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"Deve ser Socialismo": A web 2.0 na revista "Vírus"

"A web 2.0, com as suas comunidades interactivas e sem as barreiras da censura e da propriedade, deveria ser o espaço de informação e debate em que a esquerda se moveria melhor. É quase tudo aquilo que ela defende. Mas nele, o que ela defende tem menos espaço do que seria de esperar. Porquê?". Leia aqui o texto de Daniel Oliveira na edição de Setembro da Vírus.

 


Leia aqui a revista completa em pdf.


 

Deve ser Socialismo, de Daniel Oliveira

  A web 2.01, com as suas comunidades interactivas e sem as barreiras da censura e da propriedade, deveria ser o espaço de informação e debate em que a esquerda se moveria melhor. É quase tudo aquilo que ela defende. Mas nele, o que ela defende tem menos espaço do que seria de esperar. Porquê?

 

De cada um conforme as suas possibilidades, a cada um conforme as suas necessidades. É esta a regra. Milhões de pessoas em todo o mundo escrevem como nunca puderam escrever. Basta um computador e uma ligação à Net. Milhões de pessoas lêem o que essas pessoas escrevem. As pessoas que escrevem lêem, as pessoas que lêem escrevem. Conforme as suas necessidades, conforme as suas possibilidades. Não há um poder centralizado e não se trata de uma profissão. As pessoas escrevem sem pagar e lêem sem pagar. E opinam sobre o que entendam, mesmo que não entendam nada sobre aquilo que opinam.

Produz-se e consome-se ao ritmo do que se precisa e do que se pode. E isto tudo numa rede global que junta pessoas de todo o Mundo. É isto o socialismo.

 

A tradição já não é o que era

Não há censura, não há corporações de media, não há legitimação feita por qualquer organização económica ou de Estado. É fácil encontrarmos bloggers que atingem uma enorme notoriedade sem que ninguém saiba realmente quem eles são.

No entanto, o funcionamento em rede, que deveria ser aquele em que a esquerda se sentiria mais à vontade, parece não ser aquele em que a esquerda se tem movido melhor. Haverá talvez três razões para que a esquerda se sinta pouco à vontade nesta formato.

Uma é a tradição. Apesar dos seus propósitos de sempre na luta de emancipação do indivíduo, a esquerda tem uma tradição fortemente colectivista. Vive mal com a ideia de um indivíduo, por si só, mobilizar opiniões e forças. Olha para esse esforço como um exercício de vaidade, inconsequente e estéril.

A ideia que dominou as organizações de esquerda na Europa em matéria de informação e propaganda desenvolvia-se em torno de um jornal colectivo, que acompanhava a linha definida pela organização. Um projecto colectivo que tinha como função organizar.

E isto leva-me à segunda razão. A esquerda ainda vive centrada na ideia de "organizar". Organizar lutas, organizar partidos, organizar trabalhadores, organizar associações. E faz bem em não desistir de o querer. Não esquecer que a opinião que não age morre. Mas esta obsessão é filha da própria organização do trabalho dos séculos XVIII, XIX e XX. Uma organização da economia com centros claros. Uma enorme relevância do colectivo na forma de trabalhar. E uma proximidade física dos próprios trabalhadores.

Hoje não sabemos quem é o nosso patrão. Os trabalhadores de uma mesma empresa ou grupo de empresas estão cada vez mais dispersos e isolados. O mesmo se passa com os instrumentos de hegemonia cultural e política. Têm origens difusas e milhões de canais e de sujeitos.

E o mesmo se passa com as novas formas de socialização. Hoje a proximidade física entre os jovens é menos relevante do que no passado. As conversas no messenger são mais longas e talvez mais relevantes do que as conversas no café do bairro ou até no escritório ou na escola.

Se a organização do trabalho mudou; se os instrumentos de hegemonia mudaram; se as formas de socialização também mudaram; como não poderiam mudar as formas de contracultura? Até podiam não mudar. Se a resistência a esta realidade e a estes instrumentos fizesse parte do próprio programa político da esquerda. Mas fazem? Porquê? Porque podem ser usados como novas formas de alienação e exploração? Claro que podem. Todos os instrumentos podem. Mas na realidade estes, dispersando o centro de poder, são muito mais favoráveis ao programa político da esquerda do que os velhos instrumentos que conhecemos.

Na realidade, e desculpem-me talvez a brutalidade e até algum exagero, ter um jornal como forma de combate político será brevemente mais inútil e inconsequente do que ter um blogue.

A terceira razão tem a ver com a percepção e até com a estética. A imaterialidade dos movimentos sociais, que não se traduzam em multidões. A cultura da esquerda, sendo avessa ao individualismo, olha com desconfiança para a solidão do computador, da escrita e até da agitação internauta. Mede a sua força na rua quando a rua é hoje muito menos relevante na vida das pessoas.

