necessidade de separar novamente os bancos comerciais dos bancos de investimento e supervisionar todas as operações da banca comercial, assim como estabelecer controlos para esse tipo de operações que, por serem livres e globais, somam 547 mil milhões de dólares. O retorno da acumulação financeira à acumulação real fará com que os anos vindouros sejam de baixo crescimento para os EUA, mas de consolidação das novas tecnologias e de uma nova ordem emergente com suas novas instituições. O capitalismo financeiro, tal como o conhecemos desde a década de 70, chegou ao fim.



Oscar Ugarteche, economista peruano, trabalha no Instituto de Investigações Económicas da Universidade Autónoma do México, e integra a Rede Latino-americana de Dívida, Desenvolvimento e Direitos (Latindadd). É presidente da ALAI e integrante do Observatório Económico da América Latina (Obela).



Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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