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Vinci vai a tribunal por condições de trabalho no Qatar

A multinacional responde à justiça francesa por acusações como “submissão a condições de trabalho ou alojamento incompatíveis com a dignidade” e “redução à condição de servidão”. Trabalhadores dizem que passaportes eram confiscados, havia horários de trabalho de onze horas por dia, sob sol escaldante e alojamento em más condições.
Vinci. Foto da ONG Sherpa.
Vinci. Foto da ONG Sherpa.

A filial francesa da Vinci, a Vinci Construction Grands Projets, foi convocada na passada quarta-feira por um juiz de instrução de Nanterre para prestar explicações no quadro de uma investigação sobre as condições de trabalho nos seus estaleiros do Qatar.

As primeiras queixas, da associação Sherpa e do Comité contra a Escravatura Moderna, em apoio a sete ex-trabalhadores indianos e nepaleses, no quadro de obras das infraestruturas de apoio ao próximo campeonato mundial de futebol, foram feitas há sete anos. A investigação na justiça francesa foi aberta em novembro de 2019 e depois de inquérito de três anos o juiz considerou que existiam “indícios graves ou concordantes” de delitos. E investigada está a ser também a filial qatari da empresa, a Qatari Diar Vinci Construction.

A agência noticiosa francesa, AFP, dá conta de que se acusa a multinacional de “submissão a condições de trabalho ou alojamento incompatíveis com a dignidade”, “obtenção de serviços de uma pessoa em situação de vulnerabilidade ou dependência sem retribuição adequada”, “redução à condição de servidão”.

Os testemunho de vários trabalhadores indicam que, entre 2011 e 2018, os imigrantes que trabalharam nestas obras viram os seus passaportes confiscados, tiveram horários de trabalho de onze horas por dia ou 66 a 77 horas por semana, por vezes a 45 ou 50 graus de temperatura, em várias ocasiões sem direito a qualquer dia de repouso, tinham quartos exíguos e instalações sanitárias insuficientes e estavam ameaçados de despedimento ou reenvio para os seus países de origem caso reivindicam-se alguma melhoria.

Um dos trabalhadores diz que viu pessoas cair por “dificuldades respiratórias” num local de trabalho em que ao calor se acrescenta a forte humidade. Outro diz que se teve de demitir por ter ficado com problemas cardíacos enquanto trabalhava em Lusail nas obras do metro, sem ventilação, apenas “pequenos ventiladores de mesa”, sem máscaras de oxigénio. Descrevem ainda as más condições de alojamento em campos no deserto, com seis pessoas por quarto e uma casa de banho para 12 ou 15 pessoas.

O representante da Vinci francesa descarta as responsabilidades para a filial qatari, na qual, garante, a sua empresa tem apenas 49% do capital. As condições de vida seriam decididas “pela sociedade qatari” e pelos seus padrões de vida que “não são os mesmos” do que em França.

A Sherpa, através de Laura Bourgeois, encarregada do contencioso da organização não governamental, retorque que a VCGP tinha poder decisório sobre “as condições de vida e de trabalho” dos imigrantes: “a elaboração e a implementação das regras relativas ao recrutamento, ao alojamento e às condições de trabalho pertenciam à VCGP. Sem contar que o diretor-geral da QDVC à época era igualmente assalariado da VCGP. Esperamos que esta investigação envie às multinacionais o sinal que doravante será cada vez mais difícil esconderem por detrás da ideia de que o que as suas filiais fazem não lhes diz respeito”.

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