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Mercados opacos cada vez mais financiarizados

Os contratos de futuros1 sobre o ouro negro representarão 30 a 35 vezes o volume do comércio real de petróleo.
Nicolas Sarkozy, na entrevista de 24 de Abril à televisão, pôs em causa a "incrível" especulação que provoca a subida brutal dos preços das matérias primas.
Artigo de Adrien de Tricornot, publicado no jornal Le Monde

O secretário-geral da Organização dos países exportadores de petróleo (OPEP), Abdallah El-Badri, declarou, na Quarta feira 21 de Maio, que o mercado petrolífero se tinha tornado "completamente louco". E o empresário de chocolate Cadbury considerou que os hedge funds (fundos especulativos) eram directamente responsáveis pela subida dos preços do cacau.

Mas para Philippe Chalminh, professor na Universidade Paris-Dauphine, "a especulação é a espuma da vaga, o importante é a vaga". "A subida dos preços das matérias-primas provém, evidentemente, de uma tensão entre a procura e as capacidades de produção. A especulação apenas amplifica e precipita o movimento de alta dos preços", acrescenta Antoine Brunet, conselheiro da empresa Lazard Frères Gestion.

Se o debate está aberto, é porque estes mercados se transformaram profundamente nestes últimos anos, com a explosão dos produtos financeiros, derivados sobre petróleo, cacau, níquel, etc. Os contratos de "futuros" permitem definir uma opção no preço de uma matéria prima - ou de um índice que agrupe várias matérias primas - a um prazo mais ou menos longo. Criados para permitir aos agentes económicos protegerem-se contra as evoluções dos preços, os mercados de derivados transformaram também produtos essenciais em activos financeiros como os outros, nos quais se pode ganhar dinheiro rapidamente. O afluxo de capitais, na compra, nos mercados de derivados provocou assim a subida dos preços "a prazo" que servem, entre outros critérios, de guia para o mercado físico.

Neste últimos meses, o fenómeno acelerou-se fortemente, coincidindo com a subida dos preços. Num estudo de 28 de Abril, o banco UBS, que se baseia nos dados da Commodity and Futures Trade Commission (CFTC) - o regulador do mercado americano de derivados - calcula que as posições especulativas na compra nos mercados de derivados de metais preciosos são hoje 1,7 vezes superiores à média desde 1994.

Para os produtos agrícolas, elas são 2,8 vezes mais fortes. "As forças especulativas amplificam as subidas de preços das matérias-primas", explica Dominic Schnider, responsável da área de matérias-primas no UBS Wealth Management em Singapura. "No entanto, acrescenta este perito, é impossível avaliar a parte do preço equivalente à especulação".

As previsões sobre a escassez futura das matérias-primas divergem. Sobretudo, os números da CFTC são apenas a parte visível do icebergue. Assim, algumas ordens especulativas, realizadas pelos bancos por conta dos seus clientes, não figuram lá. Sobretudo, este tipo de operação passa cada vez mais por mercados OTC (over the counter - mercados privados, directamente entre os bancos e os seus clientes), que não são nem regulados, nem organizados e portanto sobre os quais muito poucas informações estão disponíveis, à imagem do mercado de câmbios.

Qual é o seu peso? Recortando as declarações dos bancos da Organização de Cooperação de Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre as suas actividades nos mercados de derivados OTC - câmbio, taxas, crédito, matérias primas, etc. - pode-se deduzir que há duas vezes mais actividade no mercado de comum acordo (directamente entre os bancos e os seus clientes) dos derivados de matérias-primas que nos mercados organizados e, sobretudo, que o crescimento da actividade aumenta lá muito mais rapidamente", explica Frédéric Lasserre, responsável da área de matérias-primas na Société Générale (banco francês). "De 2000 a 2006, o volume de comércio real de petróleo aumentou 13% e o montante dos produtos derivados OTC 260%. Transacciona-se nos mercados de produtos financeiros 30 a 35 vezes o volume de comércio real do petróleo", calcula Lasserre.

Qual é o impacto do apetite pelo petróleo virtual no curso do ouro negro? "Há tantas respostas quantos diferentes métodos usados para o calcular. Grosso modo, os nossos estudos mostram que um quarto do preço não se pode explicar pelo actual equilíbrio entre oferta e procura, mas este número deve ser tomado com muita precaução", diz Lasserre. O mesmo cálculo para Schnider (UBS), que antecipa um recuo do preço do petróleo para 105 dólares nos próximos doze meses, porque "o mercado petrolífero está desligado dos dados fundamentais da oferta e da procura".

A situação será diferente para os outros produtos: "Por razões estruturais da oferta e da procura, a alta dos preços dos produtos agrícolas e dos metais deverá continuar nos próximos doze meses, mas com diferenças muito fortes segundo o tipo de matérias primas. Nestes movimentos, pode haver exageros devido à especulação, mas eles não duram a longo prazo", acha Schnider.

