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Barghouti: "Não quero criar ilusões sobre Obama"

Nesta entrevista ao jornal egípcio Al-Ahram, dada antes do início da trégua em Gaza, o secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestiniana, Mustafa Barghouti, duvida que Obama rompa com o lóbi judeu e observa que a administração Bush fez tudo para que o novo presidente se veja incapaz de operar mudanças na política americana em relação ao Médio Oriente. Barghouti defende um governo de unidade nacional e a realização de eleições em todos os territórios palestinianos ocupados.

Como qualifica o ataque militar sem precedentes infligido por Israel contra a Faixa de Gaza?

O que se passa em Gaza pode ser um verdadeiro genocídio contra o nosso povo, um acto selvagem, bárbaro que vai contra todas as leis internacionais. Israel é uma força de ocupação de Gaza, que está a aniquilar a população com os ataques aéreos. Gaza, o território que tem a maior densidade populacional do mundo, é vítima dos ataques aéreos e terrestres israelitas enquanto estiver sob sua ocupação.

O número de mártires e de feridos é o mais elevado desde 1967. Perante a opinião pública internacional, Israel alega que pretende apenas atacar os elementos do Hamas. Declarou mesmo ter uma tecnologia que lhe permite realizar operações quase "cirúrgicas" sobre o terreno.

O Estado judaico diz, no entanto, que têm como único objectivo destruir o Hamas...

Todas as alegações de Israel não são mais do que mentiras. Na verdade, a guerra não é dirigida contra o Hamas, mas antes contra todo o povo Palestiniano. O real objectivo dos israelitas é quebrar a vontade palestiniana, rebaixá-la e obrigar os palestinianos a aceitar um regime injusto, impedindo, por exemplo, o direito de ter Jerusalém como capital, ou a recusa do direito de regresso dos refugiados. Os israelitas querem obrigar os palestinianos a aceitar o regulamento que eles tentaram impor na conferência de Annapolis (Novembro de 2007), mas que fracassou.

O que está a acontecer neste momento é muito perigoso, porque, atacando de forma tão feroz o nosso povo, Israel quer destruir a vontade e a resistência dos palestinianos e impor-nos as suas próprias regras pela força.

Na verdade, Israel não ataca apenas o Hamas. Tem como principal alvo a democracia palestiniana. É muito claro: os ataques israelitas destruíram a sede do Parlamento Palestiniano e o Estado judeu prendeu 45 dos nossos parlamentares. Os israelitas atacaram o Governo de Unidade Nacional, que representava 95% dos eleitores palestinianos e contribuíram fortemente para o colapso do mesmo. E quando isso ocorreu, começaram a propagandear a ideia de que os palestinianos eram responsáveis pelas suas divisões internas.

Tudo isto não passa de um jogo cujo objectivo é quebrar a vontade política palestiniana e o compromisso do nosso povo para com o seu legítimo direito de resistência. Outra mentira que Israel tenta fazer passar nos média dos Estados-Unidos e europeus, é a de que a trégua foi quebrada pelo Hamas, quando, na realidade, foi Israel que a quebrou, no passado mês de Novembro, um mês antes destes atentados.

A terceira mentira que Israel tenta propagar é a de que os israelitas são as "vítimas" e os palestinianos os "invasores". No entanto, verificamos que do lado deles, tiveram apenas uma única vítima, enquanto o lado palestiniano, perdemos mais de 500 mártires, até ao passado domingo.

Os observadores são unânimes em explicar os ataques israelitas contra o povo de Gaza com base nas eleições em Israel. Tzipi Livni e o partido Kadima não querem parecer fracos relativamente aos seus opositores da linha dura do Likud ou do Partido Trabalhista.

Quais são as diferenças entre os três candidatos nas próximas eleições israelitas? Poderia imaginar um cenário particular para cada candidato?

Não há nenhuma diferença entre eles. Tanto Livni como Netanyahu e Ehud Olmert, são todos originários do Likud. Quanto a Barak, não fica a dever nada aos outros em termos de ferocidade e racismo. O que é triste é que Israel tornou-se, na sua totalidade, uma nação racista no sentido próprio do termo. Criaram um sistema de apartheid e de barreiras racistas. Não querem que um único palestino possa erguer a cabeça. Pouco importa quem vai ganhar as eleições, se não há nenhuma diferença na sua atitude em relação aos palestinianos.

