Ao Jorge Leite: o vulcão sempre ativo

É sempre tempo de lutar e é essa a maior homenagem que podemos fazer ao Professor Jorge Leite. Em jeito de gratidão cá estamos para nunca deixar apagar esse vulcão. Por Joana Neto.

02 de setembro 2019 - 16:02
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As homenagens costumam ser assim: pegamos nos elogios devidos e traçamos um retrato com eles. Não fugirei à regra. Importa-me, no entanto, encontrar a pessoa por trás das palavras. Acredito que é na manta de histórias que se vão partilhando, nos pedaços de memórias, que se constroem as identidades que evocamos. Nessas memórias tem que caber tudo e é isso que vos trago, correndo o risco da inconfidência, mas sabendo que neste ato de recordar só cabem verdade e ternura.

A última vez que vi o Professor Jorge Leite ele estava em sua casa, em Coimbra, sentado no sofá, de mantinha nas pernas. Tínhamos chegado de um encontro de Economia Política e isso seria mais ou menos importante, consoante a curiosidade de quem quer saber o que se fez ou quem por lá andou, e é claro que quis. Vínhamos com uma caixa de biscoitos comprados no café ali ao lado e fomos recebidos com a alegria habitual e o entusiasmo do costume. Fevereiro começava e o “vulcão”, de que nos havia falado em tempos, ao almoço, enquanto dissertava, fascinado, sobre o algoritmo mestre, tinha reativado e consumia-o. Falava dele com preocupação, mas sobretudo com esperança, queria vencer a doença para poder continuar a discutir, participar, contribuir. Contribuir tal como fez quando, emocionado, se levantou para partilhar a sua reflexão num encontro de direito de trabalho, depois de tempos em que aquele mesmo vulcão o impedira de o estar mais ativo. Levantou-se para ir buscar um recorte de jornal, era uma notícia sobre a Sara Barros Leitão: a “pequena marxista” . Dali se fez mais uma de tantas conversas, as conversas que considerava sempre inacabadas, por muito longas que fossem, sobre as condições precárias de trabalho. Achava sempre que faltava tempo para discutir, refletir, pensar em conjunto e eram tantas, e tão apaixonadas, as suas deambulações teóricas sobre o Direito do Trabalho, deambulações feitas de indignação e arreigada teimosia intelectual: «Não concorda Joana? Dê-me argumentos, dê-me argumentos, convença-me!».

Queixava-se que as discussões não eram participadas, que o tempo do Parlamento não era o tempo da reflexão. Condescendia, sempre com dificuldade, a uma urgência que não era feita de infinita discussão. Perguntava com quem tínhamos falado, se tínhamos articulado com o PCP. Sabia que, em democracia, as conquistas se fazem com alianças e só elas podem concretizar as mudanças que tanta falta fazem a trabalhadores e precários. Discutia, até ao limite, os pormenores que lhe apeteciam, e só esses, e não tolerava qualquer concessão que pudesse abrir uma brecha à precariedade, a esta, se a antevisse, a espreitar por uma alínea de uma norma, por uma vírgula mal colocada, é certo que não hesitaria em deixar o alerta para a eliminar.

Falava-nos com os olhos, as mãos e o coração, das “normas amordaçantes”, que humilhavam o trabalhador, falava-nos dos ‘leques salariais’, das prioridades políticas em matéria laboral, dos caminhos que surgiam e ligava-os aquela pessoa que conhecia, com quem tinha falado, simplesmente por nunca, mas nunca, desligar o Direito das pessoas. Não deixava que cedêssemos perante uma linguagem falaciosa, hermética, que distanciava os trabalhadores do Direito, pelo que reagia se chamássemos contratos a termo aos contratos a prazo. Conhecia o caminho, a evolução legislativa, tinha uma experiência vasta que nos enriquecia e nunca desistia, mas nunca desistia mesmo. A última mensagem que me mandou falava de um novo texto que teria que escrever quando melhorasse. Tinha sempre algo por dizer e, talvez, uma angústia no aperfeiçoamento da mensagem que queria passar.

Costumava contar a piada do bombeiro voluntário, celebrizada por Raul Solnado, em que o pai dizia ao filho “Meu filho quer queiras, quer não queiras, vais ser bombeiro voluntário”. Também nós não temos opção. É sempre tempo de lutar e é essa a maior homenagem que podemos fazer ao Professor Jorge Leite. Em jeito de gratidão cá estamos para nunca deixar apagar esse vulcão.

* Joana Neto - jurista.

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