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Hong-Kong: seis meses de revolta em defesa da autonomia

Em junho de 2019, a revolta explodiu em Hong-Kong, os protestos mantiveram-se durante o resto do ano. Nas eleições locais, em novembro, o campo pró-Pequim foi esmagado e no último mês do ano o movimento reafirmou cinco exigências ao governo.
Hong-Kong, marcha de protesto contra o governo de Carrie Lam, 21 de julho de 2019 - Foto de Jerome Favre/Epa/Lusa
Hong-Kong, marcha de protesto contra o governo de Carrie Lam, 21 de julho de 2019 - Foto de Jerome Favre/Epa/Lusa

Em junho de 2019, explodiu a revolta em Hong-Kong contra a lei de extradição para a China, que o governo de Carrie Lam queria impor, dando como prazo a sua aprovação no Conselho Legislativo até ao fim daquele mês. A extradição para a China visava que os acusados fossem julgados segundo a lei judicial chinesa. A proposta governamental foi, desde o início, contestada pelas ONG’s e pelo movimento pró-democracia.

Na verdade, a proposta do governo era uma exigência do poder de Pequim e do presidente da China, Xi Jinping, que procura esvaziar a autonomia de Hong-Kong1, estabelecida segundo o acordo para a devolução da soberania do Reino Unido para a China em 1997 e que garante a sua vigência até 2047.

A primeira resposta do governo de Hong-Kong foi manter e reafirmar a sua proposta, o que levou ao alargamento e à multiplicação dos protestos. Durante seis meses, a revolta tomou conta de Hong-Kong.

Em três meses, a lei de extradição caiu, após uma greve geral em agosto e após diversas tentativas falhadas de Carrie Lam manter a iniciativa, embora adiando-a. O movimento foi sempre crescendo e o governo, assim como o poder de Pequim, foram obrigados a recuar. No final de agosto, quando se entrava na 12ª semana de protestos, mais de dois milhões de pessoas manifestaram-se nas ruas e fizeram um cordão de 48 km. O movimento prosseguiu em crescendo apesar da repressão policial e, por fim, o governo acabou por anunciar a retirada da proposta de lei da extradição, no início de setembro.

Mesmo após o recuo do governo, os protestos prosseguiram em Hong-Kong, apesar do aumento da repressão e sob as ameaças de intervenção do exército chinês.

Em novembro, os estudantes da Universidade chinesa fizeram greve e ocuparam o campus universitário. A luta, entretanto, generalizou-se aos diferentes bairros, ampliando-se a base de massas dos protestos e a capacidade de mobilização.

Nas eleições locais, realizadas a 24 de novembro, o campo pró-Pequim sofreu uma significativa derrota, com a oposição a ganhar 17 dos 18 conselhos distritais.

Os representantes do autointitulado campo pró-democracia ganharam 347 lugares em 452. Estas eleições expressaram a profunda indignação da população de Hong-Kong e deram novo alento à luta em defesa da autonomia.

A 8 de dezembro, centenas de milhares de pessoas comemoraram seis meses de protestos e reafirmaram cinco reivindicações ao governo:

“investigação independente à repressão policial; abandono da acusação por ‘motim’ aos manifestantes; retirada completa da lei da extradição; amnistia para manifestantes presos; eleição com sufrágio universal”.


1 De acordo com o princípio chinês “um país, dois sistemas”, Hong-Kong tem um sistema político diferente do da República Popular da China, com uma ampla autonomia, à exceção dos negócios estrangeiros e da defesa.

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