Adoptam e seguem todos a mesma visão política sionista que rejeita a existência de um Estado palestiniano independente, que Jerusalém seja a capital da Palestina e que o direito de regresso dos refugiados se realize. Livni disse que nenhum refugiado seria aceite por Israel. Então, que diferença existe entre ela e Netanyahu? Esta guerra é feita apenas para que cada um deles possa mostrar os seus músculos e o preço disso é o sangue dos palestinianos. E o pior de tudo é que, apesar de toda a ferocidade demonstrada pelo governo de Israel contra os palestinianos, o Likud nas sondagens está cada vez mais reforçado.

O que acha da estratégia do Hamas, na sua gestão da resistência armada? Será que houve um erro estratégico ou de cálculo da parte deste ao atirar rockets contra o sul de Israel?

Não houve, de todo, erros cometidos pelo Hamas. Até Novembro passado, o Hamas tinha parado de disparar rockets, e impediu mesmo qualquer tipo de ataque a partir de Gaza. Quem quebrou a trégua foi Israel. Os israelitas entraram, atacaram e abateram seis palestinianos. Foi quando os rockets começaram a ser lançados a partir de Gaza. Na realidade, o Hamas defendeu-se, atirando sobre Israel. E todos sabemos que os rockets não têm uma significativa capacidade de destruição. Mas tratou-se de uma forma simbólica de defesa contra os ataques das forças de ocupação. Não podemos culpar a vítima, quando os verdadeiros culpados são os israelitas.

Tudo isto foi cuidadosamente planeado. Nos últimos meses, podíamos ler nos jornais israelitas que Israel necessitava de alguns meses de acalmia, a fim de preparar o seu exército para um ataque maior. E isso é exactamente o que está a acontecer agora.

Existe hoje alguma possibilidade para restabelecer a reconciliação palestiniana?

O único caminho coerente a seguir, na minha opinião, é a reconstituição de uma administração política unificada na Palestina, e a formação de um governo de unidade nacional. De seguida, deveremos ter eleições nas quais participem representantes de todas as tendências palestinianas, sem excepção ou discriminação. Estas eleições deverão ser credíveis e transparentes, e ter lugar no conjunto dos territórios ocupados. E, finalmente, é absolutamente necessário que haja a garantia de aceitação incondicional dos resultados destas.

Acha que a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos irá mudar a posição de Washington face ao conflito israelo-palestiniano?

Obviamente, temos esperança de uma mudança na política externa americana, mas não quero criar ilusões. Esperamos que o Presidente Obama tenha, pelo menos, uma melhor compreensão da situação nesta região. Contrariamente a George W. Bush, o presidente Obama é suposto ser mais sensível às causas justas como é o caso da nossa. Mas a pergunta que nós colocamos é a seguinte: será que ele pode enfrentar o lóbi israelita nos Estados Unidos? Aguardamos para ver como ele irá agir.

Mas o que agora notamos é que a administração Bush fez tudo até ao último momento, para que quando chegar, o presidente Obama encontre uma situação insustentável e se veja incapaz de operar mudanças na política americana em relação a esta região.

A administração Bush, juntamente com Israel, está a construir três muros que Obama dificilmente poderá transpor e ter influências positivas sobre o conflito. O primeiro destes muros é o dos compromissos assumidos por Bush face a Israel, onde ele reduziu, através de uma resolução do Conselho de Segurança, o processo de paz de Annapolis. A segunda muralha, ou barreira para o futuro de Obama, é a luz verde dada pela administração Bush a este massacre dos palestinianos. E o terceiro ponto, que é o mais importante, é que através da tensão produzida por esta confrontação e este massacre, ela tenta destruir o plano anunciado por Obama de iniciar um diálogo com a Síria, o Irão e todas as forças da região.

* Esta entrevista foi conduzida por Randa Achmawi e publicada no semanário Al-Ahram (Cairo). Mustafa Barghouti é Secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestiniana, uma formação que se coloca como alternativa em relação às facções existentes.

