João Teixeira Lopes

João Teixeira Lopes

Sociólogo, professor universitário. Doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação, coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

A ciência lida mal com os capo regimes. Ela deve ser acumulada, trabalhada, coletivamente construída, mas sempre sob a batuta da dúvida e do questionamento colaborativos.

Não aceito a retórica belicista que, em doses progressivas, para estranharmos mas entranharmos, nos acena com a inevitabilidade do estado de guerra.

Uma profunda insegurança nos atemoriza. Nada garante o trabalho, o pão, a saúde, a paz, a habitação. Esboroa-se o calor da hospitalidade e do acolhimento. Só podemos confiar no nosso estado de performance total.

Pedro: nascemos ao mesmo tempo, no mesmo país, mas em dois lados distintos do mundo. Os nossos percursos só agora se tocaram, nas salas da Universidade. Os meus antepassados escravizaram os teus.

“Mas em cada morte uma duna erguia-se, uma praça se levantava.
Em cada morte um rosto se revelava.”

O mal de certas palavras é que não dizem nada. São moles, viscosas e esquivas. Ou pior: dizem sem dizer. Atentemos na palavra “exclusão”. Acrescentemos-lhe o epíteto: “social”. O que quer dizer?

Um bando de adolescentes negros irrompeu em desenfreada correria pelo jardim. Num instante conquistaram o parque. Gritavam e não os entendia. O meu inconsciente racista brotou em toda a sua potência e temi o pior. Dirigi-lhes a palavra e então percebi.

Existe como que um novo imperativo categórico: sê feliz, sê positivo e exibe essas características o mais que possas, pois serão o indicador mais seguro de integração social. O capitalismo, hoje, já não domina apenas o corpo, entra profundamente na psique, controlando-a, sem que as pessoas deem conta.

Esta é uma crónica fracassada. Só um poema a pode salvar. Um poema que fale da tessitura de uma manhã; de como o canto de um galo precisa do canto de outro e assim sucessivamente, erguendo o dia. Um dia onde cabem todos. Um poema-fio-de-luz.

Pode a memória ser democratizada ou é um privilégio de quem, a uma determinada altura, detém os meios de produção narrativos? O artigo aborda o Museu da Pessoa e o seu núcleo no Porto, através da primeira exposição virtual centrada nas histórias dos mineiros do Pejão.