Todas estas resistências têm razão de ser. O isolamento das novas formas de trabalho enfraqueceu a luta. O desenquadramento político do combate pode torna-lo inconsequente e limitado no seu alcance. Os mesmos instrumentos servem uma exploração de trabalho precário e isolado ainda mais perverso do que os que conhecíamos até hoje. Mas olhemos para a nova situação como olhámos para industrialização. Por o que ela tem de positivo se não perderemos o barco.

Olhemos para a importância que o YouTube, o My Space, o Flickr, os blogues, as redes alternativas de informação e que tudo o que ainda vai aparecer conseguem em momentos fundamentais. Era possível a mobilização tremenda - a maior de que há memória na história mundial, num mesmo dia e em todo o mundo - que se conseguiu nas manifestações contra a guerra do Iraque? Olhemos para o movimento alterglobal: não repete ele a lógica da rede, aplicada a organizações que se cruzam e se encontram? Em ditaduras o espaço dos blogues e da Internet não são muitas vezes um dos poucos contactos com o exterior e de liberdade? Isto apesar de grandes empresas como a Google terem recentemente, para poder entrar no mercado chinês, dado provas de cumplicidade com o regime, ajudando à censura e até à perseguição de opositores. As grandes empresas continuarão a comportar-se como sempre se comportaram. Fora da Net ou nela. Mas as alternativas de fuga são muito maiores.

 

Blogosfera em Portugal

Em Portugal, a blogosfera transformou-se numa poderosa arma de combate político. Já não é apenas uma forma de controlar a imprensa, verificando informações, desmentindo e apontando ontras fontes. A blogosfera abriu, à esquerda e à direita, um leque de escolhas e de pontos de vista muito mais variado. Manteve na agenda política temas que os jornais e as televisões, ao ritmo do espectáculo, deixam morrer. Fez mesmo investigações próprias. Influencia jornalistas e fazedores de opinião. Claro que é apenas uma nesga de oportunidades. Quem influencia é quem se aproxima de quem é influenciado. Mas é uma nesga que tem de ser aproveitada e que é, apesar de tudo, melhor do que o que tínhamos antes.

Os blogues deram rosto às contestações da rua. Um bom exemplo foi o movimento de luta de professores. Dezenas de blogues de professores mantiveram a luta viva, trocaram informações práticas, denunciaram a propaganda governativa. Alguns desses blogues atingiram vinte mil visitas diárias no pico da luta. Blogues individuais e colectivos escritos por professores anónimos2.

Claro que no meio desta fluidez surgiram movimentos de opinião entre os professores saudusistas da velha escola e da autoridade do professor3. Mas esse é o preço mais do que justo a pagar por dar voz às pessoas.

Um caso de sentido diverso. Um jovem sozinho criou um blogue contra uma nova lei que reduz o apoio ao arrendamento jovem4. Inicialmente ninguém lhe deu muita importância e a lei avançou sem grande alarido. Ele insistiu. Fez passar palavra por outros bloggers que fizeram publicidade ao seu blogue. Pouco depois o seu blogue, feito apenas por ele, era já um pequeno movimento. E lentamente o assunto conquistou espaço mediático e acabou por conseguir alguns recuos.

Mais um exemplo. Em Portugal a imprensa regional é fortemente dependente de caciques e empresários locais e dos presidentes de câmara. Está muito exposta à pressão e até à dependendência publicitária. Por todo o país nasceram milhares de blogues locais. Uns assinados outros anónimos5. Blogues que, bons, maus e péssimos, são muitas vezes os únicos espaços de denúncia, fiscalização, oposição ou informação não institucional.

Há fenómenos de sentido oposto. Se os vídeos do YouTube permitem denunciar abusos de poder policial, também permitiram que viessem a público dezenas de vídeos de cenas de indisciplina escolar6 que levaram, durante algumas semanas, ao debate mais reaccionário sobre a escola pública que o Portugal democrático já assistiu. E temos fenómenos de voyerismo colectivo de proporções perigosas.

 

As mesmas contradições

A Internet não vive numa sociedade à parte. Repete, até de forma mais rápida, todas as perversidades da sociedade do espectáculo em que hoje vivemos. O que a distingue não é a cultura dominante que nela é tão veiculada como em qualquer outro espaço. É que ela é muito mais permeável à contaminação de correntes de contracultura.

Dirão: mas a Internet e a blogosfera são um espaço para elites. Isso já não é verdade em Portugal e ainda menos no resto da Europa. Na próxima geração a Internet será um media mais poderoso do que a televisão e muitíssimo mais poderoso do que a imprensa. Em todo o Mundo, os canais de televisão perdem todos os anos centenas de milhares de telespectadores para a Internet, sobretudo entre os mais jovens. Com uma vantagem: o consumidor de Internet é menos passivo e mais selectivo (para o melhor e para o pior) que o consumidor de televisão. Pelas características do próprio meio é exigido muito mais do seu sentido crítico.

