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11 de setembro: Como a húbris dos EUA (e do Reino Unido) conheceu a sua Némesis

As derrotas no Iraque e no Afeganistão causaram uma recaída dos Estados Unidos no “síndrome do Vietname”. O que não quer dizer que Washington se vá refrear das agressões imperialistas. Biden anunciou que usará mais intensivamente as capacidades militares “over-the-horizon”, como drones e misseis. Por Gilbert Achcar.
Ataque ao World Trade Center. Por Michael Foran/Flickr.
Ataque ao World Trade Center. Por Michael Foran/Flickr.

Há 20 anos, 19 homens, carregados com ódio aos Estados Unidos e com fé na promessa do paraíso, rebentaram-se matando milhares e provocando um dos maiores choques políticos globais da história mundial. Eram todos originários do Médio Oriente; 15 deles cidadãos do mais antigo e próximo aliado de Washington na região: a Arábia Saudita. O passado voltara para se vingar.

Durante décadas, o governo dos EUA tinha espalhado as suas intrigas no Médio Oriente, apoiando regimes despóticos e promovendo o fundamentalismo islâmico como antídoto a qualquer coisa que parecesse ser de esquerda. Em 1990, a agonia da URSS parecia inaugurar uma “nova ordem mundial” dominada por Washington – aquilo a que um colunista norte-americano batizou competentemente como o “momento unipolar”. O império dos EUA, que até então estava ainda a sarar do seu “síndrome do Vietname”, conseguia ultrapassá-lo – ou pelo menos assim acreditava Bush Senior – ao lançar um ataque devastador contra o Iraque em 1991.

Bush tinha sido instigado por Margaret Thatcher para expulsar as tropas iraquianas do vizinho Kuwait que tinham invadido em agosto de 1990. O Iraque estava então estrangulado por um embargo cruel que causava um acréscimo de 90.000 mortes por ano, de acordo com números da ONU.

Era a primeira vez que os Estados Unidos lideravam uma guerra verdadeira no Médio Oriente. Tinha até então travado guerras por procuração, especialmente através do seu aliado Israel. Os ataques de 11 de setembro foram o resultado direto desta mudança: uma “assimétrica” resposta espetacular feita no solo dos EUA à sua implantação massiva no Médio Oriente. E, contudo, em vez de recuar e reconsiderar num envolvimento que tinha explodido na sua cara de forma tão dramática, George W. Bush e a quadrilha selvagem neoconservadora que fazia parte da sua administração viram o 11 de setembro como o seu Pearl Harbor. Seria uma oportunidade para aumentar o expansionismo dos EUA naquilo a que chamavam o Grande Médio Oriente, uma vasta área que ia desde a Ásia ocidental à central e ao Afeganistão-Paquistão sem mais nada em comum parar além do Islão.

Bush e a equipa levaram a húbris norte-americana pós-Guerra Fria ao seu auge. Entraram no Afeganistão, junto com a Nato e outros aliados, com a perspetiva de transformar o país na plataforma da penetração numa região estrategicamente colocada entre o coração da Rússia e a China, os dois potenciais desafios à hegemonia unipolar de Washington. 18 meses depois, invadiram o Iraque, o seu prémio mais cobiçado devido às reservas de petróleo e à localização no Golfo, uma região vital por causa de estratégia petrolífera e por razões económicas. Esta expedição neocolonial foi muito mais contestada mundialmente do que a do Afeganistão, apesar do apoio entusiástico de Tony Blair e da participação inglória do Reino Unido.

A invasão do Iraque tinha sido a ideia central do Project for the New American Century, o think tank cujo nome simbolizava a húbris norte-americana e do qual figuras chave da administração de George W. Bush tinham feito parte. Mantinham a crença auto-ilusória de que os Estados Unidos conseguiriam reconstruir o Iraque à sua imagem e de que os iraquianos iriam aderir esmagadoramente a esta perspetiva.

Tinham muito menos ilusões acerca do Afeganistão, a julgar pelo número de tropas dos EUA aí estacionadas – muito menos do que no Iraque. Mas, também aí, se envolveram no projeto tolo de construção de um Estado depois de terem percebido que, na verdade, havia aí colaboradores mais disponíveis para uma ocupação norte-americana do que no próprio Iraque.

