O PRI volta ao poder no México

Enrique Peña Nieto, candidato do PRI, obteve 38,1% dos votos e prometeu fazer um governo diferente. Um cientista político alerta que é preciso aceitar que o México é um país em guerra.

31 de dezembro 2012 - 13:59
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Enrique Peña Nieto, o novo presidente. Foto de Edgar Alberto Domínguez Cataño, wikimedia commons

Depois de 12 anos na oposição, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) voltou ao poder no México. O mesmo partido que governou o México durante 71 anos, e cuja derrota para o Partido Ação Nacional (PAN), em 2000, fora considerada uma viragem histórica na vida política do país, ganhou as eleições de 1 de julho.

Enrique Peña Nieto, candidato do PRI, obteve 38,1% dos votos e prometeu fazer um governo diferente daqueles do PRI que o antecederam. “Somos uma nova geração, não há regresso ao passado. O meu governo terá uma visão voltada para o futuro, num México de grandiosidade e esperança que todos queremos e desejamos com ansiedade”, afirmou.

Peña Nieto venceu graças ao sistema eleitoral mexicano, que não prevê a realização de segundo turno. Com 37% dos votos, já não podia ser alcançado por Andrés Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD), que teve 31,5% e por Josefina Vázquez Mota, do Partido da Ação Nacional (PAN), que teve 25,4% e era a candidata do partido que governou o México nos últimos 12 anos.

Às vésperas da tomada de posse do novo presidente, a Carta Maior publicou uma entrevista com o cientista político Sergio Aguayo, realizada por Eduardo Febbro, que dá pistas para compreender este novo México que o PRI volta a governar.

Chegamos ao momento de uma nova transição paradoxal: o regresso do PRI ao poder após 12 anos de oposição. Em resumo, volta ao primeiro plano o partido autoritário, machado por inúmeros casos de corrupção. A vitória do PRI parece refletir também a enorme deceção que a transição deixou.

É uma história bastante complexa. Em primeiro lugar, a minha geração se equivocou ao supor que eleições limpas eram sinónimo de democracia. Começamos a ter eleições razoavelmente limpas, mas não tivemos democracia porque se produziu um problema associado: cada vez que havia uma mobilização social no México, o regime autoritário respondia com uma reforma eleitoral que fortalecia os partidos. Em 1996, os partidos converteram-se em magnatas da noite para o dia com o aumento do financiamento público em doze vezes. Isso significou que os partidos políticos se esqueceram de representar a sociedade e passaram a se preocupar com as pequenas elites. Isso levou a que a alternância do poder político se tornasse uma redistribuição muito desigual do poder económico, informativo e coercitivo.

Por conseguinte, o que vemos no século XXI é uma democracia profundamente desigual em todos os sentidos. Há um acúmulo de poder na cúpula e uma repartição desigual nos setores médios e baixos. Isso terminou por significar várias coisas: primeiro, que a corrupção cresce. Os governadores tornaram-se extraordinariamente poderosos; dois, os multimilionários crescem mais – não é por acaso que temos o homem mais rico do mundo. Esse setor obteve um tratamento privilegiado por parte do Estado; três, os canais de televisão adquiriram um poder imenso. Em última instância, ainda que tenhamos tido avanços, porque o México de 2012 não é o de 1968, a sociedade não conta com suficientes instrumentos para poder equilibrar essas distorções. Em síntese, a redistribuição do poder foi integral e levou à violência.

Há então uma relação direta entre a forma pela qual o poder político usou a alternância em seu benefício e a violência que o México conhece hoje.

Esse processo iniciou-se depois da Segunda Guerra Mundial quando o crime organizado começa a crescer muito lentamente. No passado, o crime organizado estava controlado por um Estado centralizador. Com a alternância, o poder fragmentou-se e uma das consequências não buscadas pela alternância foi que o crime organizado cresceu porque passou a negociar com os governadores ou os presidentes municipais.

O que vemos então, entre 2006 e 2012, é a explosão do poder do crime organizado, o qual tem uma enorme capacidade de fogo graças à corrupção nos Estados Unidos. A atitude dos Estados Unidos permite um contrabando de armas incrível, terrível e intenso. Os cartéis do crime organizado têm exércitos muito bem armados que enfrentam com êxito o Estado mexicano. Em consequência, estamos numa etapa na qual existe um México em guerra e um México em paz, onde o poder está concentrado nas mãos de elites governantes que estão divorciadas da sociedade. Os partidos não representam a sociedade e esta se defende com mais ou menos êxito dependendo da cidade ou do Estado. O Distrito Federal tem o grau de concentração de capital social mais alto do país e, por conseguinte, se defende melhor que Michoacán ou Tamaulipas, onde a sociedade civil é muito débil.