12 Janeiro de 2009

Tradução de Luísa Moreira

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Resto dossier

Dossier Massacre de Gaza

Desde o início dos bombardeamentos de Israel a Gaza, a 27 de Dezembro, e até 18 de Janeiro morreram 1310 palestinianos.

Em Israel, a norma é um desapego da realidade

Pouco depois de ter visto «Valsa com Bashir», vi na televisão imagens dos corpos dos palestinianos quebrados pelas bombas e os mísseis israelitas em Gaza no 22º dia de bombardeamento. Ao início, pensei que pouca coisa tinha mudado desde Sabra e Chatila. Mais uma vez, dizia-se a mesma desculpa insultante, segundo a qual, de qualquer forma, Israel não tem culpa.

"A resistência deve ser a nossa escolha estratégica"

Depois desta guerra, a divisão já não é entre a Fatah e o Hamas, mas adquire outro significado: será a divisão entre a escolha de resistir contra a ocupação e uma aceitação passiva das condições políticas de Israel e dos EUA.

Uma guerra inútil levou a uma derrota moral para Israel

Em termos históricos, é impossível separar a ofensiva de Israel contra o Hamas em Gaza do longo historial de conflitos e queixumes mútuos na região. Em termos geográficos, a guerra sobre uma minúscula parcela de terra não pode ser desligada do envolvimento mais alargado e dos interesses estratégicos de outros países: Síria, Egipto, EUA, Irão.

Alarme pelo uso de novas armas letais contra Gaza

Médicos locais dizem que vários ferimentos incomuns e expandidos podem indicar que durante a guerra foram usados novos tipos de armas contra a população de Gaza. Os funcionários da saúde estão a constatar ferimentos nunca vistos antes, ou pelo menos numa escala tão maciça.

Barghouti: "Não quero criar ilusões sobre Obama"

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As coisas que se vêem de Haia

Quem é o responsável pelas mortes e pela destruição? O teste público, moral e judicial será aplicado aos três estadistas israelitas que enviaram o exército para a guerra contra uma população indefesa que não tinha sequer um local para se refugiar, uma guerra que é talvez a única na História contra uma faixa de terra encerrada por uma vedação.

Operação Chumbo impune, por Eduardo Galeano

De onde vem a impunidade com que Israel está a executar o massacre de Gaza? O governo espanhol não teria podido bombardear impunemente o País Basco para acabar com a ETA, nem o governo britânico teria podido arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Acaso a tragédia do Holocausto implica uma política de eterna impunidade?

Boicote a Israel para acabar com a violência em Gaza

Chegou o momento. Há muito que chegou. A melhor estratégia para pôr fim à cada vez mais sangrenta ocupação é converter Israel em objectivo do tipo de movimento mundial que ajudou a pôr fim ao regime do apartheid na África do Sul.

Quantas divisões?

Há quase 70 anos, durante a II Guerra Mundial, cometeu-se um crime de ódio em Leninegrado. Por mais de mil dias, um gang de extremistas, chamado "o Exército Vermelho" sequestrou e manteve sob cerco os milhões de habitantes da cidade, o que provocou acção de retaliação pela German Wehrmacht, que teve de agir em áreas superpovoadas. Os alemães só tiveram essa escolha: bombardear e encurralar a população e impor total bloqueio, o que matou centenas de milhares.

Os média em Israel tocam as trombetas da guerra

Um historiador do futuro que algum dia examine os arquivos dos jornais de Israel verá com clareza absoluta: para Israel, 200, 300 e, depois, 400 palestinianos assassinados 'não é' manchete. Os média em Israel são "poupados" de ter de exibir imagens "fortes". Israel abraça e sempre abraçará qualquer guerra, qualquer barbárie. Israel crê-se tão poderoso que se brutalizou, que já não sente. A análise é do jornalista israelita Gideon Levy.

