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China: a revolução silenciosa

Não é raro que acontecimentos importantes nas nossas vidas ocorram sob os nossos narizes e sejamos os últimos a percebê-los. Esse parece ser o caso da nova revolução chinesa. Uma revolução silenciosa, que está a ocorrer diante dos nossos olhos e ninguém parece se dar conta.

O ano de 2011 foi marcado por grandes lutas e, principalmente, revoluções. São tantas e em tantos locais que levantes fenomenais, como ocorreu recentemente em Wukan, na província de Guangdong, não mereceram sequer análise mais profunda. Neste ano que acaba, fazer levantes transformou-se numa atitude óbvia.

Em Wukan, após vários dias de rebelião aberta contra a burocracia governante, que cercou o povoado, deixando-o isolado, a população local arrancou uma importante vitória, ainda que não se possa dizer que não venha a haver retaliações nos próximos dias. Após o levante, que explodiu com o assassinato de Xue Jinbo, dirigente da luta contra o roubo das terras por construtoras e funcionários comunistas corruptos, os manifestantes forçaram o Partido Comunista a congelar as negociatas das terras que estavam a ser roubadas, libertar vários ativistas presos e demitir funcionários corruptos da administração local. O que, desde logo, não é pouca coisa na repressiva China e, mais do que isso, se transformou num grande símbolo de luta para todo o país.

A poeira nem tinha baixado em Wukan e, na seqüência, a população de Hainem, a apenas 130 km de Wukan, na costa da província de Guangdong, levantou-se em protestos contra a construção de uma central de carvão. “As fábricas são prejudiciais à saúde. Os nossos peixes estão a morrer, várias pessoas estão com cancro. Em que lugar no mundo se constroem duas centrais a apenas um quilómetro de distância?”, comentou um dos manifestantes.

Greve vitoriosa na LG

As revoltas de Wukan e Hainem poderiam ser as últimas de um ano convulsivo, mas não foi o caso.

Cerca de oito mil trabalhadores da sul-coreana LG, líder mundial na produção de ecrãs, entraram em greve, que durou três dias, contra as diferenças no pagamento de bónus anuais. Enquanto os trabalhadores coreanos recebem o equivalente a seis meses de salários como bónus de final de ano, os trabalhadores chineses recebiam apenas o equivalente a um mês de salário. Esta foi a fagulha que desencadeou a curta greve, em Nanjing (Nankin), na província de Jiangsu, ao norte de Shangai, que obrigou a LG a pagar dois meses de salários como bónus de final de ano. Uma importante vitória parcial, sem dúvida.

Mas, se alguém pensa que essa foi a última luta do ano, enganou-se. No coração da vanguarda chinesa concentrada na província de Guangdong, que possui o mais poderoso proletariado do planeta, estourou outra mobilização.

No dia 27, os trabalhadores da Guangzhou Áries Autopeças, de capital japonês, localizada na cidade de Guangzhou, capital da província de Guangdong, que fornece peças para a Honda e Toyota, iniciaram uma mobilização contra a redução no bónus de final de ano, num período em que a empresa obriga os funcionários a uma jornada mais longa de trabalho.

Segundo pesquisadores, as greves, protestos e manifestações na China em 2010 foram cerca de 180 mil. Um numero fantástico. Segundo a burocracia chinesa, o número foi bem menor, apenas 90 mil! O que não deixa de ser, em qualquer caso, um número fabuloso.

Censura do PC

A revolução chinesa transformou-se numa revolução silenciosa, não por decisão dos trabalhadores. Mas pelo facto de o Partido Comunista censurar com todas as suas forças as informações. Apagando-as sistematicamente da Internet, cujo número de utentes, o governo não consegue controlar completamente. A Internet tem sido um dos principais instrumentos na organização da luta e para driblar a censura governamental. Transformou-se numa fonte de dores de cabeça tão grande que o governo chinês pretende obrigar todos os bloggers a registarem-se com os seus nomes verdadeiros. O que representa mais um ataque às poucas liberdades conquistadas.

A China transformou-se na segunda potência económica e isso todo o mundo sabe. Mas a outra face desse fenómeno, que poucas pessoas se deram conta, é de que a China está grávida de uma grandiosa revolução, que tem tudo para acontecer num futuro próximo.

O crescimento económico criou também o mais poderoso proletariado do planeta, concentrado nas fábricas de Guangdong. É um proletariado jovem, rebelde, que não está amortecido pelas burocracias sindicais que infestam o movimento operário mundial, que demonstrou neste ano que finda uma valente combatividade, protagonizando uma poderosa e simbólica maré de greves.

A crise mundial está a provocar uma desaceleração no crescimento económico chinês e isso será mais um dos combustíveis na explosão que se aproxima, já que obrigará os trabalhadores a sair à luta para se defenderem.

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