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Venezuela: a farsa da “ajuda humanitária”

Em entrevista a Amy Goodman, o sociólogo Edgardo Lander acusa os EUA e alerta que ações na fronteira visam provocar conflito, que envolveria Colômbia e Brasil. Mas o chavismo e o país estão em crise: é hora de um referendo popular sobre o futuro do governo e do Legislativo, aponta.
Sociólogo venezuelano Edgardo Lander em entrevista a "Democracy Now"
Sociólogo venezuelano Edgardo Lander em entrevista a "Democracy Now"

Na Venezuela, o impasse entre o presidente Nicolás Maduro e o líder da oposição e autoproclamado presidente Juan Guaidó não parou de crescer. Guaidó alega estar a preparar-se para entregar ajuda humanitária da fronteira colombiana no sábado [23 de fevereiro]. Maduro rejeitou o plano, dizendo que o esforço é parte de uma tentativa mais ampla de derrubar o seu regime. Isso acontece quando o enviado especial de Trump à Venezuela — o falcão de direita, Elliott Abrams — lidera uma delegação dos EUA que viajou em avião militar até a fronteira colombiana, supostamente para ajudar a entregar a ajuda.

As Nações Unidas, a Cruz Vermelha e outras organizações de ajuda humanitária recusaram-se a trabalhar com os EUA para entregar essa ajuda à Venezuela, que, segundo eles, é politicamente motivada. Falámos com o sociólogo venezuelano Edgardo Lander, membro da Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição. “Isso certamente não é ajuda humanitária, e não é orientada com nenhum objetivo humanitário”, diz Lander. “Este é claramente um golpe realizado pelo governo dos Estados Unidos com os seus aliados, com o Grupo Lima e a extrema direita na Venezuela.”

Bem-vindo ao Democracy Now! Pode descrever-nos a situação no país agora e o efeito da pressão na fronteira?

A situação na Venezuela neste momento é bastante tensa. O dia 23 — isto é, sábado — quando a suposta ajuda humanitária deve entrar no país, de acordo com o grupo de Guaidó, não importa o que seja, representa uma ameaça muito séria à Venezuela em termos de possibilidades de violência. Isto certamente não é uma ajuda humanitária; é uma intervenção “humanitária”.

Se o governo dos Estados Unidos estivesse realmente interessado na democracia e nos direitos humanos, a primeira coisa a fazer seria parar o bloqueio, que afeta enormemente o povo venezuelano e produz extrema dificuldade para o governo venezuelano obter acesso aos mercados externos. O seu comércio é extremamente difícil porque todo o sistema financeiro global é, de uma forma ou de outra, controlado pelos Estados Unidos. E esse bloqueio limita as possibilidades de acesso a parceiros comerciais.

Por outro lado, enormes quantias de dinheiro, biliões de dólares em ativos venezuelanos, foram confiscados pelo governo dos EUA. E é de um cinismo absoluto que o governo dos EUA afirme estar preocupado com a situação humanitária dos venezuelanos, oferecendo alguns milhões de dólares, quando biliões de dólares estão a ser mantidos longe da capacidade de ação do governo venezuelano para responder à profunda crise que a população enfrenta.

Existe essa ameaça de que esta “ajuda” entrará na Venezuela a qualquer custo. Os falcões e os neoconservadores que acompanham Trump nessas políticas são bem conhecidos. São pessoas como [o “enviado especial da Casa Branca] Elliott Abrams ou [o conselheiro de Segurança Nacional] John Bolton, que tiveram trajetórias conhecidas de intervenções militares em diferentes lugares do mundo. E obviamente não há preocupação alguma pela vida do povo venezuelano. A situação é tão tensa que o dia 23 pode ser a faísca que inicia uma situação de guerra violenta e até civil no país. Então, a absoluta necessidade de encontrar algum tipo de solução, algum tipo de negociação, que pare com essa escalada de violência, é crítica. E isso tem que ser feito em breve, porque o sábado é um dia crucial.

Pode falar-nos sobre o papel dos venezuelanos em negociar uma solução? A possibilidade, os apelos para que o Papa se envolva, ou o presidente do México, López Obrador. E o que dizer das próprias pessoas na Venezuela? E o seu grupo: o que a Plataforma Cidadã está a pedir?

A Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição está a pedir um referendo — algo que está previsto na Constituição venezuelana quando questões nacionais de importância crítica têm que ser enfrentadas. Enfrentamos uma profunda crise constitucional. Temos uma luta entre a Assembleia Nacional, por um lado, e o Executivo, por outro lado. Um não reconhece o outro como legítimo. Como consequência, surge a visão segundo a qual a política é um confronto amigo-inimigo, cujo propósito é destruir o inimigo, esmagá-lo completamente. Não há vontade de nenhum lado hoje para entrar em algum tipo de acordo que permita ao povo venezuelano decidir o que quer para seu futuro.

A Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição, assim como outros grupos — principalmente da esquerda, mas não apenas — tem argumentado que precisamos desse referendo consultivo para que o povo venezuelano decida se quer ter novas autoridades gerais no país — isto é, todos os poderes nacionais, incluindo o Executivo e a Assembleia Nacional. Mas isso requer um acordo, porque precisamos de um novo Conselho Nacional Eleitoral. O atual Conselho Eleitoral é totalmente controlado pelo governo e não é confiável para a maioria da população venezuelana. Assim, precisaríamos, como primeiro passo, de algum acordo básico, um Conselho Eleitoral Nacional consensual, e este apelo para um referendo em que o povo venezuelano possa dar sua própria opinião e decidir se quer manter as autoridades presentes ou se quer renovar completamente o sistema político — não a estrutura do sistema, mas quem é o presidente hoje, o que é a Assembleia.

No momento, a Assembleia Nacional está clamando a necessidade de eleições presidenciais e, por outro lado, o presidente Maduro está clamando a necessidade de novas eleições parlamentares. Portanto, nenhum dos lados está disposto a chegar a um acordo. É claro que precisaríamos de algum tipo de acompanhamento de alguns atores internacionais. E como você mencionou, a possibilidade de ter os presidentes do Uruguai, do México, talvez o secretário-geral das Nações Unidas e o Papa, seriam extremamente críticos em termos da possibilidade de alcançar tal acordo. Então, isso requer duas coisas: de um lado, pressão e envolvimento das pessoas que não estão interessadas em violência, mas tentando evitar uma guerra civil — essa tem sido a declaração do Uruguai, do México, do Papa. Por outro lado, a pressão do povo venezuelano para ter esse acordo mínimo para um novo Conselho Eleitoral e o referendo que permitiria às pessoas decidirem.

Há razões pelas quais há um enorme, gigantesco descontentamento na Venezuela em relação ao governo de Maduro. As crises que o povo venezuelano enfrenta são, em grande parte, responsabilidade desse governo, extremamente corrupto, ineficiente e cada vez mais repressivo. Mas isso de forma alguma justifica uma intervenção militar norte-americana ou essa tentativa de estrangular a economia venezuelana — o que, é claro, prejudica muito mais o povo do que o governo venezuelano.

Nessa situação, em que a maioria das pessoas na Venezuela rejeita o governo de Maduro e, por outro lado, uma grande maioria também rejeita a intervenção dos EUA, precisamos de uma negociação que abra o caminho para os venezuelanos decidirem por si mesmos. E esta é a opção de ambas as negociações com algum apoio internacional, por um lado, e este referendo que estamos a pedir, a plataforma e outros grupos na Venezuela, que acham que a maior ameaça para os venezuelanos hoje é a ameaça dessa escalada de violência, a possibilidade de uma guerra civil e a possibilidade, constantemente anunciada, de uma intervenção militar do governo dos Estados Unidos.

No seu discurso na última segunda-feira, o presidente Trump chamou Maduro de “fantoche de Cuba”. […] Um novo livro lançado esta semana pelo ex-diretor do FBI Andrew McCabe revela que Trump discutiu em particular a possibilidade de entrar em guerra com a Venezuela em 2017. McCabe escreve: “Então o presidente falou sobre a Venezuela. Esse é o país com o qual deveríamos entrar em guerra, disse ele. Eles têm todo esse petróleo e estão bem na nossa porta dos fundos”.

Pode dizer-nos o que exatamente os EUA estão a fazer, quem é Guaidó, e também falar um pouco da questão da ajuda humanitária, questões que preocupam a todos? Há um avião que está a voar de um lado para o outro, ou vários aviões, de uma empresa na Carolina do Norte — aparentemente, cerca de 40 voos. O governo venezuelano encontrou armas escondidas, talvez de um desses voos. É uma empresa que trabalhou anteriormente com a CIA. O facto de que as Nações Unidas e a Cruz Vermelha disseram que não vão trabalhar nesta chamada ajuda humanitária, porque é politicamente motivada, e que não é ajuda humanitária. O que acha que vai acontecer na fronteira, com Elliott Abrams sendo transportado por avião militar com a sua delegação à fronteira Colômbia-Venezuela? E o significado do fechamento da fronteira Brasil-Venezuela e o facto de Maduro considerar fechar também a fronteira Colômbia-Venezuela?