A sua análise faz o retrato de um poder político estratificado. Com que forças conta o país para romper esse bloqueio levando em conta os níveis de violência que existem?

Creio que vem aí uma década de reajustes na redistribuição do poder. A guerra vai durar pelo menos mais uma década. Serão anos nos quais haverá reacomodações e nos quais a sociedade avançará na defesa dos seus interesses segundo as regras da participação na vida pública. Essas regras não são uniformes em todo o país. O México não é um país homogéneo. Há enormes diversidades em cada região, o que é válido na Cidade do México pode ser irrelevante em Mérida ou Tamaulipas. Mas o país está se movendo e essa fluidez no movimento faz com que a situação mexicana seja tão confusa e, ao mesmo tempo, tão fascinante.

Há, contudo, um dado estonteante: a cifra de mortos. Como e por onde terminar com isso?

Parece-me que temos de aceitar que somos um país em guerra. Tudo seria mais fácil se aqueles que governam o México e a comunidade internacional aceitassem esse facto. Mas, infelizmente, seguem uma política evasiva, uma atitude de avestruz. O governo e a comunidade internacional fazem todo o possível para minimizar, para ignorar a tragédia humanitária que o México vive. Uma parte da comunidade internacional comprou as teses do governo mexicano, que diz: tudo isso é transitório, são os narcos que estão se matando entre eles, etc., etc.. Algo muito curioso é a pouca informação que se tem sobre o custo social da guerra. A informação que temos é extraordinariamente inquietante, não só pelos mortos: estima-se que há 40 mil sequestrados nos últimos anos e mais de 14 mil desaparecidos. O Chile teve 3 mil, a Argentina entre 10 mil e 30 mil. Nós já temos 15 mil desaparecidos nesta guerra e o mundo faz o possível para ignorá-lo.

É um absurdo. O que vem aí é uma etapa enorme, de desafios gigantescos. Quanto ao que ocorreu, eu creio que era necessário enfrentar o crime organizado, mas o que critico no presidente Felipe Calderón é a mediocridade de sua estratégia. Em 2007, Calderón disse: “abri o paciente supondo que tinha um cancro, mas descobri que já havia uma metástese”. 

Em resumo, aqui foi declarada uma guerra sem se ter uma ideia clara da magnitude do perigo. Calderón não se antecipou e aferrou-se a uma estratégia fracassada, negou-se a escutar e minimizou o custo social que a guerra estava causando entre vítimas e desaparecidos. Felipe Calderón é um comandante medíocre.

Um comandante medíocre seguido por uma incógnita: Enrique Peña Nieto, o novo presidente, é um autêntico mistério.

Sim, Peña Nieto é um enigma. Não sei o que ele pensa.

Independentemente do facto de ter ganho a eleição de uma maneira bastante suja, desejaria que o novo presidente tivesse uma estratégia mais inteligente. Enrique Peña Nieto representa um PRI muito atrasado, o do Estado do México. É produto do PRI mais autoritário, mais opaco e, talvez, o mais corrupto do país. Mas o México mudou nestes últimos anos. A história não é uma massa de modelar que os governantes modelam ao seu bel prazer. Para além dos planos do PRI, esse grupo é uma peça dentro de uma engrenagem de poder mais complexa. Um dos erros que se comete é pensar que o facto de o PRI regressar ao poder significa a volta do presidencialismo.

O PRI, porém, demonstrou que não se transformou. A sociedade sim. Como acreditar que um partido com tantas histórias feias possa, de uma hora para outra, sanear-se a si mesmo e sanear o país?

Quem iria acreditar que um partido como o PAN, que durante mais de 70 anos acumulou toneladas de decência e ética, iria entregar um país mais corrupto do que recebeu? O que veremos no México é uma grande batalha entre o México autoritário e o México democrático. O México democrático é aquele que, no sentido moderno, quer transparência, respeita a diversidade sexual e os direitos humanos. Para mim, trata-se de entender a realidade sem satanizar ninguém para defendermos aquilo que já alcançamos.

Tradução: Katarina Peixoto

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