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Espanha entra na espiral da morte

O prémio de risco não parou de aumentar e ontem chegou aos 410 pontos, enquanto os juros dos títulos da dívida escalaram para 5,8%. Neste curso a Espanha não está só. Ontem também aumentou o prémio de risco de Itália, França, Grécia e Portugal. O de França escalou a 123 pontos, o de Itália a 378, o de Portugal a 1.050 e o da Grécia a 2.040 pontos. Por Marco Antonio Moreno
Imagem retirada de El Blog Salmón

Muito longe de terminar, a crise europeia está ainda na fase inicial, aprofundando-se, ampliando-se e agravando-se mais em cada dia. O prémio de risco não parou de aumentar como temos destacado e ontem chegou aos 410 pontos, enquanto os juros dos títulos da dívida escalaram para 5,8%, o nível mais alto desde novembro, desde antes da aplicação dos planos de Mario Draghi.

Neste curso a Espanha não está só. Ontem também aumentou o prémio de risco de Itália, França, Grécia e Portugal, entre outros. O de França escalou a 123 pontos, o de Itália a 378, o de Portugal a 1.050 e o da Grécia a 2.040 pontos, dando conta de uma situação insustentável e da sombria década que aguarda os países atrelados ao euro. Porque no fim de contas é o euro o grande problema destes países perante a impossibilidade de desvalorizarem a sua moeda. Isto levou a Espanha a entrar na espiral da morte, esse círculo autodestrutivo que a recessão e a austeridade provocam.

A Espanha passou a representar todos os fracassos da união monetária: desde a sua criação cheia de boas intenções que foi obscuramente manipulada (como mostra o caso grego com a ajuda de Goldman Sachs, ainda que essa tónica se tenha repetido noutros países, como a Itália de Mario Monti). Deste fracasso dão conta estas frias estatísticas: uma contração anunciada pelo governo de 1,7% para este ano e que na verdade será de 3%; um nível de desemprego a aumentar e que chegará a 25% em maio; um nível de crédito mal parado que se aproxima de 8% e uma queda no preço das casas que este ano chegará a 33% desde o seu valor máximo. Este é o calvário que instala uma enorme pressão sobre os balanços bancários e o investimento privado, tornando tudo ainda mais instável.

Perante esta situação, que é um perigo grave de todos os pontos de vista, a União Europeia encabeçada por Angela Merkel apenas exige mais austeridade. E os obedientes governos espanhóis têm cumprido essa ordem com total submissão. Algo que certamente não passa despercebido aos investidores e ontem se tornou célebre pelo tweet de Bill Gross1 que dizia: “Grécia era um grão, Portugal é um furúnculo e Espanha é um tumor”. A realpolitik da austeridade germânica aplicada sem anestesia em países com doenças complexas, só piora a situação financeira e afugenta os investidores. Isto é, longe de reconstruir a confiança, a austeridade destrói a pouca que existe. A Espanha anda para trás.

Os líderes da zona euro exigem reduções dos défices mas não se dão conta que para reduzir os défices as economias precisam de crescer e gerar emprego. Deve-se gerar um excedente que permita uma desalavancagem ordenada que ajude a sanear os balanços. Porque assim como não se pode gerar emprego numa economia que se autodestrói, tampouco se pode reduzir os défices sem gerar ainda mais prejuízo à economia e potenciar a autodestruição.

Por isso, os programas do BCE [Banco Central Europeu] foram uma farsa. Injetou-se mais de um bilião de euros (mais de um milhão de milhões de euros) na banca privada nos programas um e dois da operação LTRO sem que deem resultado que mostre a eficácia da tese de Mario Draghi. Isto é, ele continua a desperdiçar em abundância por via das políticas monetárias, enquanto se asfixia e acaba por se destruir a opção das políticas fiscais. Isto mostra que a União Monetária europeia nunca teve o espírito integracionista de uma União Fiscal e sempre foi uma união de negócios... e para negócios. E quando os negócios vão mal, o casamento dissolve-se. É o que está a acontecer na Europa.

Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado em El Blog Salmón. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net


1Gestor do fundo Total Return da PIMCO, a maior gestora de fundos obrigacionistas do mundo.

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