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Vox intimida formadores de cursos sobre violência de género

O congénere do Chega em Espanha apresentou uma moção na qual pretendia identificar os formadores destes cursos em Alcobendas “para que não voltem a desenvolver estas atividades”. O PP foi atrás.
Autocolante contra o Vox. Foto de  Fotomovimiento/Flickr.
Autocolante contra o Vox. Foto de Fotomovimiento/Flickr.

A cruzada contra o feminismo e a sua “metamorfose auto-destrutiva e socialmente tóxica” que seria a suposta “ideologia de género” é parte importante do discurso do principal partido da extrema-direita espanhola. O Vox tem-se oposto consistentemente às medidas e iniciativas sobre violência de género” sob o pretexto de que “a violência não tem género”. E no parlamento espanhol já tinha apresentado projetos em que pretendia que se desenvolvessem “atuações pertinentes para acabar com a doutrinação em ideologia de género nos centros educativos e meios de comunicação social”. Mas a intimidação direta de formadores de cursos sobre violência de género eleva a questão a um outro nível.

É também sabido que o Vox não gosta do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher que se assinala no dia 25 de novembro. E, em 2021, voltou a fazer questão de o marcar. Impediu com o seu voto uma declaração institucional que exigia unanimidade no Congresso espanhol e manifestou-se à sua porta considerando que a lei contra a violência de género “dá lugar a muitas injustiças”. Só que na Câmara de Alcobendas ainda foi mais longe. Apresentou na véspera uma moção contra a existência de cursos sobre violência de género na região. Para além da exigência do seu fim, pretendia que se identificassem os seus organizadores e formadores, escrevendo que queria “que se identifiquem a pessoas que, no decurso destas palestras ou cursos, convidaram os menores a pensar diferente para que não voltem a desenvolver estas atividades” e questionava as suas habilitações.

A moção instava a autarquia a divulgar “com exatidão e rigor” os conteúdos dos cursos, apesar destes serem públicos e acontecerem há mais de uma década. E o próprio partido de extrema-direita não apresentava dúvidas sobre o que neles seria lecionado e que incluía “questões evidentemente doutrinadoras da ideologia de género”. Acusava ainda os formadores de insultar os alunos que discordassem dos conteúdos ministrados.

Dos objetivos destes cursos faz parte: “valorizar o respeito, a tolerância, a escuta e as estratégias de comunicação como elementos essenciais nas relações de casal; desmitificar o amor romântico e dar a conhecer o fenómeno da violência de género, incidindo nas suas causas, tipos e consequências; desmitificar e erradicar as falsas crenças que existem relativamente às relações de casal e aos maus tratos; propor novo modelos saudáveis de casal”.

A proposta acabou por ser chumbada mas continua a dar que falar. Em primeiro lugar, porque contou com o apoio do maior partido da direita espanhola, o Partido Popular. Em segundo lugar, porque teve efeitos nos formadores. O jornal El Diário divulgou esta sexta-feira que, segundo fontes da autarquia, a empresa “já sofreu intimidação do Vox por este motivo noutros lugares e prefere manter-se à margem”, tendo recusado prestar declarações a este órgão de comunicação social.

A vereadora da Educação de Alcobendas, Ana Sotos, do PSOE, insurge-se contra a tentativa de identificar publicamente estes formadores, nega que alguma vez tenha havido alguma queixa de pais sobre este tipo de atividades e diz ser “a surpresa maior” que o PP apoie a posição do Vox já que “os mesmos cursos eram ministrados quando eles governavam e apoiaram o pacto pelo fim da violência contra a mulher.”

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