A falta de transparência deveria permitir a continuação da volatilidade. O mercado do petróleo é "um terreno extremamente opaco", explica Jean Marie Chevallier, professor em Paris-Dauphine e director do Centro de geopolítica da energia e das matérias primas: "Suspeito que certos actores emitem rumores para influenciar os mercados". Nos Estados Unidos, o Senado fez um inquérito e alguns profissionais evocaram presumíveis manipulações.

Adrien de Tricornot, 3 de Junho de 2008.

Tradução de Carlos Santos

1 Futuros são contratos de compra e venda de uma dada quantidade e qualidade de um bem, ou de um serviço, num local e numa data futura específica, a um preço fixado no presente.
 

(...)

Resto dossier

Dossier preço do petróleo

Afinal, até que ponto pesa a especulação no preço final do barril de petróleo? Mais de 60%, como dizem uns? Apenas um quarto, como dizem outros? Não há especulação, como dizem ainda outros? Atingimos ou não o "pico do petróleo", isto é, esgotámos mais de 50% das reservas mundiais? O que acontece, afinal, com a oferta e a procura de petróleo? Até que ponto o crescimento do consumo da China é o responsável pela actual situação? Este dossier do Esquerda.net apresenta perspectivas e respostas diversas a estas e outras questões.

Por que o preço do petróleo está alto?

Como explicar o preço do petróleo? Porque é tão alto? Está a esgotar-se? Os fornecimentos estão a ser interrompidos, ou o preço alto é reflexo da ganância das companhias petrolíferas ou da OPEP? Chávez e os sauditas estão a conspirar contra nós?

Por Paul Craig Roberts, Information Clearinghouse

Mercados opacos cada vez mais financiarizados

Os contratos de futuros1 sobre o ouro negro representarão 30 a 35 vezes o volume do comércio real de petróleo.
Nicolas Sarkozy, na entrevista de 24 de Abril à televisão, pôs em causa a "incrível" especulação que provoca a subida brutal dos preços das matérias primas.
Artigo de Adrien de Tricornot, publicado no jornal Le Monde

Números do petróleo

Para o economista norte-americano, colunista do New York Times, a alta do preço do petróleo explica-se porque houve um crescimento do produto mundial bruto, que não foi acompanhado pela produção petrolífera, que estagnou. Publicamos em seguida a tradução de duas colunas publicadas no diário norte-americano.

Por Paul Krugman, do New York Times

OPEP: o mercado petrolífero está louco

O ministro argelino de Energia e actual presidente da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), Chakib Khelil, disse que "o mercado petrolífero está louco". Para este responsável, a OPEP nada pode fazer para baixar os preços do petróleo, já que a alta se deve a tensões geopolíticas, à desvalorização do dólar e à especulação, e não à falta de oferta.

Stiglitz: A guerra do Iraque é um factor importante no aumento de preços

Para o prémio Nobel da economia, embora existam outros factores envolvidos no aumento de preço do petróleo, a guerra do Iraque é claramente um factor importante. Stiglitz lembra que antes da guerra, já considerando a crescente procura de energia da Índia e da China, os mercados de futuros projectavam que o preço do petróleo se manteria em torno de 23 dólares por barril. Foi a guerra - e a volatilidade que tem causado - juntamente com a queda do dólar devida às baixas taxas de juro e ao enorme défice comercial, a responsável por grande parte da diferença que se verifica.

Entrevista de Nathan Gardels, The Huffington Post

O preço do petróleo zomba da realidade dos combustíveis

Para este economista e jornalista americano, especialista na questão energética, nenhuma crise de oferta justifica o nível de preços praticados actualmente. Neste artigo, ele sustenta que pelo menos 60% do preço do petróleo vem da especulação dos mercados de futuros, orquestrada pelos fundos especulativos, pelos bancos e grupos financeiros. Engdahl considera ainda que a teoria do "pico do petróleo" - o argumento de que a produção do petróleo atingiu o ponto em que mais da metade das reservas foi utilizada - é um embuste que ajuda a especulação.
Por F. William Engdahl, AsiaTimesOnline

O poder mudou de campo

No início dos anos 1970, quando o barril de "ouro negro" valia menos de 2 dólares, ninguém iria imaginar que um presidente americano se encontraria um dia na situação de ser obrigado a implorar ao rei da Arábia Saudita por um aumento da produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com o objectivo de forçar uma redução dos preços. O Ocidente, no entanto, chegou a esse ponto.
Artigo de Jean-Michel Bezat, publicado no jornal Le Monde em 20 de Maio de 2008

Multimilionário diz que a especulação é a principal causa da alta do petróleo

O multimilionário George Soros - ele mesmo o maior investidor de fundos privados do mundo - afirma que a principal causa para o aumento dos preços do petróleo é precisamente a especulação. Em entrevista ao "Daily Telegraph", Soros defende que apesar da queda do dólar e do aumento da procura na China influenciarem os preços da matéria-prima, são os especuladores que mais fortemente afectam a subida de preços, que começam a "ter a forma de uma bolha".