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A Guerra e as Mulheres

A independência é a maior ameaça ao Reino Unido enquanto potência mundial desde a descolonização, fornecendo a uma Escócia independente a oportunidade de adoptar uma política estrangeira independente e justa. Artigo de Cat Boyd e Jenny Morrison.
Manifestação em Londres contra o ataque à Líbia. Foto Stop the War Coalition/Flickr

No debate sobre o referendo, ambos os lados concordam que a Escócia precisa de forças armadas fortes e poderosas, mas discordam no que diz respeito ao impacto da independência do ponto de vista militar. Para os unionistas do Labour e do partido Conservador, a separação do Reino Unido expõe a Escócia (e o mundo) a uma enorme insegurança. “Seria um cataclismo se a segunda maior potência militar do Ocidente se estilhaçasse”, declarou o Trabalhista George Robertson, ex-secretário geral da NATO, “as forças do mal rejubilariam”. Apesar da linguagem um tudo-nada exagerada, Robertson é o exemplo típico da opinião instalada de que o exército britânico nos protege de “ameaças”, sejam elas russas, chinesas ou terroristas. Os unionistas sublinham também o impacto económico da perda de influência militar. O antigo secretário de estado da defesa, o Conservador Philip Hammond, avisou os escoceses de que deveriam esperar perdas graves nos empregos ligados ao exército, tais como os estaleiros, esquecendo-se de mencionar os mais de 1.500 empregos que já foram extintos na BAE Systems nos últimos nove meses.

Enquanto as políticas unionistas são abertamente militaristas, há elementos progressistas na campanha do SIM, especialmente no que diz respeito ao armamento nuclear. Tirar o Trident do Clyde representa uma enorme oportunidade para a Escócia de tomar a liderança do movimento mundial pela paz.

Enquanto as políticas unionistas são abertamente militaristas, há elementos progressistas na campanha do SIM, especialmente no que diz respeito ao armamento nuclear. Tirar o Trident do Clyde representa uma enorme oportunidade para a Escócia de tomar a liderança do movimento mundial pela paz. Ainda assim, este assunto tão importante pode esconder estratégias parecidas entre a campanha oficial pelo SIM e o Better Together. A reviravolta do SNP na sua posição sobre a NATO foi um forte golpe no movimento pela paz, vendo protagonistas nacionalistas prometer aos líderes Americanos e Europeus que a Escócia é um “aliado responsável”. A pequena mas influente ala militarista do SNP acredita que a Escócia precisa de um grande exército depois da independência.

Como feministas, rejeitamos a história que nos conta a campanha do NÃO: as armas não nos protegem e os gastos no exército são uma maneira fraca de garantir empregos. Acima de tudo, rejeitamos o consenso transpartidário de Westminster de que a Grã-Bretanha precise de um sistema de armas nucleares. Despesas militares altíssimas e políticas estrangeiras de caráter agressivamente intervencionista não só não protegem os cidadãos, como também têm um efeito adverso no que diz respeito ao género, duplicando e reproduzindo a desigualdade entre homens e mulheres. A seguir à independência, pode perfeitamente reduzir a despesa militar sem comprometer a segurança. Pode reinvestir o dinheiro na criação de empregos socialmente úteis, reduzindo a necessidade de políticas de austeridade ou aumento de impostos. A maior ameaça contra as mulheres não vem dos estados-pária, mas sim da violência doméstica e sexual (entre outras ameaças) nas suas próprias casas, locais de trabalho e círculos sociais. As mulheres na Escócia, no Reino Unido, e em qualquer outro país sofrem mais com a guerra e com os conflitos, mesmo quando as grandes potências ocidentais insistem que estão a usar o poder militar para benefício delas. Queremos demostrar que a redução das forças armadas britânicas seria benéfica para as mulheres, tanto aqui como no resto do mundo.

Os problemas económicos

O emprego no exército tem sido usado sem pudor no debate do referendo para manipular a opinião pública. Os dirigentes do Better Together têm jogado com os receios compreensíveis em relação ao desemprego nas forças de defesa. Mas por muito que o corte da despesa em armamento vá significar o fechamento de alguns postos de trabalho, a Escócia criaria muito mais empregos com o dinheiro que passaria a poder investir noutros setores. Os gastos militares são uma das formas menos eficazes de criar emprego. Um estudo dos EUA sugere que mil milhões de dólares gastos criaria apenas 11.200 postos de trabalho. Por outro lado, a mesma quantia criaria 16.800 postos de trabalho na área das energias renováveis, 17.200 na área da saúde, ou 26.700 na educação. Oferecendo nova formação aos trabalhadores e redireccionando os gastos, será possível criar um futuro seguro e sustentável.

