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"Votem contra o ódio, porque o ódio é a pior das doenças"

No comício virtual no Porto, Marisa Matias invocou Ricardo Jorge contra quem rejeita as medidas sanitárias e insistiu nas causas do SNS. Catarina Martins mostrou como a candidata “incomoda os aprendizes de Trump”.
Marisa Matias no comício virtual a partir da Alfândega do Porto.
Marisa Matias no comício virtual a partir da Alfândega do Porto. Foto Fernando Veludo/Lusa

No comício virtual da noite desta quinta-feira, no Porto, Marisa Matias, antes de insistir no tema da saúde, fez questão de falar “da esperança e da alegria da vida, dos risos que vamos voltar a ouvir nos recreios das escolas em breve, da tranquilidade com que passearemos na rua, de como faremos a festa com os amigos”. Uma esperança que “é a urgência de Portugal” num tempo de “aflição” em que “são tomadas medidas drásticas tão duras e necessárias”.

A candidata recuou no tempo para olhar para pandemias passadas de forma a explicar que a diferença é que “hoje sabemos mais, temos o avanço científico, assumimos responsabilidade e a obrigação de protegermos os outros”. E a este propósito invocou Ricardo Jorge, o médico do Porto que “nos revelou o que hoje mais precisamos, persistência, medidas que protegem a população e muita competência médica”, que “lutou pela sua gente”, enfrentou a peste bubónica, “conduziu as medidas de proteção da população” e “foi maltratado por isso”.

A incursão pela história serviu-lhe para concluir que “os irresponsáveis de todos os tempos viram sempre as costas ao seu povo”. E desta forma considerou “chocante que ainda hoje haja quem rejeite as medidas sanitárias mais elementares”, dando o exemplo do “dirigente da extrema-direita que abrilhantou o jantar de Viseu e que diz que recusa vacinar os filhos” e do “chefe da extrema-direita que participou numa manifestação em Lisboa contra as máscaras e as medidas de emergência”.

Para além da diferença no conhecimento científico, a candidata sublinhou outra: “temos um Serviço Nacional de Saúde, que é o pilar da constituição da vida democrática”. Tratou assim de contrariar quem disse que insistiu “demais” na questão da saúde nesta campanha eleitoral, referindo bandeiras como a exclusividade das carreiras dos profissionais de saúde e a lei de bases da saúde “que o Presidente queria recusar”.

Deixou ainda palavras de apreço aos profissionais do SNS “que trabalham horas a fio, dias e meses seguidos, como se não houvesse amanhã, a salvar vidas”. Contrastando com “quem está há dez meses a regatear preços por camas vazias” e quem “correu dos seus hospitais com as mulheres grávidas que tivessem Covid”, ou seja os investidores dos hospitais privados e os seus administradores.

“Houve quem cuidasse e curasse e houve quem preferisse o negócio da doença”, colocando-se assim ao lado da “nossa gente do SNS” que “só tem uma prioridade, as pessoas, a vida” e recusando tratar-se ideologia: “Ideologia é pôr o doente na rua quando acaba o plafond do seu seguro de doença, ideologia é querer cobrar ao Estado 13 mil euros por cada doente Covid”, exclamou.

O ódio é a pior das doenças”

No final da sua intervenção, concluiu que “o que nos junta na emergência é a alegria e a responsabilidade da vida”, uma vida que “incomoda o conservadorismo e o insulto grosseiro daqueles que quiseram fazer da campanha um ataque às mulheres”. Estes “enganaram-se” porque “atacaram as filhas da liberdade”. Por isso, apelou ao voto “com vontade contra a boçalidade”, “com alegria pela vida”, ao voto contra o ódio, “porque o ódio é a pior das doenças, contamina, nunca se cura e só piora”. Este é “a ignorância dos que têm medo”, “os pseudo-valentes quando se trata de insultar as mulheres, de desprezar imigrantes, de ignorar os desempregados, de fazer negócio com a saúde privada”.

Marisa destacou a importância do voto, analisando que “se as pessoas de esquerda forem votar, haverá duas candidatas à frente de Ventura, não só uma” porque em Portugal a democracia e a solidariedade são maiores que a política do ódio”.

A Marisa incomoda muito estes aprendizes de Trump”

Catarina Martins também falou no comício realizado na Alfândega do Porto e trouxe palavras de preocupação com a crise sanitária e com as desigualdades que “são uma ferida aberta nestes tempos tão duros”. A crise “não é igual para todos e os mais vulneráveis sofrem mais”, salientou.

Para a coordenadora do Bloco, “a forma como respondemos a esta crise, a força que teremos para proteger a saúde e combater a desigualdade, depende da escolha que fizermos no domingo”. E esta está entre “um país que desiste ou um país exigente e de cabeça erguida”.