O objectivo de Israel não é a paz, mas o domínio militar

Um estado pária é aquele que viola a lei internacional, possui armas de destruição em massa e pratica o terrorismo - o uso da violência contra civis com objectivos políticos. Israel cumpre os três critérios, conclui Avi Shlaim, professor de Relações Internacionais na Universidade de Oxford, que serviu no exército israelita e nunca questionou a legitimidade deste Estado. Mas a impiedosa agressão a Gaza conduziu-o a esta e a outras conclusões devastadoras.

Depois do massacre, mentiras repetem-se

Em artigo publicado no The Independent, o jornalista Robert Fisk acusa o governo israelita de contar mentiras para tentar justificar as atrocidades cometidas em Gaza. "O que surpreende é que tantos líderes ocidentais, tantos presidentes e primeiros-ministros e, temo, tantos editores e jornalistas tenham acreditado na mesma velha mentira: que os israelitas algum dia se tenham preocupado em poupar civis", escreve.

Operação chumbo fundido

Esta guerra é como um graffiti no muro: Israel está a perder a oportunidade histórica de fazer a paz com o nacionalismo árabe secular. Amanhã talvez seja obrigado a enfrentar um mundo uniformemente árabe fundamentalista, o Hamas multiplicado por mil.

Cronologia dos acontecimentos

Nesta cronologia, procuramos relembrar os principais antecedentes do ataque israelita a Gaza: a imposição do bloqueio económico, o cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e os factos que levaram ao seu rompimento.

Porque é que Israel bombardearia uma Universidade?

Sou bolseiro da Fundação Fulbright e professor de literatura norte-americana na Universidade Islâmica de Gaza (UIG). Nessa condição, preferi sempre não falar sobre o conflito Israel-Palestina. Sempre entendi que o meu dever era ensinar os valores da paz e da coexistência pacífica. No entanto, o ataque massivo de Israel contra a Faixa de Gaza obrigou-me a falar.

Carta de Gaza: “ Viver sob os bombardeamentos”

Caros Amigos, estou a escrever-vos dois dias depois devido à falta de electricidade.
Quero chorar porque o Dr. Nizar Rayan, professor na Universidade Islâmica foi morto, bombardeado com toda a sua família dentro da sua própria casa. Era um homem corajoso , que se recusou a deixar a sua casa apesar de todas as ameaças israelitas.

Se Gaza cair...

O que está a acontecer em Gaza, ante os nossos olhos, é a destruição de toda uma sociedade e nenhum clamor se ouve, além dos avisos da Organização das Nações Unidas (ONU), que são ignorados pela comunidade internacional. Com o bloqueio praticado por Israel, a população da região (cerca da metade é composta por crianças) está sem alimentos e remédios.

Israel não aprende!

Quando George Bush, presidente dos EUA, pisou pela primeira vez a Casa Branca como comandante-em-chefe, em 2001, os palestinianos estavam a ser mortos na Intifada de al-Aqsa. Oito anos depois, quando Bush se prepara para sair de lá, Israel realiza um dos maiores massacres dos seus 60 anos como potência ocupante, na Palestina. Antes, como hoje, os EUA decididamente apoiam a ofensiva israelita, e dizem, até, que seria defensiva.

Das cinzas de Gaza

Perante o último ataque de Israel, a única opção para o nacionalismo palestiniano é abraçar a solução de um só Estado, a exigência de que o país e os seus recursos sejam divididos equitativamente, na proporção de duas populações que são iguais em tamanho - não 80% uma e 20% a outra, uma desapropriação de tal forma iníqua que nenhum povo que tenha auto-estima jamais se vai submeter a ela a longo prazo.

Tentar 'dar uma lição ao Hamas' é errado

O ataque a Gaza exige, em primeiro lugar, algumas recordações históricas. As justificações dadas e os alvos escolhidos são uma repetição das mesmas concepções básicas que se provaram erradas dia após dia. Ainda assim, os israelitas continuam a tirá-las da cartola vezes sem conta, numa guerra depois da outra.

Última hora antes de Obama e das eleições israelitas

Há uma dimensão obscena no ataque a Gaza: as centenas de vítimas dos bombardeamentos israelitas sobre Gaza são vítimas colaterais da campanha eleitoral israelita; para aumentar o seu apoio popular antes das eleições, todos os líderes israelitas estão a competir para ver quem é o mais duro e quem está disposto a matar mais.