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Perguntas e respostas sobre o Estado Islâmico

Sabia que o atual líder do EI já esteve detido num campo de prisioneiros dos Estados Unidos? E que o território do EI equivale ao do Reino Unido? E que quem salvou milhares de yazidis de serem massacrados pelo EI foi uma organização considerada terrorista por Washington? Veja mais nas perguntas e respostas que se seguem.
Abu Bakr Al-Baghdadi, ou o califa Ibrahim
Abu Bakr Al-Baghdadi, ou o califa Ibrahim

O que é o Estado Islâmico?

É uma organização política que professa o islamismo sunita e foi fundada na Jordânia, em1999, com o nome de Jama'at al-Tawhid wal-Jihad (Grupo de Monoteísmo e Jihad) por Abu Musab al-Zarqawi. Apesar de fundado na Jordânia, o grupo desenvolveu-se no Iraque, na resistência à invasão dos Estados Unidos e aliados. Em 2004, o grupo ligou-se a Osama bin Laden e mudou de nome para Al-Qaeda no Iraque, tornando-se uma das principais forças da resistência. Os seus objetivos eram forçar a retirada das tropas ocupantes, derrubar o governo títere iraquiano, assassinar os colaboracionistas, derrotar as milícias xiitas e estabelecer um Estado puramente islâmico. Com a morte de al-Zarqawi em 2006, o grupo juntou-se a outras organizações sunitas e formou o Estado Islâmico do Iraque. Mas a sua influência diminuiu diante da criação dos conselhos de líderes tribais sunitas Sahwa (Despertar), que rejeitavam as suas táticas ultraviolentas.

Em 2010, assumiu o comando Abu Bakr Al-Baghdadi que reorganizou o grupo, e voltou a crescer à medida em que o próprio governo iraquiano, dominado pelos xiitas, marginalizava os sunitas e incentivava os conflitos sectários. A nova liderança levou a organização a envolver-se também na guerra da Síria, onde combateu o governo de Bashar al-Assad. Em 2013, Abu Bakr Al-Baghdadi anunciou a unificação das forças do Iraque e da Síria numa só organização, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL, ou ISIS, sigla em inglês).

Em junho de 2014, o EIIL, depois de uma imparável ofensiva que o levou a conquistar dezenas de cidades, entre elas as estratégicas Raqqa na Síria e Mossul no Iraque, proclamou a criação de um Califado, o Estado Islâmico. (Ver mais aqui e aqui).

Então, o Estado Islâmico é um estado?

Seria melhor chamar-lhe um protoestado, com uma existência ainda muito curta e futuro incerto, mas que procura organizar-se com estado, pondo de pé um sistema de cobrança de impostos e uma nova legislação baseada na interpretação mais rigorista da Sharia, a lei islâmica. O território que controla atualmente não é desprezível.

Qual é o tamanho do Estado Islâmico?

Como não se trata de um estado consolidado nem reconhecido e muitas áreas estão em disputa e uma guerra está em curso, o cálculo é difícil, mas o Washington Post, baseado no Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA, calcula a área em cerca de 210 mil quilómetros quadrados, mais ou menos equivalente à área total da Grã-Bretanha, mas que inclui territórios desabitados.

Onde se situa?

A vermelho, território controlado pelo EI; a beje, território que o EI afirma controlar; a branco, resto do território da Síria e do Iraque. Fonte: BBC, atualizado em 22/9/2014.


O Estado islâmico controla quase metade do território da Síria e uma parte do norte do Iraque, separando o território curdo do resto do Iraque (ver mapa). A sua capital de facto é Raqqa, perto da qual se situa a barragem de Tabqa, a maior do rio Eufrates e da Síria. Controla cidades como Deir es-Zour (importante centro petrolífero da Síria), Sinjar (a maior da comunidade yazidi), Mossul, a segunda cidade do Iraque, com 1,8 milhão de habitantes. A barragem de Mossul, a maior do rio Tigre, situada a 60 km a norte da cidade, foi reconquistada pela tropas curdas com o apoio aéreo dos EUA.

Quem é Abu Bakr al-Baghdadi?

O nome de nascimento é Awwad Ibrahim Ali al-Badri al-Samarrai e nasceu na cidade iraquiana de Samarra. Tem 43 anos e acredita-se que começou a carreira como pregador salafista. Envolvido na resistência à ocupação, foi preso pelas tropas norte-americanas na prisão de Camp Bucca. Mas há versões divergentes quanto a esta detenção: al-Baghdadi terá estado preso entre fevereiro e dezembro de 2004; ou entre 2005 e 2009. Seja em que período for, parece coincidir a versão que diz que foi libertado por decisão de uma comissão de revisão dos processos dos presos.

Em maio de 2010, o EIIL anunciou que al-Baghdadi era o novo líder da organização. E em 29 de junho de 2014, o EIIL anunciou a criação do califado e a sua nomeação como califa, com o nome de Ibrahim.

De onde vem o financiamento do Estado Islâmico?

A maior fonte atual de financiamento do EI é o petróleo iraquiano. O EI não destrói as fontes energéticas que conquista militarmente; pelo contrário, põe-nas a render para financiar o Estado que quer construir.

Mossul, uma das cidades dominadas pelo grupo, produz cerca de 2 milhões de barris de petróleo por dia. O EI também controla a central de gás de Shaar, e Deir es-Zour, o maior centro petrolífero da Síria.