Aliás, televisão e imprensa já fizeram o processo de migração para a Internet e já procuram cumplicidade com blogues, através de links trocados e partilha de informação. O jornal Público adoptou recentemente um sistema de exibição dos links de blogues para as suas notícias (o twingly), incentivando à hiperligação das suas notícias em troca da visibilidade a quem a linka. Recentemente, o Expresso propôs a vários blogues exclusivos das suas notícias, alguns dias antes de elas saírem, para elas entrarem no debate entre blogues e assim ganharem notoriedade. O mercado da blogosfera é apetecível e temos que aproveitá-lo enquanto o mercado não toma conta dele e expulsa o que é estranho à sua lógica.

Vou mais longe. Usemos os instrumentos do mercado sem temer a profissionalização destes espaços que são hoje ainda amadores. Tenho publicidade no meu blogue, apesar de ele ser muito marcado politicamente. Enquanto o mercado não domina o meio tem dificuldade em fazer selecção política.

Hoje, não há partidos políticos e candidatos, empresas e marcas, jornais e televisões, que não alimentem blogues. Não faltará muito para que se tente ordenar este espaço para que ele ganha uma suposta credibilidade e seja mais facilmente controlado pelo mercado. Mas este espaço tem características técnicas que tornam isso muito mais dificil do que aconteceu nas televisões, rádios e jornais. É por isso um terreno muito mais favorável à resistência à mercantilização da cultura, da política e da informação.

 

Também na cultura

E se isto é verdade em relação à política, é igualmente aplicável em todos os domínios da vida social. Os blogues e toda a web 2.0 são um espaço de disseminação de correntes culturais alternativas muito mais eficaz, menos censurado e menos seleccionado pela legitimação da cultura dominante. A criação de nichos culturais que vão ganhando dimensões incontroláveis são experiências interessantes e cada vez mais frequentes.

Assistimos aliás a um processo interessante. Recentemente, como saberão, um grupo britânico mainstream, os Radiohead, decidiu dispensar a sua editora e fez a venda das suas músicas directamente através da Internet. Cada comprador dava o que quisesse. Foi um sucesso. As repercussões desta possibilidade, de dispensar editoras, são de um alcance muito maior do que possa parecer à primeira vista. Significa que o mercado cultural pode dispensar a peneira comercial da cultura "pret-a-porter" e ter uma relação directa com o público. E que todos os instrumentos que vão sendo criados para dificultar esta mutação são muitíssimo frágeis.

Espaços como o Flickr ou a Wikipedia, feitos e visitados por enormes comunidades que compartilham conhecimentos, significam uma enorme alteração na forma como olhamos para a democratização do acesso à cultura. O caso da Wikipedia7, uma enciclopédia global em dezenas de línguas, em que os leitores contribuem para as entradas, e que já ganhou uma razoável credibilidade8, é dos mais interessantes.

Mais uma vez, é claro que o que maioritariamente se encontra na Internet continua a ser muito parecido com a cultura dominante. Mas há uma nesga que é uma possibilidade. E é a essa nesga que podemos chamar de socialismo.

 

 



Notas

1 "Web 2.0 é a mudança para uma Internet como plataforma, e um entendimento das regras para obter sucesso nesta nova plataforma. Entre outras, a regra mais importante é desenvolver aplicativos que aproveitem os efeitos de rede para se tornarem melhores quanto mais são usados pelas pessoas, aproveitando a inteligência coletiva." Tim O'Reilly, Wikipedia

2Educação Cor-de-rosa, Educação do Meu Umbigo, A Professorinha, A Sinistra Ministra, Movimento Escola Pública.

3Movimento dos Professores Revoltados

4Porta 65 Fechada

5A Ilusão da Visão, Arre Macho, Avenida Central, Café do Toural, Denúncia Coimbrã, Faro Este, Farpas da Madeira, Ilhas, Querido Líder, Praça da República.

6 O primeiro a ser divulgado, e que foi repetido nas televisões até à exaustão, foi o do incidente entre uma professora e uma aluna que queria o seu telemóvel de volta.

7 A Wikipedia é uma enciclopédia livre, fundada em 2001, tem mais de dois milhões de artigos em 200 línguas, escritos por 13 mil voluntários.

8 Segundo um estudo de 2005, publicado na revista científica "Nature", a Wikipedia será tão precisa como a Enciclopédia Britânica. Nas entradas analizadas, foram encontrados 162 erros na Wikipedia e 123 na Britânica.

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