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Nota aos Dinamarqueses: nem mesmo vocês podem controlar esta cimeira

Foto thousand.wor(l)ds/FlickrA necessidade muito dinamarquesa de controlar tudo revelou-se um problema nesta cimeira do Clima, onde é suposto que os manifestantes contactem com os delegados. Artigo de Naomi Klein.

Sábado à noite, depois duma semana a comer nos bares do centro de conferências, uns quantos de nós foram convidados para uma deliciosa refeição caseira com uma verdadeira família dinamarquesa. Depois de passar a noite a olhar estupidamente para a decoração cheia de estilo, uns quantos puseram-se uma pergunta: porque serão os dinamarqueses tão bons em design?

«Somos uns obcecados com o controle» respondeu a nossa anfitriã instantaneamente. «Vem-nos do facto de sermos um país pequeno que não tem muito poder. Temos de controlar tudo o que podemos».

Quando se trata de produzir acessórios absurdamente leves e atraentes e cadeiras de secretária chocantemente confortáveis, essa forma de deslocação dinamarquesa é claramente uma coisa muito boa. Quando se trata de acolher uma cimeira para alterar o mundo, a necessidade de controle dos dinamarqueses prova ser um problema sério.

Os dinamarqueses investiram uma quantidade de dinheiro enorme a co-produzir uma marca para a sua capital (agora «Hopenhagen»*) com uma cimeira que supostamente irá salvar o mundo. Estaria muito bem se esta cimeira estivesse na rota da salvação do mundo. Mas uma vez que não está, os dinamarqueses estão a tentar freneticamente fazer um novo design de nós mesmos.

Vejam-se os protestos do fim-de-semana. No fim, 1100 pessoas foram presas. É de loucos. A marcha de sábado, com cerca de 100 000 pessoas, aconteceu numa encruzilhada crucial das negociações do clima, quando todos os sinais apontavam ou para o falhanço ou para um acordo perigosamente débil. A marcha foi festiva e pacífica mas também rija. «O Clima não negoceia» era a mensagem e os negociadores ocidentais precisam de estar à cabeça.

 

Quando um punhado de gente começou a atirar pedras e a fazer rebentar «granadas de som» ** (não, não foram disparos de armas tal como o  Huffington Post noticiou incansavelmente) os manifestantes encarregaram-se eles próprios do assunto, instruindo as pessoas responsáveis para abandonarem o protesto, o que prontamente fizeram. Eu estava nessa parte da marcha e isso mal interrompeu a minha conversa. Chamar a isto «motim» como o British Telegraph absurdamente fez não é realmente justo para com os amotinadores sérios que existem em grande número na Europa.

Deixem lá. Os polícias de Copenhaga usaram um pouco de vidro estilhaçado como pretexto para deter quase um milhar de pessoas, apanhando outra centena no dia seguinte. Centenas desses presos foram encurralados juntos, forçados a sentar-se no pavimento gelado durante horas, de  pulsos algemados (e alguns tornozelos também). De acordo com o organizador Tadzio Müller, estas não eram as pessoas que atiraram pedras mas «o tratamento foi humilhante». Com alguns detidos a urinar-se por não lhes ser permitido sair dali.

As prisões, parte do padrão  de toda essa semana, foram sentidas como um aviso: desvios da mensagem de Hopenhagen não seriam tolerados.

Dentro da cimeira oficial os delegados pareciam juntar-se em torno de televisões de ecrã plano para ver a polícia empurrar os manifestantes contra as paredes e destroçar a marcha. A alguns deve ter-lhes parecido familiar. Ao fim e ao cabo é praticamente o que o governo dinamarquês e outros poderes ocidentais têm estado a fazer aqui toda a semana: tentar destroçar o bloco de países em desenvolvimento G77 usando a táctica clássica de dividir para reinar, incluindo empurrar estados especialmente vulneráveis contra a parede com ofertas especiais.

Não tendo aprendido nada do «texto dinamarquês da fuga de informação», esta noite exibiu  um encontro de 40 estados convidados a fazer em picado um acordo: o resto dos ministros dos 192 estados representados não fazem ideia do que decidiram – dificilmente seria a democracia prometida pela ONU.

O verdadeiro teste dos problemas de controle dinamarqueses virá na quarta, na acção Reclaim Power [Reclamem o Poder]. De manhã os manifestantes vão marchar até ao Bella Center para pedir soluções reais para a crise o clima, e não a matemática confusa e o mercado de carbono que se oferecem lá dentro. Os delegados dentro que sentem o mesmo – e há centenas – estão a ser convidados a juntar-se aos manifestantes.

Se tudo correr bem, algures nas vizinhanças do Bella Center haverá uma «assembleia do povo», uma oportunidade de realçar algumas das muitas soluções de sentido comum que foram excluídas das negociações oficiais, incluindo deixar as areias betuminosas de Alberta no chão e pagar «compensações» climáticas.

Os organizadores do Reclaim Power declararam claramente que estão comprometidos com a desobediência civil não-violenta. Mesmo se atacados pela polícia não responderão com violência. Mesmo assim, o espectro de dissidência não prevista no enredo poder ser levada à cena na conferência, na quarta, sem dúvida deixa os nossos anfitriões dinamarqueses profundamente obcecados.

Esperemos que não lidem com os seus problemas de controle tentando arrebanhar toda a gente em cercados:  os manifestantes mantidos longe do Bella Center; os delegados fechados lá dentro. Esta acção – mais do que qualquer coisa que aconteceu até aqui – tem  potencial para enviar uma mensagem clara e muito necessária ao mundo: apenas um acordo ditado pela ciência e pela justiça servirá.

Portanto nota para os nossos anfitriões dinamarqueses: claro, Copenhaga é a vossa cidade e adoramo-vos pelas vossas bicicletas e eólicas. Mas o planeta é de toda a gente. Parem de tentar desenhar esta imagem cortando-nos dela.


 

* Hope significa esperança em inglês

** dispositivos que causam um som estridente e perturbador

 


Tradução de Paula Sequeiros. Original "Memo to Danes: Even You Cannot Control This Summit" publicado no The Nation a 13 Dez 2009.

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