Francisco Louçã

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.

Tornou-se rotina o modo trôpego como se fazem escolhas, o vira das medidas anunciadas, o truque dos iscos para distraírem a opinião pública, tudo repetido de novelas anteriores.

O Estado está degradado por décadas de incúria, incompetência e modorra. E se fosse só isso. O problema mais profundo é mesmo a escolha: as políticas públicas são destroçadas por estratégia.

Tudo se resume a um princípio: o salário é a variável de ajustamento para o aumento do lucro, que garantirá a prosperidade e o investimento e a abundância de rios de leite e mel.

A nova corrida ao ouro são os criptoativos ou as suas múltiplas ramificações, os NFT no mercado da arte, os espaços “imobiliários” ou “comerciais” no metaverso, os negócios de credulice nas redes.

A TAP deu €110 milhões de lucro no verão passado, está a começar a poder pagar o adiantamento público e o Governo vai disso abdicar vendendo-a a uma empresa alemã, espanhola ou inglesa.

Passou mais de um século e será que não nos tutela ainda uma réstia desse espírito de casta, desse menosprezo pela população, do fingimento como forma de política?

A polémica sobre a habitação é uma farsa em que se usam duas máscaras: os que gritam que querem que se mantenha a solução liberal e o Governo que finge que vai tomar medidas valentes.

O que os liberais dos vários matizes nos propõem é simplesmente proteger o maior lóbi de Portugal, a teia finança-imobiliário-turismo. Percebo que a causa mereça tanta devoção, é a fonte do seu poder.

Num país de pobreza, de pensões miseráveis, de salários curtos, de empregos precários e de investimento medíocre, a conta certa só poderia ser pagar a dívida do atraso.

A realidade é avassaladora: 80% das famílias compraram casa, a maioria continuará a pagá-las por eternidades mas os filhos não podem comprar nem arrendar casa.