Francisco Louçã

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.

23.30 (dia 29). Piquete de greve no Metro, Marquês de Pombal. Umas boas dezenas de trabalhadores, homens e mulheres, estão no piquete. A greve começa à meia-noite, e a empresa tenta forçar o funcionamento das linhas de metro entre a meia-noite e a uma, para depois retomarem às seis da manhã. O primeiro embate faz-se portanto no primeiro minuto da greve. Com o piquete estão alguns trabalhadores que tinham ido para trabalhar, porque temiam a represália e não são sindicalizados - mas aceitam fazer greve e ficam com os seus colegas. Há vários sindicatos representados, com algumas diferenças de opinião, mas que chegaram a um acordo: não se cumprem os serviços mínimos.

Um dirigente partidário surpreendeu, há poucos dias, afirmando que uma greve geral não precisa de ser geral. O que certamente não pode ser é um vale tudo: a greve, para ter peso social, deve conseguir demonstrar a voz do descontentamento social. Vale a pena por isso discutir o que é que uma greve geral precisa de ser.

A decisão do Conselho Nacional da CGTP, que convocou a greve geral para 30 de Maio, apanhou muitos sindicalistas de surpresa. Sabia-se que essa discussão tinha sido iniciada na central, mas tinha sido adiada na última reunião, porque muitos dos dirigentes sindicais então achavam que não havia condições para uma confrontação com a dimensão de uma greve geral. Percebeu-se entretanto que havia uma dimensão de debate de estratégia sindical muito influenciada por outras escolhas políticas.

Abro os jornais de hoje da Madeira e leio. O Diário de Notícias (do Funchal) garante que cada agricultor vai receber um prémio, que pode chegar a mil euros num ano, pelo seu trabalho no contributo para a paisagem. Escreve ainda o DN que "O Pavilhão da Escola Secundária Francisco Franco é novo e já mete água". Em contrapartida, uma boa notícia: há um "almoço na Quinta Vigia (sede do Governo Regional) só para deputados do PSD".

No período preparatório do referendo, surgiram muitos argumentos contra a sua realização. Segundo uns, tratar-se-ia de correr um risco desnecessário, porque o Parlamento teria maioria para votar a lei. Para mais, seria perder tempo. Segundo outros, o referendo é sempre arriscado, por natureza, e devem-se evitar os riscos. Esses argumentos têm uma justificação razoável: havia um risco no referendo. Mas são politicamente errados, na minha opinião.

Os jornais, nos dias de balanço dos referendos, fizeram muitas apreciações, consoante os cronistas, os jornalistas e as suas opiniões. Mas uma parece ter vingado: a de que o movimento do Sim ganhou porque foi mais moderado do que em 1998.

Penso exactamente o contrário: que o Sim ganhou porque foi mais radical do que em 1998 e porque pretendeu assim disputar o que tinha a disputar, que era a maioria dos votos.

Terminado o referendo, creio que é útil pensar e discutir em detalhe as suas principais lições. Esse é o objectivo desta crónica, e começo por um tema que é fundamental para definir uma estratégia para a esquerda política em Portugal: a esquerda deve ou não promover uma política unitária?

O primeiro despacho da Agência Reuters acerca do referendo português tinha como título "Portugal testa a modernidade". A perseguição criminal às mulheres que abortam em Portugal é vista em toda a Europa como uma excentricidade e uma aberração - e em Portugal também. E esse foi o tema desta campanha referendária. E é por isso que o Sim aparece em posição de ganhar no domingo

Ao longo dos últimos dias, a campanha do Não parece ter explodido. Ninguém se entende, uns dizem uma coisa e outros o seu contrário. Uns querem punir e outros querem não punir. Uns falam da vida inviolável e outros das condições em que a mulher pode abortar e não ser presa.

Muitas pessoas têm dúvidas sobre como votar no Referendo. É por isso que escrevo para os Leitores do Correio da Manhã, com todo o gosto.

Já sabe que Voto Sim. Voto Sim porque todas as pessoas de bem ficam incomodadas pelos julgamentos das mulheres que abortaram. E porque acho que não podemos condenar essas mulheres a uma pena de prisão: desde o último referendo, 17 mulheres foram condenadas por aborto e muitas mais foram julgadas. Tenho vergonha por estes julgamentos.