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Moradores de Boston frente a frente com a guerra biológica

bioterrorO governo dos Estados Unidos e a Universidade de Boston são alvo de protestos por construírem um laboratório que vai investigar potenciais armas biológicas num bairro dessa cidade habitado por comunidades negras e latinas. Aprovado pelo governo em Fevereiro de 2006, o Laboratório Nacional de Enfermidades Infecciosas Emergentes é mais conhecido como BSL-4, sigla em inglês de biossegurança de nível 4, a de maior risco pelo tipo de material que maneja. As obras começaram em Março deste ano e devem terminar em 2008.

Por Zilia Castrillón, Boston (EUA), 17/05/2007*

"Vendem-nos a ideia do Laboratório na nossa vizinhança porque vai fornecer trabalho às famílias. Na realidade, o trabalho não é para nós, mas para os pesquisadores de alto nível que vão vir para cá", afirma a trabalhadora social de origem porto-riquenha Carmen Nazario, moradora em Vila Victoria, a comunidade de imigrantes latino-americanos onde o projecto está a ser construído, na região de South End. Em pouco mais de um quilómetro ao seu redor moram cerca de 50 mil pessoas. A cidade fica no Nordeste dos Estados Unidos e tem mais de 600 mil habitantes.

Nazario é uma das litigantes contra o governo federal e a universidade, acusados de violar a lei nacional de política ambiental por "não terem examinado todos os possíveis riscos e efeitos para a saúde das comunidades" que o Laboratório possa causar. A queixa original foi apresentada em maio de 2005. Em razão dela, a Justiça pediu novos estudos de impacto ambiental e sanitário, que deveriam ter sido entregues no mês passado a fim de os submeter à consideração pública, mas estão atrasados. O processo será acolhido em última instância pelo Supremo Tribunal de Justiça do Estado de Massachussets, do qual Boston é a capital, que decidirá se a construção deve ou não ser completada.

Para a Universidade de Boston, que obteve 128 milhões de dólares dos Institutos Nacionais de Saúde em 2003, e deve contribuir com outros 50 milhões de dólares para completar a construção, é imperativo o início de uma pesquisa médica sobre agentes patogénicos e a resposta humana imune a eles. "O financiamento baseou-se na convicção de que os Estados Unidos precisavam de mais um BSL-4 para enfrentar a guerra global contra o terrorismo", disse numa entrevista, no dia 5 deste mês, o professor de Saúde e Direito da Universidade, George Annas, uma das vozes dessa instituição que se opõem ao projecto.

"A construção de mais laboratórios dedicados ao bioterrorismo exagera a sua necessidade e gera tanto ou mais perigo para a comunidade", destacou Annas, autor do livro "American Bioethcs: Crossing Human Rights and Health Law Boundaries" (Bioética Norte-Americana: Cruzando as Fronteiras dos Direitos Humanos e da Lei Sanitária). Segundo normas nacionais e internacionais, o nível quatro de segurança é para confinar cinco tipos de agentes biológicos: os causadores de febre hemorrágica, de encefalite por picada de carrapato, o vírus hendra, o hantavírus e certos herpesvírus, e para realizar actividades como produção ou concentração, afirma o director do Laboratório de Microbiologia da Rutgers University, Richard Ebright.

"Fora do contexto de uma guerra biológica, a maioria desses agentes não constitui risco para a saúde pública" deste país, acrescentou Ebright numa entrevista. Segundo a página do Instituto Nacional de Alergia e Enfermidades Infecciosas na Internet, o BSL-4 vai dedicar-se ao desenvolvimento de vacinas, remédios e testes de diagnósticos para proteger a população. "A pesquisa para encontrar vacinas e curas para o surgimento e ressurgimento de doenças infecciosas é importante para a saúde pública", disse, em resposta a um questionário enviado por correio electrónico, a porta-voz da Universidade de Boston, Ellen Berlin. Mas estas afirmações não diminuem a desconfiança de líderes como Nazario. "Se o governo está tão preocupado com a nossa saúde e quer investir nisso, não é necessária uma estrutura tão grande e complexa", afirmou.

Os laboratórios de nível 3 e 4 de biossegurança são os de maior confinamento. Supõem características especiais de projecto, como janelas seladas e sistemas de ventilação ajustados, para evitar a transmissão por via aérea. Já existem quatro BSL-4 nos Estados Unidos e espera-se que, ao final desta década, entrem em operação outros cinco, incluindo o de Boston, como parte da estratégia do Departamento de Segurança Interna para melhorar as defesas contra o terrorismo biológico. O orçamento para esta finalidade é de 4,5 mil milhões de dólares até 2008. Segundo o não-governamental Conselho para uma Genética Responsável, com sede na cidade de Cambridge, que fica próxima, os recursos anuais para este tipo de defesa aumentaram mais de seis vezes entre 2000 e 2005.

A interacção entre acções de saúde e defesa preocupa um vasto sector da comunidade científica e alguns políticos locais que não vêem nela um esforço fundamental para a busca de curas para doenças infecciosas ou ambientais graves. "O problema com laboratórios como este é que se concentram em agentes com pouca probabilidade de gerar preocupação nas pessoas (como o antrax) e usam recursos escassos que poderiam ser destinados às verdadeiras ameaças de doenças que surgem constantemente", disse em entrevista ao Terramérica o professor de Saúde Ambiental da Universidade de Boston, David Ozonoff.

Karen Slater, técnica do departamento de Anatomia e Neurobiologia da Universidade, onde se estuda a relação entre os problemas do cérebro e a pressão arterial, lamenta que, "em lugar de dirigir fundos para a pesquisa básica como a nossa, esse dinheiro vá para o Departamento de Segurança Interna". Por outro lado, a proliferação de BSL-4 pode ter outras repercussões de segurança. "Ao pesquisar nova geração de agentes patogénicos, ver-nos-emos envolvidos numa corrida armamentista com nós mesmos", argumentou Ebright. Já que nenhum país tem capacidade para desenvolver estes agentes, "potencialmente poderíamos estar a armar os nossos adversários", alertou o cientista.

A colaboração da saúde e da defesa "para conseguir curas impossíveis" preocupa Félix Arroyo, único latino no Conselho Municipal de Boston como representante de habitantes de bairros como Vila Vitória. Arroyo foi um dos que, no dia 6 deste mês, participaram de uma marcha contra o Laboratório, por ocasião do encontro Bio Justice 2007, realizado entre os dias 4 e 7 de maio. Além disso, propôs ao Conselho votar uma proibição para a instalação do BSL-4 na área de Boston, seguindo o exemplo de cidades como Cambridge e Somerville. "É um ato de injustiça ambiental a instalação deste laboratório no meio de uma área tão densamente povoada, com os Estados Unidos tendo tanto território deserto", afirmou.

* Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e a IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais). Tradução de Envolverde, adaptada pelo Esquerda.net

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