Asilo recusado a centenas de refugiados afegãos

Depois de terem sido expulsos de vários sítios, entre os quais a esquina do edifício do Parlamento Europeu, cerca de 200 afegãos, incluindo dezenas de crianças e mulheres, vivem actualmente num acampamento improvisado numa igreja, no centro de Bruxelas. O Governo belga recusa-se a conceder proteção internacional. Alda Sousa, eurodeputada do Bloco de Esquerda, e Gabi Zimmer, presidente do grupo parlamentar GUE/NGL, visitaram o local esta quinta-feira. Por Dalila Teixeira

23 de janeiro 2014 - 12:00
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A visita estava marcada para a manhã cedo de 23 de Janeiro. A comitiva era esperada por centenas de homens, mulheres e crianças afegãs. O local de encontro: uma igreja no centro de Bruxelas, há dois meses transformada num campo de refugiados.

A comitiva de Alda Sousa e Gabi Zimmer chegou à hora marcada. Em frente, uma igreja imponente que, à hora, chorava pelas paredes o frio que se fazia sentir.

À porta já se encontravam alguns homens afegãos para receber a comitiva. Entram. No interior, quase se perdem de vista as tendas montadas. Algumas construídas apenas com plásticos velhos e pedaços de madeira. Os cobertores amontoam-se. As pessoas também. As deputadas e a comitiva vão percorrendo o pequeno corredor improvisado entre as tendas. Algumas crianças correm inocentemente apesar de um certo assombro estar espelhados nas suas caras.

A revolta é visível. Pendurado nas tendas há fotografias de resistência. Imagens que revelam o sofrimento daqueles a quem a proteção internacional é negada.

Perto de um dos limites da igreja, num espaço mais recatado, encontram-se as mulheres e mais algumas crianças do acampamento. Falámos com Maria [chamemos-lhe assim]. Eleita porta-voz das mulheres, Maria conta-nos "Em 5 meses, fomos despejados 9 vezes".

Já passaram por inúmeras ruas. Já ocuparam edifícios devolutos. Já acamparam, inclusivamente, na esquina do edifício do Parlamento Europeu. Foram expulsos de todos esses locais pelas autoridades belgas.

Há dois meses, o padre responsável pela paróquia de Béguinage acolheu-os na sua Igreja. Maria confessa: "Nunca entrei numa igreja assim, mas agora não tenho opção". E numa atitude de uma enorme tolerância, a jovem afegã apressa-se a esclarecer-nos: "É o espaço de deus e eu respeito todas as religiões. Eu acredito que todas as pessoas que rezam, rezam a deus, e deus é um só, por isso, ser uma mesquita, uma igreja ou outro local é a mesma coisa".

No decorrer da conversa com Maria, uma criança aproxima-se. A jovem afegã olha-a e conta-nos: "As crianças perguntam-se que mal fizeram os seus pais para sofrerem assim. Dizem-nos que na Europa há direitos humanos, direitos da criança, direitos das mulheres, mas é só por dizer. Não há direitos humanos" e questiona-nos: "Se houvesse porque tínhamos que viver assim? Porque é que as crianças não podem ir à escola? Que erro cometemos? Que mal fizemos ao mundo?". Maria conclui "Só queremos viver aqui [Bélgica] como pessoas normais."

No Afeganistão o terror da guerra jaz há mais de uma década. Segundo o direito internacional, todos os cidadãos oriundos de países em conflito têm direito a asilo e proteção internacional. O Governo belga recusa-se, contudo, a prestar auxílio e direitos a estes cidadãos. Alda Sousa lembrou aos refugiados, a este respeito, que "através dos vossos protestos e manifestações trouxeram a público como há toda uma comunidade ameaçada no espaço europeu, pelas leis e políticas europeias de imigração que em vez de acolher, trata os migrantes como potenciais criminosos ". E acrescentou: "Vocês estão aqui e claro que têm o direito a ser 'legais'. Ninguém pode ser 'ilegal' e deviam ter autorização para trabalhar e viver aqui".

No corredor apertado que divide as tendas onde os refugiados dormem, as deputadas e a comitiva continuam o caminho fazendo paragens sempre que alguém os questiona ou interpela.

De frente para o altar, dezenas de cadeiras já estavam dispostas em círculo. Os homens afegãos convidam a comitiva a sentar-se para uma verdadeira assembleia popular. Dezenas de afegãos e afegãs, as deputadas, uma advogada que faz daquela luta activismo e o padre da paróquia, sentam-se em assembleia.

"Isto vai continuar até quando? Vamos viver assim até quando? É tão cansativo. Estamos verdadeiramente exaustos", ouviu-se.

Alda Sousa e Gabi Zimmer, após terem ouvido todos os problemas e anseios dos refugiados, comprometeram-se, publicamente, a interpelar o Ministro Belga da Administração Interna, bem como a propor uma Resolução no Parlamento Europeu, com vista a criar uma plataforma comum entre todos os grupos parlamentares, no sentido de travar esta e outras situações idênticas.

No fim, o grito de luta encheu as paredes daquela igreja. "So so so, solidarité avec les sans papiers", entoaram os refugiados afegãos.

 

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