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Micróbios, gripe e porcos multinacionais

Prevê-se para o Outono o pico da gripe AMesmo quando os casos comprovados de gripe suína já ultrapassam os 100 mil no mundo e se teme que as próximas mutações do vírus o tornarão mais letal, os governos e a Organização Mundial de Saúde (OMS) esforçam-se para ignorar as reais causas da pandemia.
Artigo de Silvia Ribeiro, publicado no diário La Jornada e traduzido por Informação Alternativa

Em vez disso, predominam os enfoques fragmentários e sobre os sintomas, como o desenvolvimento de uma vacina contra o novo vírus, que mesmo tendo uma curta vida efectiva e que até poderia piorar a situação, é um grande negócio para as multinacionais que dominam esse mercado.

A actual pandemia de gripe suína é grave por si mesma mas no entanto é apenas um indicador do acelerado processo de recombinação e criação de novos agentes patogénicos dos últimos anos. Não é um acontecimento isolado nem fortuito, é um componente lógico e coerente da grave crise generalizada da saúde a nível global, contraparte das múltiplas crises económicas, ambientais, climáticas, nas que estamos submersos graças a décadas de lucro desenfreado das multinacionais, devastadoras das pessoas e do planeta.

Ainda que as autoridades finjam demência (ou inclusivamente premeiem os causadores da epidemia, como no México) fica claro o papel fundamental da criação industrial de animais em grande escala, principalmente porcos, como promotores da criação de novos patogénicos. Não é o único factor, mas é fulcral na origem da actual epidemia e das que virão, porque os porcos funcionam, mais do que outras espécies, como um cadinho para a recombinação de novos vírus. O amontoamento de milhares de animais, onde circulam diferentes estirpes de vírus que podem infectar simultaneamente o mesmo animal, a tensão, as frequentes vacinações e a exposição contínua a pesticidas, exacerbam esta capacidade.

A comprovação de que também os humanos transmitem o novo vírus A/H1N1 aos porcos, é muito preocupante porque acelera as causas da mutação do vírus que pode retornar aos humanos com formas mais agressivas. No entanto, a 16 de Julho, a OMS anunciou que a gripe suína humana (assepticamente chamada por eles de A/H1N1 para não culpar os industriais da criação de porcos) estendeu-se tanto, e o nível de contágio é tão comum, que já não se pede aos países que relatem os novos casos a esse organismo. De qualquer forma, diz a OMS, isso seria impossível porque o contágio vai mais rápido do que a sua capacidade de contabilizá-los. Segundo a OMS, a pandemia de gripe de 2009 disseminou-se a nível internacional com uma rapidez sem precedentes. Em pandemias anteriores, os vírus da gripe necessitaram de mais de seis meses para se disseminarem de forma tão ampla como o novo vírus A/H1N1fez em menos de seis semanas.

Mostra-se assim outro factor fulcral da pandemia: o aumento da circulação global de bens, animais e pessoas (e micróbios), inerente ao mercado mundial de que necessitam as multinacionais. Para esse mercado constroem-se os grandes megaprojectos de infra-estruturas e energia (auto-estradas, grandes barragens, canais), aumenta-se a desflorestação e o avanço das grandes monoculturas agrícolas e florestais (com a consequente expulsão de populações rurais para as cidades) destruindo por sua vez os habitats naturais e a sua biodiversidade e portanto os competidores benéficos e inimigos naturais dos microrganismos patogénicos. A concentração resultante de população em grandes centros urbanos - também útil para as vendas centralizadas das multinacionais -, carentes na sua periferia de serviços básicos, cria condições ideais para a transmissão em grande escala.

Em todos os casos de epidemias e surgimento de novos patogénicos nas últimas décadas, tais como ébola, hantavirus, vírus do Nilo, novas estirpes de malária, dengue, VIH, há por trás alguns desses factores. Há perturbação de habitats de animais selvagens que actuam como reservatórios sem contrair a doença, forçando a sua migração para zonas mais povoadas; criação de novos e abundantes geradores de vectores das doenças (como charcos de água em zonas desflorestadas que criam mosquitos como o anófeles, vector da malária; proliferação de moluscos e insectos nas lagoas e rios afectados por grandes barragens devido a alterações de salinidade, aumentando exponencialmente os casos de leishmaniose, esquistossomose, etc.); proximidade com mega pocilgas e aviários industriais, etc.

A isto há que juntar o crescente uso e manipulação industrial de vírus e bactérias, que são utilizados, por exemplo, para construir transgénicos, para produzir substâncias químicas e farmacêuticas, tudo factores de aceleração de mutações.

As políticas fragmentárias e sobre sintomas, também aumentam a velocidade de mutação e o seu impacto. As campanhas de desinfecção massiva e o aumento do uso de antibacterianos, eliminam os microrganismos mais débeis, deixando espaço para os mais resistentes e obrigam os vírus a mutar mais rapidamente. As campanhas de vacinação criam uma imunidade temporal que faz com que as novas gerações não tenham nenhuma defesa natural frente a este vírus, ao mesmo tempo que deixam nichos vazios para outros vírus - talvez uma das causas porque a população mais jovem morre mais rapidamente com o actual vírus da gripe, aparentado com o da gripe de 1918.

Ainda que as autoridades pretendam esquecê-lo, porque questiona o sistema global e o lucro das multinacionais, ver as causas do desastre em toda a sua magnitude é uma tarefa imprescindível, assim como apoiar os que continuam a apoiar a biodiversidade e a saúde do ambiente e da natureza, como camponeses, indígenas e comunidades locais.

Sílvia Ribeiro, 18 de Julho de 2009

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