Os debates sobre os mísseis nucleares do Trident exemplificam perfeitamente a propaganda unionista. Segundo Jim Murphy, secretário de estado-sombra pelo Labour para o Desenvolvimento Internacional, a independência seria “um golpe fatal para Faslane e para milhares de empregos por toda a Escócia”. O que Murphy não diz é que, desviando os gastos no Trident, seria possível criar empregos civis muito mais úteis. Num relatório encomendado pela Campaign for Nuclear Disarmament [Campanha pelo desarmamento nuclear] escocesa e pelo Scottish Trades Union Congress [central sindica], os resultados mostram que a manutenção do Trident será muito pior para a Escócia, e que o investimento nele feito tem repercussões na falta de emprego em geral.

Se as armas nucleares são mesmo uma maneira de criar empregos, então são, em termos de custo, claramente ineficazes. Mas na realidade são apenas a maneira da Grã-Bretanha manter como reféns os países rivais.

O Trident representa as prioridades britânicas mais distorcidas e militaristas. Apesar do seu estatuto reduzido a estado-vassalo da América, o Reino Unido é um dos países que gasta mais no exército, logo atrás da França, da China, e dos EUA. Gastamos o dobro da Coreia do Sul, ainda que eles tenham Kim Jong-Un como vizinho.

Não há nenhuma justificação para manter as armas nucleares no Clyde, nem noutro sítio qualquer do planeta. Até Tony Blair admite que não há nenhuma ameaça militar ou à segurança nacional que justifique a renovação e a manutenção do Trident, a um preço que ele diz ser “enorme”. Blair admite que a Grã-Bretanha só continua a ter armas nucleares porque, deitá-las fora, seria uma “despromoção demasiado grande no nosso estatuto enquanto nação”. O Trident representa as prioridades britânicas mais distorcidas e militaristas. Apesar do seu estatuto reduzido a estado-vassalo da América, o Reino Unido é um dos países que gasta mais no exército, logo atrás da França, da China, e dos EUA. Gastamos o dobro da Coreia do Sul, ainda que eles tenham Kim Jong-Un como vizinho.

Quando a Grã-Bretanha dá prioridade ao poder imperial e não ao bem-estar social e económico dos seus cidadãos, isto reflete-se na sociedade em termos de género. Os dirigentes Tory e Labour em Westminster concordam em gastar 130 biliões de libras na renovação do Trident. Ao mesmo tempo, concordam que a austeridade é fundamental para resguardar a economia. Relatório sobre relatório, tem sido provado que estes cortes afetam mais duramente as mulheres. A Fawcett Society chegou a entregar nos tribunais um pedido de revisão do pacote de austeridade, tal era a dureza das medidas em relação à igualdade de género. Os cortes nos serviços públicos e na segurança social discriminam as mulheres, em particular. Por outro lado, os empregos na indústria militar são altamente segregados de acordo com o género e o seu lugar central na economia favorece a desigualdade.

Consequentemente, para lá dos problemas éticos do investimento em armas, há uma questão fulcral de custo de oportunidade. Cada libra destinada à despesa militar podia ser usada noutra coisa, criando mais empregos, com melhores condições e mais seguros. Quase todas as alternativas à despesa militar teriam resultados mais progressistas em termos de género. Por muito que percebamos os receios relacionados com os empregos no exército, é importante confrontar esses mitos e sublinhar a ineficácia bem como o potencial destrutivo dessas escolhas.

Proteger a sociedade

Com os argumentos económicos em mente, uma análise feminista pode sublinhar alguns dos mitos das versões tradicionais de “segurança”. A interpretação dominante diz que a despesa militar protege os cidadãos das ameaças internas e externas, e portanto, a compra regular de armas é geralmente chamada “defesa”. Muitos destes gastos justificam-se com a necessidade da Grã-Bretanha se proteger de ataques terroristas. Mas mesmo na América foi provado que morre mais gente por ano esmagada por desmoronamentos da mobília ou por levar com uma televisão do que assassinada por terroristas. No Reino Unido, os acidentes rodoviários causaram mais mortes na última década do que os atentados terroristas. Por outro lado, morrem duas mulheres por semana assassinadas pelo seu companheiro anterior ou atual, e há uma participação de violência doméstica por minuto.

