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A renúncia dos ideólogos da direita

Ao renunciar à educação democrática e universal, esta direita ganhou um tema mas desistiu dos seus filhos.

O que preocupa no ascenso da extrema-direita não é a sua viabilidade eleitoral, que raramente alcança, mas o facto de inspirar a mais profunda transformação ideológica desde há décadas: os seus temas e tiques estão a colonizar a direita clássica, que segue o flautista de Hamelin com esfuziante alegria. Dois casos recentes revelam a capitulação de várias figuras de direita portuguesa a esta agenda.

O académico deslumbrado

Há poucas semanas, diligentes vozes de direita vieram clamar contra a insídia que contestou a hagiografia de Riccardo Marchi sobre o Chega. Suspeitando uma pérfida censura, que no passado alguns dos seus mais exaltados advogados defenderam como regime, protestaram o seu respeito pelo académico. Como há na vida alguma justiça poética, Marchi, depois de o seu displicente trabalho ter sido desmontado pelas críticas de Marina Costa Lobo (o livro é “um mero exercício panegírico ao Chega”, um “panfleto partidário”) e Daniel Oliveira (“uma peça de propaganda”), decidiu sair do armário com um novo texto em que apregoa o seu amor por aquele partido.

O caso é o seguinte, segundo Marchi: os jovens “identitários de cunho europeu” (como o Martins, concretiza ele) estão a ser afastados do Chega. Presumo que se trate de algum dos milicianos de Mário Machado, mas até nem consta que a “purga” (Marchi dixit) abranja os mais destacados. A razão, escreve ele, escolhendo as palavras com uma maravilhosa pontaria, é a “obsessão antifa de certa imprensa armada em vestal da situação”, ou o “fruto das alucinações voluntárias do jornalismo do costume”, o que leva ao “desperdício de ótimos recursos humanos obrigados a abandonar o campo”. O Martins saiu “do campo” porque uma revista descobriu quem ele era, malfadada “Situação”. Lamentavelmente, os intelectuais que ontem testemunharam a cientificidade de Marchi não deram de si nesta reincidência nem choraram sobre o triste caso do Martins.

Entra o kit gay

Mas ei-los que voltam ao ‘campo’ com equipa reforçada, agora com Cavaco Silva e Passos Coelho, dois ex-ministros da educação, o rei, o cardeal e distintos empresários, todos juntos para exigir a objeção de consciência na cadeira de Educação para a Cidadania e Desenvolvimento. Defendem assim um veterano da luta contra a despenalização do aborto, que tem como advogado um cabeça de lista do Chega e que resolveu usar os filhos para a campanha, forçando-os a faltar às aulas. Se há educação sexual (que nem é o tema da cadeira), os filhos não vão. Entra deste modo a agenda Bolsonaro, numa versão portuguesa do kit gay que tão bem resultou na eleição brasileira, e que estaria escondido na conspiração da escola pública. Como o programa daquela cadeira são os direitos humanos, igualdade de género, interculturalidade, desenvolvimento sustentável, educação ambiental e saúde, para este pai isto é evidentemente a forma de impor o sexo. No Brasil, a direita, um pouco mais pitoresca, acrescenta que é para transformar os filhos em gays.

O argumento é límpido, a cadeira decorre de uma lei de bases aprovada pela esquerda e pelo PSD há mais de 30 anos, tudo subversivos, fala de Constituição e de Declaração Universal dos Direitos Humanos, esquerdalhada, tem parceiros como a PSP ou a Autoridade de Segurança Rodoviária, bolchevistas, respeita a autonomia das escolas, baldistas, e, portanto, ofende as famílias. Júdice, sempre superlativo, diz que é “Inquisição”. A direita está deslumbrada com esta epopeia e, sem surpresa, os que ontem eram liberais passaram a repetir o mantra da extrema-direita sem tirar nem pôr.

Na ânsia de se colarem ao discurso bolsominion, os condutores desta campanha não se enganam: percebem a fragilidade da escola com o desespero dos professores, contam com a desorganização do ministério, e vai de exigir que o currículo escolar passe a ser um menu à la carte, em que os pais possam escolher as disciplinas, recusando o plano de estudos que, constituindo um corpo disciplinar integrado, é para todos em todas as escolas. O precedente é o que vale. Imagina-se que, assim, se um pai achar que a terra é plana ou que os meninos vêm de Paris na cegonha, deve poder tirar as crianças de Geografia ou de Ciências Naturais, ou, se achar que Auschwitz foi um campo de férias, recusar o ensino da História. Haveria para estas decisões exatamente a mesma argumentação que as personalidades da direita subscrevem, alegando que há conteúdos da cadeira de Geografia, Ciências ou História que ofendem algum preceito religioso. Assim, ao renunciar à educação democrática e universal, esta direita ganhou um tema mas desistiu dos seus filhos.

Artigo publicado no semanário Expresso a 5 de setembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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