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Documentário

ORGULHO E DOR NA ESTREIA
Milhares de pessoas assistiram à pré-estréia do filme de Lee "When the Levees Broke: A Requiem in Four Acts" (Quando os diques se romperam - Um Requiem em quatro actos). As reacções foram de dor e de orgulho. E também de riso diante de declarações feitas sem meias-palavras, especialmente as críticas ao presidente Bush e à Agência Federal de Administração de Emergências (Fema), que foram acusados de lentidão e ineficácia na reacção ao furacão. "Alguém devia ir preso", diz o trompetista Terence Blanchard diante da câmara.
Nova Orleães reage com orgulho e dor a documentário de Spike Lee

Peter Henderson, Reuters

Os moradores de Nova Orleães vieram de todos os lugares para assistir ao documentário em que Spike Lee mostra sua visão de como o furacão Katrina mudou suas vidas, e suas reacções foram de dor e de orgulho.

"Sabe o que significa sentir saudades de Nova Orleães? Nós sabemos", disse Gerry Carter na quinta-feira, depois de juntar-se às milhares de pessoas que assistiram à pré-estréia do filme de Lee "When the Levees Broke: A Requiem in Four Acts" (Quando os diques se romperam - Um Requiem em quatro actos).

"O filme reabriu feridas antigas. Senti até medo de ver", disse Carter, que ainda não voltou à cidade e hoje vive em Baton Rouge.

As cicatrizes deixadas pelo Katrina ainda são evidentes em muitas partes da cidade. Bairros inteiros não foram limpos, muito menos reconstruídos, desde que o furacão devastou a cidade há quase um ano, inundando 80 por cento e deixando 1.336 mortos na região.

O documentário de Spike Lee, feito para a Time Warner, começa quando a tempestade começa a formar-se, no Golfo do México, e acompanha a sua chegada a Nova Orleães, em 29 de Agosto do ano passado, continuando com o resgate atrasado e a recuperação lenta da cidade.

Entrevistas e trechos de telejornais pintam um retrato do caos, que é intensificado por cenas que variam desde funerais acompanhados por jazz até uma senhora idosa que entra numa casa virada do avesso pelo furacão e começa a chorar.

Numa declaração breve, feita antes da exibição do filme, que terminou pouco antes da meia-noite de quarta-feira, o director disse às pessoas que poderiam rir, se quisessem. E, de fato, ouviram-se gargalhadas diante de declarações feitas sem meias-palavras, especialmente as críticas ao presidente Bush e à Agência Federal de Administração de Emergências (Fema), que foram acusados de lentidão e ineficácia na reacção ao furacão.

"Alguém devia ir preso", diz o trompetista Terence Blanchard diante da câmara, em palavras aplaudidas pelo público.

Muitos dos presentes viram o filme como uma hipótese de Nova Orleães voltar a mostrar que os seus moradores são pessoas honestas e trabalhadoras e que a cidade é um lugar onde as pessoas querem viver.

"Este filme mostra que nem todos os moradores de Nova Orleans são bandidos, violadores ou drogados - são pessoas que têm família e profissão", disse Alex Lewis, ex-consultor, cuja esposa, Mary, disse que os dois viraram "nómadas do Katrina".

"As pessoas sempre querem voltar", disse Maria Edwards, cuja casa, situada no distrito de Lower Ninth Ward, ficou debaixo de quatro metros de água e que ainda vive refugiada fora da cidade.

O filme vai ser exibido [Nos Estados Unidos] pela HBO em duas partes de duas horas cada, começando em 21 de Agosto.

Muitos dos entrevistados no documentário ressaltaram que o desastre deveu-se a problemas nos diques.

"Fico grato, porque o filme mostra que foi um desastre provocado pelo homem", disse o editor cinematográfico Mark Morris, que não trabalhou na produção de Spike Lee.

17 de Agosto de 2006

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Resto dossier

Nova Orleães

Na próxima terça-feira assinala-se o primeiro aniversário do dia em que o furacão Katrina destruiu a cidade de Nova Orleães. Um ano depois, a antes vibrante cidade de Nova Orleães continua a parecer uma área de desastre. Pelo menos 400 mil pessoas da área metropolitana de Nova Orleães não puderam ainda voltar a casa.

A catástrofe não acabou

Um ano depois do Katrina, a situação de Nova Orleães continua de desastre. Dos habitantes da cidade, 200 mil não conseguiram voltar para casa. A cidade perdeu mais de 43 mil casas para alugar e as rendas dispararam, empurrando para fora do mercado as pessoas que não podem pagar tais preços. O índice oficial de aumento de rendas é 39%. Água, electricidade, saúde, educação - tudo piorou.

Documentário

Milhares de pessoas assistiram à pré-estréia do filme de Lee "When the Levees Broke: A Requiem in Four Acts" (Quando os diques se romperam - Um Requiem em quatro actos). As reacções foram de dor e de orgulho. E também de riso diante de declarações feitas sem meias-palavras, especialmente as críticas ao presidente Bush e à Agência Federal de Administração de Emergências (Fema), que foram acusados de lentidão e ineficácia na reacção ao furacão. "Alguém devia ir preso", diz o trompetista Terence Blanchard diante da câmara.

Obra-prima de Spike Lee

No dia em que o Katrina começou o ataque a Nova Orleães, o cineasta Spike Lee participava do festival de cinema de Veneza e recusou-se a deixar o quarto do hotel. "Fiquei lá, de olhos fixos na televisão", disse mais tarde. "Eu não conseguia acreditar que aquilo estava a acontecer nos EUA. O documentário "When the Levees Broke - A Requiem in Four Acts" [Quando as Barragens Se Romperam -Um Réquiem em Quatro Atos], de quatro horas de duração e com depoimentos de mais de cem pessoas é considerado por este artigo da Newsweek "possivelmente o trabalho mais essencial nos seus 20 anos de carreira."

Conclusão do Congresso dos EUA

Uma investigação do Congresso americano descobriu agora que Marty Bahamonde, funcionário da Agência Federal de Administração de Emergências (Fema), constatou o problema da barragem de Nova Orleães e reportou o perigo ao Departamento da Segurança Interna na noite anterior ao acidente. O aviso foi repassado directamente à Casa Branca.

A conclusão é do Congresso, após 5 meses de investigação.

Incompetência americana

Percebemos que os EUA se transformaram num país de Terceiro Mundo quando os libaneses bombardeados recebem mais do que nós", afirma o cartoonista norte-americano Ted Rall, ao comparar os míseros dois mil dólares que o governo dos EUA deu às vítimas do furacão Katrina com o que o Hezbollah deu às vítimas dos bombardeamentos israelitas. O Hezbollah ganha em todas as comparações. Não seria de contratá-lo para reconstruir o World Trade Center?