O que significa então a segurança? Se levarmos o termo a sério, significa viver sem ansiedade e medo da violência. As mulheres na Grã-Bretanha vivem em constante insegurança, e seriam elas quem mais beneficiaria de uma sociedade realmente “segura”.  Mas enquanto a Grã-Bretanha dedica biliões no confronto daquilo a que Robertson chamou “as forças do mal”, faz muito pouco para proteger as mulheres que cuja segurança está realmente em causa.

A realidade é que a violência doméstica e sexual são as maiores ameaças ao bem-estar mental e físico. Desde que começou a austeridade, 40% das associações não-governamentais e dos grupos de apoio à vítima perderam funcionários e 28% perdeu subsídios, de acordo com a informação divulgada pela Universidade de Worcester. Ainda que a Escócia tenha conseguido manter mais subsídios, é provável que os cortes se aprofundem, se a austeridade continuar em vigor. Mais uma vez, levanta-se um problema de prioridades. Uma nação que leve a sério a segurança, não gasta biliões a lutar inimigos-fantasma enquanto fecha centros de acolhimento a vítimas de violação.

As culturas militaristas são intrinsecamente uma ameaça para as mulheres. Um relatório para a Comissão para a Igualdade de Oportunidades demonstrou que uns 99 impressionantes pontos percentuais das mulheres no exército britânico tinham assistido a assédio sexual, e 67% tinha-o sofrido diretamente. O relatório também mostrou que apenas metade dos casos participados foi tratado com eficácia. Isto reflete tendências duradouras. Um relatório de 2033 revelou que oito em cada dez mulheres nas forças armadas americanas foi assediada, e um terço foi raptada. A investigação levada a cabo pela historiadora militar Prof. Madeline Morris demonstrou que em sociedades envolvidas em guerras, a violência sexual aumenta mesmo em períodos de paz. Estes dados e estatísticas demonstram o facto de que o militarismo é uma ameaça à vida das mulheres. O chauvinismo nacional e o chauvinismo de género estão relacionados; as práticas de humilhação sexual nas forças armadas têm impactos diretos na sociedade. O redirecionamento dos recursos da sociedade para melhores fins pode ajudar a criar comunidades mais seguras tanto para as mulheres como para os homens.

A nível internacional

Hoje em dia é moda dar legitimidade ao militarismo ocidental com termos vindos do feminismo liberal. Na batalha pelo apoio da opinião pública às guerras do Iraque e do Afeganistão, os políticos do sistema adoptaram a retórica da “emancipação das mulheres”. A torturas sinistras e o abuso das mulheres afegãs pelos Talibãs, ou das mulheres iraquianas por Saddam Hussein, deram crédito a este discurso. A resposta, para estes humanitários liberais, era semear de bombas o território do opressor. As invasões pelas forças ocidentais trariam novos direitos e oportunidades às mulheres oprimidas, incapazes de se defender a elas próprias.

Esta mistura de jingoísmo dentro de portas e de “libertação” das mulheres dos outros países não é original. Como destaca Kate Viner:

“(…) esta apropriação da retórica feminista não é novidade, sobretudo se a sua função for expansionista. Há um paralelo perturbador com outra geração de homens que, da mesma forma, se estavam nas tintas para a libertação das mulheres. O establishment masculino vitoriano, que levou às grandes expedições imperialistas do século XIX, virou-se duramente contra as cada vez mais audíveis reivindicações feministas e as suas vitórias ocasionais (uma mão cheia de mulheres que foi para a universidade, ou novas leis que permitiam que mulheres divorciadas fossem proprietárias), mas, ao mesmo tempo, pelo resto do mundo, serviu-se da linguagem do feminismo para pilhar as colónias.”

