Maria Augusta nasceu na casa em que habita há 86 anos em Miragaia, antiga freguesia da baixa do Porto. Viu muitos dos seus vizinhos saírem nos últimos anos e as casas transformadas em hostels e alojamento local para turistas. É a habitante resistente de um grande prédio de três andares, propriedade de uma empresa de gestão de imóveis que a intimou agora a sair sob o pretexto de obras estruturais a realizar no edifício. Uma realidade partilhada por outros moradores de Miragaia e da Vitória, que no último ano e meio construíram com Maria Augusta um processo de mobilização contra os despejos. Vítimas de assédio constante e aliciados a sair com muito baixas indemnizações, não se rendem à pressão.
Em 2018, o Porto foi a cidade portuguesa que registou o maior aumento no preço da habitação (24,6%), acompanhando a tendência generalizada de especulação imobiliária que se instalou no país. Esta sobrevalorização, fruto das alterações provocadas pela Lei Cristas, alimenta um fenómeno de gentrificação que expulsa as populações para a periferia das cidades. O aumento descontrolado do alojamento local, negócio rápido e rentável, o programa de “vistos gold”, criado pelo governo das direitas e mantido pelo Partido Socialista, e a falta de respostas públicas estão a gerar um cenário de calamidade no acesso à habitação. Falham também as autarquias. O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, recusou-se a criar zonas de contenção que limitariam a criação de mais unidades de alojamento local, deixando a política de habitação entregue ao mercado.
Fotogaleria de Paulete Matos publicada na revista Esquerda de 2018.