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Venezuela: Foi lançada campanha pelo referendo consultivo

Com a tentativa de golpe de 30 de abril, Guaidó perdeu capacidade de mobilização e a sua ação quase se reduz a esperar pela ajuda de Trump. No entanto, os problemas no país não diminuíram e a prová-lo está a carta aberta de demissão do embaixador em Itália. Por Carlos Santos
Na Venezuela, começou campanha pelo referendo consultivo
Na Venezuela, começou campanha pelo referendo consultivo

O embaixador da Venezuela na Itália, nomeado em outubro de 2017 por Nicolás Maduro, renunciou na passada terça-feira, 21 de maio.

O embaixador era o antigo primeiro vice-presidente do chavismo, Isaías Rodríguez.

Numa dramática carta aberta, o embaixador esclarece a sua renúncia, "não irrevogável” mas “definitiva”, ao cargo.

Carta de renúncia de Isaías Rodríguez

Isaías Rodriguéz tem 77 anos e foi o 1º Vice-presidente da República Bolivariana da Venezuela, entre 29 de janeiro e 26 de dezembro de 2000. Posteriormente, foi Procurador Geral da República, entre 9 de janeiro de 2001 e 13 de dezembro de 2007. Em 2017, tornou-se segundo vice-presidente da Assembleia Nacional Constituinte, de 4 de agosto de 2017 a 27 de outubro de 2017. Desde então era embaixador da Venezuela em Itália.

Em carta aberta divulgada a 21 de maio, Isaías Rodríguez dirige-se a Nicolás Maduro, reafirma-lhe o seu apoio, anuncia-lhe a renúncia e explica porquê.

Sublinhando que se sente “orgulhoso” de ter sido embaixador e companheiro de Maduro, Isaías Rodríguez declara: “Renuncio, Presidente, à minha dose de insónia, stress, aflição e às víboras de cabeça triangular que há muito tempo o acompanham”.

O ex-embaixador afirma que “com fé absoluta” se “agarrou” ao chavismo, “como uma tábua neste oceano de contradições que cerca o seu governo”, mas esclarece: “cheguei, no entanto, à compreensão de que não posso converter a água em vinho, nem ressuscitar os mortos”.

“Desrespeitaram a Embaixada onde o represento, e tenho 77 anos”, esclarece o ex-embaixador, que afirma: “A minha cabeça está e estará levantada, não sou dos que caem olhando para os sapatos. Toda a vida recusei as ingerências que pretendam humilhar ou alterar a minha consciência e o meu espírito”.

A concluir, Isaías Rodríguez declara: “Vou-me embora (do cargo) sem rancores e sem dinheiro. A minha esposa acaba de vender as prendas que lhe deu o seu ex-esposo, para nos podermos manter perante o bloqueio norte-americano. Estou a tentar vender o automóvel que comprei ao chegar à Embaixada e, como você sabe, não tenho conta bancária, porque os gringos me sancionaram e a banca italiana afastou-me do seu mercado”.

Por um Referendo Consultivo

Comício de Guaidó em Guarenas no dia 11 de maio, foi muito pouco participado
Comício de Guaidó em Guarenas no dia 11 de maio, foi muito pouco participado

Desde a tentativa de golpe de 30 de abril, Juan Guaidó e a oposição venezuelana parece terem perdido não só a iniciativa política, mas sobretudo a capacidade de mobilização de massas, como mostra a foto da ação em Guarenas, no sábado 11 de maio.

As realizações e declarações de Guaidó têm vindo a limitar-se ao apoio às ameaças e declarações de Trump e dos seus aliados dos EUA e da América Latina. Trump anunciou esta semana novas sanções contra a Venezuela, que parece visarem sobretudo dificultar o abastecimento pelos CLAP, que são controlados pelas Forças Armadas. Guaidó e a oposição voltaram a apoiar a saudar as sanções de Trump.

Simultaneamente, o regime aumentou a sua capacidade de mobilização de massas, multiplicou as marchas militares e intensificou as declarações e ameaças contra os “traidores”, tanto por parte de Nicolás Maduro, como de Diosdado Cabello.

Maduro ordena a captura de militares que não sejam “leais”, sublinha-se neste tweet:

Entretanto, foi encontrado morto num hotel1 o general Jesús Alberto García Hernández, considerado próximo do general Manuel Ricardo Cristopher Figuera, ex-diretor do SEBIN (Servicio Bolivariano de Inteligencia), que foi acusado de ser o chefe militar da tentativa de golpe de 30 de abril de 2019

É neste quadro, que a Aliança pelo Referendo Consultivo (ARC) relançou a 16 de maio a campanha de massas pelo referendo.