Tal como a maior parte das feministas genuínas previram, o poder militar do Ocidente provou ser uma resposta francamente pobre às necessidades das mulheres do resto do mundo. Custando biliões, a guerra do Iraque conseguiu, segundo alguns relatórios, fazer “recuar os direitos das mulheres setenta anos”. Antes da Guerra do Golfo em 1991 e das sanções económicas contra o Iraque, as mulheres tinham um papel determinante na economia iraquiana e detinham cargos em posições de chefia tanto no setor privado como no público. As mulheres estavam protegidas por leis do trabalho e do emprego que previam salário igual, baixas de maternidade de seis meses com vencimento, e protecção contra o assédio sexual. Foi só em 1991, com a Guerra do Golfo e as sanções impostas pelos americanos que os direitos das mulheres no Iraque se deterioraram. Um milhão de civis iraquianos, mais de metade crianças, morreram à fome por causa das sanções dos EUA. Tal como o Observatório dos Direitos Humanos sublinhou:

“As mulheres e as raparigas foram afetadas desproporcionalmente pelas consequências económicas das sanções das Nações Unidas, deixando de ter acesso a comida, cuidados de saúde ou educação. Estes efeitos foram complementados por alterações legais que restringiram a mobilidade das mulheres e o acesso ao mercado de trabalho, numa tentativa de garantir empregos para a população masculina e de apaziguar grupos religiosos e tribais.”

A invasão do Iraque de 2003 deixou as mulheres e as raparigas vulneráveis a um desespero crescente. Se os líderes britânicos e americanos queriam mesmo associar os mísseis de cruzeiro a propósitos feministas, tiveram (na melhor das hipóteses) um sucesso limitado. Esta nunca foi, claro está, a intenção. Numa maneira tipicamente machista e viril, os seus objetivos reais eram a subordinação económica, geopolítica e cultural de regiões ricas em óleo e gás. As tentativas de contato com feministas locais foram feitas à pressa, no melhor dos casos — e ostensivamente hostis nos outros. Em termos gerais, e com um preço extraordinariamente elevado, uma década de ocupação do mundo muçulmano fez recuar a causa da emancipação várias gerações. Tal como a despesa militar não assegura a segurança económica ou social das mulheres, a guerra nunca será um instrumento para a sua emancipação. Quando se apropriam da linguagem feminista, os líderes ocidentais estão a associar ativistas genuínas a objetivos imperialistas, o que tem resultado apenas no apoio a sistemas misóginos e reacionários. O militarismo e o feminismo internacionalista são incompatíveis.

Conclusão

Para concluir, um voto no SIM deve levar a uma redução da despesa militar, que beneficiará as mulheres na Escócia e para lá dela. A não ser que votemos SIM, o Reino Unido continuará subordinado à América. O resultado é que o Reino Unido gastará biliões para preservar esta aliança, a indústria de armas e a sua posição no Conselho de Segurança da ONU. Estas prioridades facilitam a institucionalização do sexismo ao desviarem recursos dos serviços que aliviam a desigualdade de género, ao reduzirem o apoio a mulheres vítimas de abuso e ao reforçarem o mito de que as mulheres precisam da assistência de “ajudantes” masculinos externos para se libertarem.

Enquanto a posição do Reino Unido como potência militar mundial continuar a não ser questionada, estas prioridades militaristas continuaram a ser dominantes. A independência é a maior ameaça ao Reino Unido enquanto potência mundial desde a descolonização, fornecendo a uma Escócia independente a oportunidade de adoptar uma política estrangeira independente e justa.

No entanto, temos de confrontar também as posições militaristas dentro do SNP e do movimento pelo SIM. Já vimos os recuos da posição em relação à NATO, que era um compromisso nacionalista tradicional. Os representantes do SNP querem comprometer a Escócia a manter números iguais aos correntes nas forças armadas, mas custando 2,5 biliões de libras por ano. Ainda que isto representasse uma enorme poupança nos nossos gastos e nos libertasse do Trident, a Escócia estaria a manter elementos de militarismo desnecessários. Como mostrámos, isso só virá danificar a nossa sociedade, a nossa cultura e as nossas comunidades. Se a Escócia se quer separar dos padrões de sexismo do Reino Unido, devia tentar alcançar um redirecionamento muito mais sério dos recursos militares para objetivos úteis.


Cat Boyd e Jenny Morrison integram a Radical Independence Campaign.
Publicado inicialmente no caderno Scottish Independence: a feminist response, editado por World Power Books. Traduzido por Mariana Vieira.

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