Apelou então ao voto da gente que “vive com tanta dificuldade e que dá o seu melhor todos os dias”, porque escolher não votar “representa um enorme perigo”. Isto já que “há quem tenha um enorme desprezo por Portugal e pela sua gente”, “quem queira acabar com o SNS”. A dirigente bloquista falava dos seguidores de Trump que “andam por aí” e que “imitaram-no em tudo: nas provocações e mentiras constantes, na agressividade contra as mulheres e os imigrantes, no desprezo pelos pobres, na proposta de baixar os impostos aos mais ricos dos mais ricos, na cruzada para entregarem ao negócio privado os serviços públicos”.

Tal como Trump, fazem igualmente “almoços-Covid na campanha eleitoral” e “já fizeram manifestações contra o uso da máscara, votam contra as medidas sanitárias nesta emergência”. Tal como o ex-presidente norte-americano, “desejam um país de conflito e de ódio, de insulto e desprezo, onde vale tudo menos responder à crise”.

O voto no próximo domingo servirá também para “deixar bem claro que, em Portugal, não há caminho para aprendizes de Trump”, prosseguiu Catarina, antes de sublinhar que “a Marisa incomoda muito estes aprendizes de Trump”. “Pelo seu batom vermelho de mulher determinada e corajosa”, pelo “seu programa político de solidariedade e futuro” e pelo “seu compromisso com soluções para a crise”.

“O voto na Marisa vai suplantar o voto da aventura do ódio”

O apelo ao voto que Catarina Martins trouxe fez-se em nome de “cuidar da saúde”, “da democracia” e “do futuro”. Dirigindo-se aos jovens, fez-se “em nome dos pais e avós que lutaram para que se pudesse votar em Portugal”, um voto para mostrar “como respeitam a liberdade que eles conseguiram” e para mostrar “que a liberdade não tolera racismo, que a liberdade respeita mulheres e homens, que a liberdade aceita as diferenças, que a liberdade são direitos e deveres que nos obrigam uns em relação aos outros”. Um voto também em nome próprio de uma geração que já sofreu “pandemia e desemprego”. Um voto contra a “precariedade perpétua”, “pela reconversão ambiental, pela transformação da energia, da indústria, dos transportes e do consumo”.

O voto na Marisa Matias mostra que “Portugal não aceita que um arruaceiro insulte as mulheres ou pessoas pela cor da sua pele” e “assusta os oportunistas” porque ela é “o avesso do oportunismo: é entrega, é dedicação”. E Catarina Martins crê que este “vai suplantar o voto da aventura do ódio”.

A liberdade não permite mutilações”

Miguel Guedes sublinhou o “trabalho rigoroso e inquestionável, sério e empenhado”, “sem brechas, sem hesitações, sem meias medidas”, de quem “sabe que não se trocam os passos à medida ou por medida” da candidata, como algumas das razões para o seu apoio a Marisa.

O músico também falou de Trump, “uma plena catástrofe à escala global” que “acabou devido à força do povo”, para dizer que “a liberdade não permite mutilações” e que “os perigos estão aí à espreita” e estão “absolutamente identificados”. Estes só cairão “pela identificação com uma luta que é de todos.”

A voz de Marisa “tem dado a nota da resposta” a isto, ao “ousar virar paradigmas” contra um sistema que “usa as pessoas como moeda sem cara no reverso”. Ela que “esteve sempre do mesmo lado da luta, nunca girou a porta com eles” e também “nunca teve problemas em chamar ditadura a uma ditadura”, ou em defender “a liberdade cada um de poder decidir en consciência o momento de acabar com a agonia de uma dor que torna a vida insuportável”.

Para Miguel Guedes, votar é fazer a diferença num tempo excecional em que é importante fazer ouvir “as nossas vozes por entre os muros que se levantam”. “Usemos a nossa voz, ousemos a nossa luta”, apelou.

Neste tempo “não pode haver hesitações”

António Capelo foi outro dos apoiantes de Marisa a tomar a palavra, desta feita à distância. Salientou "a relação próxima com Marisa”, construída nas lutas “onde a segui e onde me ensinou a pensar mais e a agir melhor”.

O ator e encenador tomou como mote o tempo. O tempo “em que uma nova geração se levanta”, da “batalha da saúde, pela dignidade do trabalho, pela emergência de uma ideia profunda que altere hábitos para o bem do clima e do planeta”, das “gentes da cultura abandonadas”. O tempo da luta “por uma justiça mais justa” e “pelos mais elementares valores”.

Para Capelo, neste tempo “não pode haver hesitações” e “torna-se necessário contaminar os outros com os nossos ideais com as nossas lutas, sonhos e até com as nossas utopias”. Assim, “só temos uma coisa a fazer: colocarmo-nos ao serviço de nós próprios e dos nossos valores e dos nossos ideais, ao lado daqueles que são vítimas mais do que nós das agruras deste tempo em que vivemos”, das “vítimas da maledicência imunda daquele que vocifera chavões como quem dispara balas ao coração da nossa democracia e do nosso mundo”. O lado de quem vota “em consciência”, “em liberdade”, em Marisa Matias.

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