Na ação de lançamento em Caracas, a ARC alertou que “a intervenção militar pode colocar o país num cenário de guerra que se traduziria numa catástrofe humanitária que só favorece fatores de poder económico transnacionais e as suas absurdas pretensões imperiais”.

Gustavo Márquez, falando em nome da ARC, salientou que o referendo é a melhor maneira de resolver as diferenças políticas e evitar uma intervenção estrangeira na Venezuela.

A ARC é composta por ativistas e académicos que, na sua maior parte, formaram a Plataforma em Defesa da Constituição. Neste reinício da recolha de assinaturas intervieram, entre outros, Gustavo Márquez, Christian Chirino e Javier Biardeau.

Protestos de reformados e trabalhadores

Entretanto, têm vindo a aumentar os protestos e as manifestações de trabalhadores em defesa de melhores salários e dos reformados pelo pagamento das suas pensões.

Os professores universitários fizeram greve de 72 horas em defesa do seu contrato e contra a crise do setor.

Os reformados reivindicam o pagamento da sua pensão completa em dinheiro e têm vindo a protestar pelas suas condições precárias.

Na passada quarta-feira, reformados e pensionistas manifestaram-se por toda a Venezuela, protestando por as pensões serem muito baixas, mas também pela dificuldade em as receber em dinheiro.

Segundo Aporrea2, os pensionistas cortaram ruas e estradas, em várias cidades e estados do país, e exigiram o pagamento completo dos 40 mil bolívares a que têm direito, mas que nunca conseguem levantar porque os bancos só lhes dão cinco mil (noutros casos oito mil) em dinheiro.

“Não podemos continuar a carregar com a crise. Não temos direito aos medicamentos, este governo condenou-nos a uma morte prematura”, declarou um reformado aos jornalistas.

Segundo El Pitazo3, na manifestação realizada na capital, Caracas, os reformados denunciaram as precárias condições em que vivem.

Deillily Rodríguez, sindicalista despedida do Metro de Caracas, denuncia: “Os reformados e pensionistas dormem numa caixa à porta dos bancos para poderem levantar as suas pensões”.

Associações de reformados entregaram4 à ONU um documento onde expõem a difícil situação em que vivem na Venezuela e as longas filas em que têm de estar, durante largas horas, para receberem apenas parte das suas míseras pensões.

A Associação de reformados e pensionistas do Metro de Caracas denunciou as difíceis condições de vida dos seus filiados e procurou esclarecer os utentes do transporte sobre as dificuldades dos trabalhadores. A sindicalista despedida esclarece: “Hoje o problema principal dos reformados e pensionistas tem a ver com o facto de receberam apenas 80% do salário, não terem subsídio de funeral de acordo com a realidade económica e terem-lhes retirado o pagamento dos prémios de antiguidade e de profissionalização”.

Longas filas por falta de gasolina

Desde há alguns dias, a Venezuela está confrontada com uma grave crise de falta de gasolina, com filas que chegam a ter 500 veículos5 à espera para se abastecerem e, muitas vezes, há racionamento da quantidade de gasolina que se vende por veículo. Há cidades em que o limite é de 20 litros por automóvel, noutras 30 ou 40.

Um jornalista6 diz que em Cabimas, uma cidade do Estado Zulia, a média é de 32 horas na fila para meter gasolina e denuncia que para demorar é preciso pagar em dólares.

O site lapatilla.com7 refere que o deputado da Assembleia Nacional, José Guerra, salienta no twitter que a Venezuela gasta mais gasolina do que consegue produzir. “A capacidade aproximada de refinação na Venezuela é de 1.100.000 barris diários, mas a refinação efetiva é de 120.000 barris diários. Porém, o consumo interno ultrapassa os 200.000 barris diários. Em resumo, tem de se importar 80.000 barris por dia a um custo de 70 dólares”.

Vídeo das filas

Artigo de Carlos Santos para esquerda.net


Notas:

1 http://www.el-nacional.com/noticias/sucesos/mayor-general-aliado-del-jefe-del-sebin-fue-hallado-muerto-hotel_282627

 

Sobre o/a autor(a)

Editor do esquerda.net Ativista do Bloco de Esquerda.
Termos relacionados Crise na Venezuela, Internacional
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