José Manuel Pureza

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Coordenador do Bloco de Esquerda

Face ao que aconteceu em março e face à previsão da dimensão da segunda vaga, o Governo preparou os tribunais para uma nova fase de quase paragem? A resposta é não.

O grande desafio é impedir que a democracia se esvazie nesta exceção-como-regra. E isso passa por não permitir que o primado dos direitos de todos seja isso mesmo, primado e não luxo.

Num momento em que os hospitais do SNS estão em dramático sobre-esforço, e em que o combate à pandemia é uma ingente causa nacional, o temor em operar a requisição civil dos equipamentos privados e sociais é a expressão maior de um preconceito ideológico que tolhe o que não podia tolher.

Às vezes, é bom lembrar o óbvio. Lembremo-lo então: o sistema de justiça tem a missão de ser um serviço à Justiça. Justiça na decisão dos casos concretos e justiça como princípio vertebrador da comunidade.

Reduzir as presidenciais a um ranking falacioso e às coreografias dos debates é uma estratégia de esvaziar o debate político de questões essenciais para o país que se jogam (também) nestas eleições. Refiro três.

Sim, há uma economia política da saúde global e a desigualdade é a sua marca definidora. A negligência é a extensão operativa dessa desigualdade. Doenças de primeira e doenças de segunda, doenças que mobilizam resposta e doenças negligenciadas.

O país precisa de esperança concreta. E isso faz-se de horizontes que mobilizem todas as nossas forças. No ano que aí vem, em cada decisão coletiva, é isso que se joga.

O assassinato de Ihor Homeniuk nas instalações do SEF no aeroporto de Lisboa não foi um acidente, foi uma consequência. O que está a montante desse ato de barbárie e que conduziu até ele, é o que verdadeiramente conta e é o que deve ser objeto de debate político.

Comemora-se hoje o aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Setenta e dois anos de quê? De ambivalência, mais que tudo. Por José Manuel Pureza.

As políticas para as pessoas com deficiências não podem ser sobras para pessoas que sobram, uma espécie de paliativo cheio de boas intenções mas que não atua onde tem que atuar.