Theodore Karasik, do Institute for Near East and Gulf Military Analysis (INEGMA) e Robin Mills, autor do livro “The Myth of the Oil Crisis” ("O Mito da Crise do Petróleo"), calculam que o EI ganhe um milhão de dólares por dia com a exploração do petróleo iraquiano.

O EI vende o barril a 30 dólares no mercado negro, muito mais barato que os 100 ou mais dólares/barril praticados no mercado internacional e usa intermediários na Turquia e na Síria.

Além disso, o EI está a pôr de pé um sistema de impostos nas áreas conquistadas.

Mas nos tempo em que o EI ainda não tinha conquistado qualquer território ou poço de petróleo, o financiamento decisivo para o seu crescimento veio do apoio da Arábia Saudita e dos países do Golfo, segundo o jornalista Patrick Cockburn e outros analistas, que calculam que esses países já teriam canalizado centenas de milhões de dólares para insurgentes sunitas na Síria.

(Condensado de um artigo de Mariano Aguirre, do instituto Norwegian Peacebuidling Resource Centre – NOREF), publicado pela BBC Brasil.

O uso de ultraviolência por parte do Estado Islâmico caracteriza a prática de crimes de guerra?

Imagem do vídeo divulgado pelo EI mostrando execução em massa de inimigos.


Sem dúvida: nada justifica as execuções em massa praticadas e exibidas em vídeos, a limpeza étnica, a perseguição de minorias religiosas, o sequestro e execução pública por decapitação de jornalistas estrangeiros. Infelizmente não são exclusivas deste grupo – o uso do terror como arma de guerra já foi muito usado na história, mas não é por isso que ganha qualquer pingo de justificação.

Quer dizer que são loucos?

Não é questão de loucura e sim de opção tática de guerra. O desmoronamento do Exército iraquiano diante da avançada do EIIL deveu-se em boa parte ao pavor incutido pelos vídeos de execuções em massa. As práticas ultraviolentas, que remontam aos tempos do fundador da organização al-Zarqawi, têm como objetivo apavorar os inimigos e dar uma imagem de invencibilidade que atrai a adesão de novos recrutas entre os sunitas.

Neste aspeto, Al-Bagdhadi segue a doutrina de Bin Laden que dizia: “quando as pessoas veem m cavalo forte e um cavalo fraco, por natureza vão gostar do cavalo forte”. (Ver mais aqui)

Quem são os yazidis?

Os yazidis ficaram famosos pela perseguição que sofreram por parte do EI. Foram apresentados como cristãos perseguidos, mas na verdade dificilmente podem ser considerados cristãos. São uma comunidade étnico-religiosa curda cujos membros praticam uma antiga religião sincrética, o yazidismo, ligada ao zoroastrismo e a antigas religiões da Mesopotâmia. A maior parte dos seus membros vive ou é originária da província de Ninawa, no norte do Iraque, cuja capital é Mossul. A sua religião tem origem no antigo Irão e tem numerosas semelhanças com as antigas religiões persas. Os yazidis acreditam em Deus como criador do mundo, que colocou sob o cuidado de sete "seres sagrados" ou anjos, cujo "chefe" (arcanjo) é Melek Taus, o Anjo Pavão. Como governante do mundo, este Anjo Pavão é a causa de tudo o que sucede de bom e de mau aos humanos e este caráter ambivalente surge em mitos da sua queda em desgraça junto de Deus. Esta crença tem origem nas reflexões místicas sufistas (um ramo místico do Islão) sobre o anjo Iblis (o equivalente islâmico do Diabo), que se recusa orgulhosamente a violar o monoteísmo adorando Adão e Eva, apesar da ordem expressa de Deus para o fazer.

Quem evitou o massacre dos yazidis?

Guerrilheiros do PKK. Foto de Nora Miralles.


Quando as tropas do Estado Islâmico chegaram a Sinjar, no início de agosto deste ano, os peshmerga, combatentes curdos, anunciaram que tinham recebido ordens de retirada e fugiram, deixando os yazidis à sua própria sorte. O massacre estava à vista, porque o EI considera os yazidis “adoradores do diabo”. Valeu aos milhares de mulheres, crianças e homens daquela comunidade o apoio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que protegeram a sua retirada para as montanhas (de 3 a 6 mil pessoas) e os defenderam quando o exército do EI tentou capturá-los. Os EUA desfecharam ataques aéreos de proteção e atiraram mantimentos de para-quedas, em coordenação com o PKK.

O mais irónico desta situação é que o PKK, cujo principal líder, Abdullah Öcalan, está preso há 15 anos na Turquia, faz parte da lista de organizações consideradas terroristas por Washington. O papel decisivo da guerrilha do PKK foi reconhecido pelo próprio presidente curdo Massoud Barsani, que viajou para agradecer pessoalmente o comandante do PKK envolvido na operação.

O Estado Islâmico veio trazer alterações no panorama geoestratégico da região?

Sem dúvida. Mesmo sem uma aliança formal, os Estados Unidos e o Irão estão lado a lado contra o inimigo comum, o EI; os EUA estão a bombardear o EI, para satisfação de Bashar al-Assad, inimigo declarado de Washington. E há muitos outros exemplos. Sobre isto, vale a pena ler o artigo de Immanuel Wallerstein “O califado contra o resto do mundo”.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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