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Dia mundial de luta contra a Sida: A brecha infantil

Nos países pobres um terço dos bebés com HIV morrem cedo, ao contrário dos países desenvolvidosQuase um terço dos bebés nascidos com HIV nos países em desenvolvimento morrem antes de completar um ano, ao contrário do que acontece no mundo industrializado.
Por Mirela Xanthaki, da IPS

Quase um terço dos bebés nascidos com HIV nos países em desenvolvimento morrem antes de completar um ano, ao contrário da maioria dos portadores desse vírus (causador da sida) no mundo industrializado que podem viver décadas com boa saúde graças a tratamentos medicamentosos cada vez mais efectivos. Entre os que sobrevivem nos países pobres, metade morrerá antes de completar dois anos, e três quartos não chegarão aos cinco, segundo os últimos dados da Organização das Nações Unidas.

Num debate sobre crianças com o vírus da deficiência imunológica humana organizado pelo Fundo das Nações Unidas para as Crianças (Unicef), como parte das celebrações do 20º aniversario da Convenção sobre os Direitos da Criança, activistas e especialistas em saúde pública destacaram a necessidade de maior acessibilidade a tratamentos, análises adequadas e cuidados. Mas o informe intitulado "A infância e a sida: Quarto inventário da situação", que o Unicef apresentou na véspera do Dia Mundial de Combate à Sida, diz que foram conseguidos alguns progressos.

Por exemplo, agora, 45% das mães com HIV recebem tratamento anti-retroviral durante a gravidez, contra escassos 10% em 2004. Mas a transmissão de mãe para filho ainda gira em torno dos 80% no mundo em desenvolvimento, enquanto nas nações industrializadas é de 1% a 2%. Entre os passos fundamentais constam exames simples, baratos e imediatos para crianças, mas terapias anti-retrovirais para todas as grávidas portadoras do HIV e maiores esforços dos laboratórios e dos governos para encontrar tratamentos mais adequados e acessíveis para crianças e bebés.

Deve-se pressionar as companhias farmacêuticas para adaptarem os medicamentos para que sejam usados por crianças, onde for possível, e baratearem o seu custo, afirmam os especialistas. "O tratamento para HIV está disponível apenas desde meados da década de 90, por isso temos apenas 12 ou 13 anos de experiência", afirmou à IPS Shaffiq Essajee, director de operações clínicas e alto assessor em pediatria da Fundação Clinton. "As pessoas com HIV mantiveram-se vivas e saudáveis durante esse período. O céu é o limite em relação a quanto tempo pode viver uma criança com HIV se receber tratamento", ressaltou.

"Os sistemas imunológicos das crianças reagem mais rápida e efectivamente do que os dos adultos aos tratamentos anti-retrovirais. O problema é a falta de fórmulas desses remédios baratas, adequadas às crianças, e como tornar isso possível em contextos de recursos limitados", acrescentou Essajee. Em 2004, o tratamento mais barato custava 600 dólares por criança ao ano. Apenas dois anos depois, o custo caiu para 60 dólares. Haver remédios mais baratos é uma necessidade, mas isto não bastará para resolver o problema, afirmam os especialistas. "Embora se tenha conseguido a paridade, não podemos dormir sobre os louros", disse Essajee.

Ainda é preciso desenvolver sistemas precoces e eficientes de análises e diagnóstico infantil, explicou o especialista. "Há um enorme problema sistémico porque estamos a perder cerca da metade das crianças entre o exame positivo inicial até um processo de tratamento. Um terço das crianças diagnosticadas como seropositivas nunca tem acesso a terapias", afirmou Essajee. Actualmente, há dois milhões de crianças vivendo com HIV, o que representa cerca de 7% do total mundial. Há pouquíssimos retornos depois de obtidos os resultados, disse Deborah Birx, directora do Programa Mundial da Sida nos Centros para o Controle e a Prevenção de Doenças, dos Estados Unidos. Reverter esta tendência "pode demorar entre um e quatro meses. Muitos pais nem mesmo voltam para buscar os resultados", acrescentou.

Para o sacerdote Ed Phillips, presidente do Programa de Deanery Oriental para o Alívio da Sida, em Nairobi, "vão uma vez à clínica, mas não têm dinheiro para comprar outra passagem de autocarro e retornar". A solução é haver sistemas de diagnóstico mais fáceis de manejar e que permitam processar a amostra enquanto os pais esperam, dizem Phillips e outros. Também é preciso aconselhar as mulheres para se consciencializarem da necessidade de fazer exames. "Não podemos ter acesso às crianças se não temos acesso às mães", disse Birx.

Os exames para HIV e a orientação após o diagnóstico são fundamentais para impedir que as mães transmitam a doença aos filhos. Karen Plater, secretária-adjunta da Igreja Presbiteriana do Canadá, disse à IPS que nos últimos anos foram registadas grandes melhoras nas vidas de muitas pessoas. "Visitei o Malawi pela primeira vez em 1997. Nesse momento não havia acesso a anti-retrovirais e as pessoas ainda se negavam a aceitar que havia problema em sua comunidade", contou.

"Quando voltei, em 2001/2002, vi uma considerável diferença. As pessoas tinham mais disposição de falar do tema. Ao aumentar as percentagens de pessoas infectadas com HIV, todos conheciam alguém (com o vírus), directamente ou na sua família imediata. Isso fez com que buscassem assessoria e fizessem exames voluntários", explicou Plater. "Havia uma sensação de esperança. O estigma é menor do que antes, e agora os grupos de apoio a pessoas com HIV implicam indivíduos saudáveis, que trabalham juntos em projectos, hortas, tentando apoiar um ao outro", ressaltou.

A Aliança Ecuménica de Acção Mundial, uma ampla rede internacional de igrejas e organizações cristãs que cooperam em assuntos de alimentação e HIV/Sida, iniciou a Campanha Prescrição para a Vida, onde pediram a crianças de 14 países que escrevessem cartas a executivos de companhias farmacêuticas e funcionários governamentais exigindo acção. Uma exibição de extractos dos seus pedidos acontece na sede da ONU, em Nova York, até sexta-feira.

Eric Sawyer, assessor do Programa conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Sida (Onusida) e fundador das entidades Act up New York e Housing Works, que vive com HIV há quase 30 anos, disse na abertura: "É justiça moral eu poder comprar quase três décadas de vida e inclusive mais porque tenho acesso às últimas medicações apenas estas estejam desenvolvidas? Não creio que seja moral. Não creio que seja justo, não creio que seja correto. Todos devem poder comprar a vida, como eu faço", afirmou.

(IPS/Envolverde)

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