Para o Zeca

Digo-to, também por ti, para que saibas que a tua força não se acabou quando te foste, e enquanto houver memória, haverá força para ir longe, bem longe, mesmo além de Taprobana. Por Camilo Mortágua.

22 de fevereiro 2017 - 14:21
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Se lá no assento etéreo onde subiste
Memória desta vida se consente
Não esqueças quem insiste
Em de Ti se lembrar eternamente
 

Procuro-te. Hoje mais do que então, da tua absoluta e imprecisa presença retiro as alegrias gravadas na memória. Porém, por mais que me esforce, agora como então, não consigo vislumbrar com precisão a forma ou os traços da tua imaterial figura. Não tens limites, absoluto e infinito, pura luz, como sempre foste, mesmo quando a matéria do teu corpo vibrava de revolta contra as injustiças do Mundo.

Há momentos sensoriais em que julgo aperceber-te, esgueirando-te pelos labirintos intermináveis das “meias praias” dos infernos comuns, guitarra às costas e andar ondulado, com um certo ar de marítimo, que tanto nos fez rir, ao recordar a nossa comum condição de “cagaréus”.

Sabes…não tive oportunidade de te dizer, mentira…, oportunidade tive, o que não tive, foi a coragem de repetidamente te ver sofrer tanto, preparando a partida. Para conseguir controlar a emoção, e não manifestar ser tristeza a dor do momento, levei-te as filhas para de ti guardarem memória… possivelmente de nós.

Digo-to, também por ti, para que saibas que a tua força não se acabou quando te foste, e enquanto houver memória, haverá força para ir longe, bem longe, mesmo além de Taprobana.

Gostava, oh! se gostava, que tivesses presenciado a realização do teu maior anseio cultural e político - A ESQUERDA UNIDA GOVERNANDO ESTE PAÍS, - e a memória do teu exemplo como inspiração imortal dessa união. OS DOIS SABEMOS QUE FOI ESSE O SONHO QUE NOS FEZ UM-!

Foi esse o sonho que nos permitiu reconhecer-nos e colaborar confiadamente sem necessidade de confirmadas fidelidades restritivas ou mesquinhas..

Esse o sonho que sem explicitações verbais, soubemos ser comum e condicionador de tudo o que se ia fazendo sem regras nem estatutos pré definidos. O Sonho da LIBERDADE e da SOLIDARIEDADE geral, de gente igual por dentro e por fora, sem muros nem ameias, nem gavetas para as etiquetas ou capelas para os dogmas.

Este foi sempre o nosso tema preferido. Como ser cidadão inteiro, abraçando, sem temer, a contradição da necessidade natural da afirmação do indivíduo, com a exigência da força do colectivo, para afirmar e defender colectivamente cidadãos Submetidos!. Tínhamos tacitamente, sempre o esperei, agendado para uma outra fase, a continuidade das nossas inacabadas conversas sobre os comportamentos humanos, Eram conversas que aconteciam sem interrupção, esparsas no tempo e em diferentes lugares e contextos, mas sempre encadeadas pela vontade de chegar aos Outros, à Solidariedade com os outros.

Vê lá tu, que até as cadelas cá de casa, passaram, de geração em geração, a mensagem da necessidade de não ladrarem de noite, para não te incomodar, ignorantes da tua ausência.

Por estas pequenas e diferentes coisas dum quotidiano longínquo é que, sem aparente razão, fico por vezes parado, olhar fixo no voo saltitante dum pardal vadio, a pensar numa coisa que erradamente nunca verbalizei e hoje, sem consequências nem vergonha, se-me impõe!

Ao escutar uma ocasional canção de alguém que não sei quem seria, revelou-se em mim uma certeza!

Na mais pura e total acepção da palavra, continuas a ser “o meu amor de longe”, como de resto quase sempre assim foi, do dia do nosso reconhecimento até ao dia em que os ribeiros se calaram porque tu não voltavas a cantar, e alguém que não conhecemos decidiu, anti-democraticamente, que já era tempo de embalares a trouxa e zarpar!

Até sempre companheiro, por cá me aguento na firme esperança de te voltar a encontrar.

Camilo, Fevereiro de 2017


*Camilo Mortágua - Agente de desenvolvimento local. Histórico militante antifascista e revolucionário

Testemunho enviado ao Esquerda.net a 19 de fevereiro de 2017.

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