Assim, descartaram a lição cardinal do Vietname de nunca ficar atolado numa aventura militar prolongada cujo sucesso é incerto. O Iraque rapidamente se transformou num pântano. Em 2006 já a ocupação se tinha transformado claramente numa confusão. Enquanto as tropas dos EUA estavam ocupadas a lutar contra uma insurgência sunita dirigida pela mesma Al-Qaeda que Washington tinha extirpado no Afeganistão, o Irão garantia o seu controlo do Iraque através de forças aliadas xiitas que a ocupação dos EUA-Reino Unido possibilitou. A classe dirigente dos EUA deu o jogo por terminado e forçou o principal arquiteto da ocupação, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld, a demitir-se. Uma comissão bipartidária no Congresso concebeu uma estratégia de saída, que envolvia um “pico” temporário de tropas dos EUA e comprar o apoio das tribos sunitas para vencer a insurgência. A seguir, Bush concluiu um acordo com o governo de Bagdade então apoiado pelo Irão para a retirada das tropas até ao final de 2011. O seu sucessor, Barack Obama, supervisionou o final da retirada.

Obama tentou repetir o “pico” no Afeganistão. Falhou redondamente porque os senhores da guerra corruptos que eram aliados dos EUA nunca tinham tido muito crédito (os talibãs tinham chegado ao poder em 1996 depois de os vencerem). Obama iniciou então um programa de retirada que o seu sucessor, Donald Trump, suspendeu durante algum tempo para tentar um novo “pico” – não apenas contra os talibãs mas também contra o novo avatar da Al-Qaeda, o “Estado Islâmico”. Este tinha-se passado do Iraque para a Síria em 2012, aumentado ali as suas forças aproveitando-se da guerra civil, voltando depois para o Iraque numa invasão que varreu as áreas sunitas no verão de 2014. Isto provocou um desastre vergonhoso das forças governamentais iraquianas montadas, treinadas e armadas por Washington.

Os Estados Unidos ripostaram contra o “Estado Islâmico” através de bombardeamentos massivos que apoiavam os combatentes no terreno e que paradoxalmente incluiam as forças da esquerda curda na Síria e milícias pró-Irão no Iraque. O EI voltou a ser reduzido a uma força de guerrilha clandestina – com a exceção de que, por essa altura, já tinha começado a espalhar-se globalmente, especialmente na África e na Ásia. Os dissidentes da linha dura dos talibãs criaram um ramo local do EI. Ao ver-se livre de Osama bin Laden em 2011, Obama tinha completado a derrota da Al-Qaeda, apenas para testemunhar pouco depois a emergência de um seu ainda mais violento avatar.

Trump acabou por lançar a toalha ao chão. Reduziu o número de tropas dos EUA ao mínimo indispensável e concluiu um acordo com os talibãs para a retirada do resto das tropas estrangeiras em 2021. Isto acabou por ser supervisionado por Joe Biden, da forma tragicamente mal feita a que todo o mundo assistiu este agosto. O exército do governo de Cabul colapsou numa debacle idêntica às tropas governamentais de Bagdade. Tal como na mitologia grega, a húbris dos EUA (e o Reino Unido) inflamou mais uma vez a ira da deusa Némesis e foi consequentemente punida.

As derrotas no Iraque e no Afeganistão causaram uma recaída dos Estados Unidos no “síndrome do Vietname”. Isto não quer dizer, contudo, que Washington se vá refrear das agressões imperialistas: apenas quer dizer que não voltarão em breve a envolver-se em presenças militares prolongadas de grande escala noutros países com o objetivo de reconstruir o seu Estado.

Washington vai, em vez disso, usar mais intensivamente as suas “capacidades over-the-horizon”, como garantiu Joe Biden na sua intervenção de 31 de agosto. Obama, que se tinha oposto em 2003 no Senado à invasão do Iraque, recorreu muito mais intensamente do que o seu predecessor aos ataques de drones. Este padrão continuou com Trump, junto com ataques de misseis, tal como com Biden.

Isto irá sem dúvida intensificar-se. Tais ataques são a guerra em pequenas doses, não menos letais com a passagem do tempo do que injeções massivas ocasionais e mais perniciosas porque escapam ao escrutínio público. Devem ser travadas.


Gilbert Achcar cresceu no Líbano e ensinou em Paris, Berlim e Londres. É atualmente professor de Estudos do Desenvolvimento e Relações Internacionais no SOAS da Universidade de Londres. Entre os seus muitos livros incluem-se The Clash of Barbarisms (2002, 2006); Perilous Power: The Middle East and US Foreign Policy, em co-autoria com Noam Chomsky (2007); The Arabs and the Holocaust: The Arab-Israeli War of Narratives (2010); Marxism, Orientalism, Cosmopolitanism (2013); The People Want: A Radical Exploration of the Arab Uprising (2013); e Morbid Symptoms: Relapse in the Arab Uprising (2016).

Texto publicado originalmente no Labour Hub. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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