(Ex)citações de apoio à guerra

O mais empenhado propagandista da invasão do Iraque foi José Manuel Fernandes, hoje mentor do diário de direita Observador. Há doze anos, não esteve sozinho. Lembremos quem fez da palavra a apologia de um crime.

22 de março 2015 - 10:14
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A mentira inicialmente repetida como um refrão; a euforia das semanas da invasão, com os bombardeamentos e o avanço dos tanques pintados como uma “libertação”.

Reunimos aqui uma pequena seleção de frases publicadas entre finais de 2002 e finais de 2003. Correspondem aos três momentos do discurso belicista nesse período: a mentira inicialmente repetida como um refrão; a euforia das semanas da invasão, com os bombardeamentos e o avanço dos tanques pintados como uma “libertação”; e, por fim, a evidência do caos nas mortes do lado invasor e no colapso da fraude sobre as armas de destruição massiva.

No dia 19 de março, cumprem-se doze anos sobre o início da invasão do Iraque, um crime contra a humanidade que abriu um longo ciclo de violência descontrolada em todo o Médio Oriente. A mais recente dimensão desse horror é a ação da organização Estado Islâmico.

Antes da invasão

“O Iraque tem armas de destruição maciça, biológicas e químicas, e pode estar na iminência de possuir armas nucleares”.

  • Durão Barroso, então primeiro-ministro, no parlamento, 20/9/2002.

“Quantos milhões de europeus estão dispostos a morrer em consequência do antraz que Saddam tem? Ou por envenenamento das águas como os curdos? Ou por um ataque como o do 11 de Setembro nos EUA? Ou a verem os seus filhos serem mortos quando vão a caminho da escola, porque um suicida que os acha infiéis se lhes atravessou no caminho?”.

  • Helena Matos, Público, 12/2/2003

Passear nu pelo Rossio, se não fossem encontradas armas de destruição maciça. Foi o que prometeu Vasco Rato no primeiro dia da guerra, quando se dirigia à audiência de um colóquio da revista História na Hemeroteca de Lisboa (20/3/2003). Hoje, preside à Fundação Luso-Americana.

 

“Prefiro que seja o mais benigno dos impérios que a humanidade conheceu, o império americano, a tomar nas suas mãos a liderança. E a levar aonde for necessário o exemplo da sua democracia, das suas instituições e do seu modo de vida”.

  • José Manuel Fernandes, então diretor do Público, 26/3/2003.

Início da ocupação

“Se ontem não consegui evitar uma lágrima furtiva – a mesma lágrima furtiva que nunca reprimo quando revejo a cena da Marselhesa no “Casablanca”, ou a imagem de Francisco Sousa Tavares, no Largo do Carmo, falando à multidão que cercava o quartel onde se refugiara Marcelo Caetano – não deixo por isso de saber que a batalha não está terminada, que são imensas as dificuldades e as incógnitas ainda pela frente”.

  • José Manuel Fernandes, Público, 10/4/2003.

“Releiam as previsões catastrofistas que fizeram há apenas um mês. Não sejam adolescentes: aprendam com os disparates que disseram e escreveram. Como é Páscoa, vou ser piedoso: deixo o trabalho de memória desses disparates aos seus autores”.

  • José Manuel Fernandes, Público, 21/4/2003.

A mentira exposta e o descalabro militar

“[A inexistência de armas de destruição maciça] não pode ser usada como argumento contra a invasão por uma razão óbvia: essa constatação só pode ser feita depois da invasão”.

  • José António Saraiva, então diretor do Expresso, 3/5/2003.

“Os motivos para a guerra não desaparecem, pois, mesmo sem arsenais, Saddam possuía forma de os obter, e esse é que era o perigo: a eventual convergência entre um regime com capacidade para construir armas de destruição maciça e terroristas com vontade de as largarem em qualquer grande cidade do Ocidente”.

  • José Manuel Fernandes, Público, 30/5/2003.

“[A hipótese da mentira] subdivide-se em duas: numa, as informações eram de má qualidade e os governos agiram de boa-fé; noutra, as informações foram adulteradas pelos governos para justificarem a intervenção, com base em falsidades deliberadas. (...) Seria bem menos grave se se tratasse de uma crise de informações de má qualidade do que se tivesse havido um engano deliberado. Neste caso, mesmo sem que isso legitimasse a posteriori muitas das posições anticoligação, colocaria os defensores dos EUA e Reino Unido na posição de idiotas úteis e os seus governantes numa posição ilegítima em democracia”.

  • Pacheco Pereira, Público, 26/6/2003.

“Julguei a intervenção anglo-americana justificada pelo legítimo interesse do Ocidente em garantir a segurança própria e global, bem como o acesso aos recursos energéticos que sustentam a sua civilização e que seria pura irresponsabilidade deixar entregues a inimigo. (...) [O descalabro da ocupação] levanta dúvidas arrasadoras sobre a competência com que os americanos planearam o pós-guerra. O lúgubre espetáculo a que todos os dias assistimos é quanto basta para condenar a sua irresponsável imprevidência”.

  • Fátima Bonifácio, Público, 8/12/2003.

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