Bem, em primeiro lugar, gostaria de insistir no facto de que isso certamente não é ajuda humanitária, e não é orientado com nenhum objetivo humanitário. Este é claramente um golpe realizado pelo governo dos Estados Unidos com os seus aliados, com o Grupo Lima e a extrema direita na Venezuela. A oposição de direita, na Venezuela, as pessoas que controlam o Parlamento e os partidos da oposição, se enfraqueceram nos últimos anos e não conseguiram chegar a um único acordo político em relação a formas de enfrentar o governo de Maduro. Mas agora, é óbvio que essa extrema-direita está em estreita coordenação com o governo dos Estados Unidos há algum tempo. E esse roteiro que vem sendo seguido desde que Guaidó se autoproclamou presidente é um roteiro basicamente dos EUA. Esse script está em andamento agora.

Não há preocupação alguma com a situação da população venezuelana, porque, como eu disse anteriormente, se você tira biliões da capacidade do governo para responder às necessidades de remédios e alimentos, por um lado, e oferece uns poucos milhões de dólares em alimentos e remédios na fronteira colombiana, é claro que o objetivo não é responder à situação da população venezuelana, mas criar um conflito na fronteira. Como as pessoas têm sido chamadas por Guaidó e seu pessoal, para se concentrarem na fronteira, e um concerto foi organizado no lado colombiano do governo, isso pode levar a um confronto entre os dois lados. O governo venezuelano anunciou que poderia fechar a fronteira. Ainda não foi decidido. Mas a possibilidade do fechamento da fronteira significa que, como agora – há presença militar venezuelana neste lado da fronteira, e obviamente há todo tipo de grupos paramilitares, representantes da CIA, membros das forças armadas da Colômbia do outro lado. E qualquer coisa poderia desencadear alguma violência que pudesse levar ao início de um confronto. Eu não acho que o sábado será o Dia D, em que um grande confronto começará, poderia ser a faísca que levaria ao aumento da violência e aos riscos de uma guerra civil.

Então, temos que enfrentar essa suposta ajuda humanitária, que não é ajuda humanitária. É apenas uma intervenção direta para ter uma mudança de regime, o que tem sido o objetivo do governo Trump desde o início. E sabemos o que a mudança de regime significou em outros lugares. Conhecemos a experiência da mudança de regime na Líbia. Conhecemos a experiência da mudança de regime no Iraque. Sabemos o que as pessoas na Síria estão a enfrentar hoje como consequência dessas tentativas imperiais de mudança de regime. Portanto, não há possibilidade de que essa chamada ajuda humanitária contribua positivamente para a situação venezuelana. Isso só vai piorar, porque está aprofundando a crise em termos de remédios e comida para o povo venezuelano, por um lado; e está aumentando a probabilidade de uma escalada de violência e abrindo as portas para a possibilidade de uma guerra civil.

Assim, há necessidade de algum tipo de negociação, para pôr fim a esta escalada. É preciso responsabilizar, por um lado, o governo Maduro — por ter, ao longo destes seis anos de governo, criado um colapso tão incrível da economia venezuelana — hoje, a produção é metade do que era quando Maduro chegou ao poder. As sanções dos EUA contra a Venezuela, as sanções de Trump contra a Venezuela, começaram há um ano e meio, por volta de meados de 2017. Mas a crise veio muito antes. As sanções dos EUA aprofundaram a crise, mas não são a principal causa da crise. A principal causa da crise é inépcia e corrupção do governo de Maduro.

Assim, nós na Venezuela nos defrontamos com esses dois males, com esses dois inimigos confrontantes. No meio, está o povo venezuelano, obrigado a pagar pela inaptidão e violência dos dois lados em disputa. Precisamos ter algum tipo de pressão sobre o governo dos EUA para impedir esse nível de intervenção, essa ameaça de intervenção militar. E nós temos que pedir ao governo de Maduro que esteja disposto a abrir uma negociação, porque há muitas razões pelas quais as pessoas na Venezuela realmente não confiam em Maduro quando ele afirma a sua disposição de negociar — já que sempre diz a mesma coisa. Quando as negociações ocorreram, ele não se mostrou disposto a ceder nada.

Edgardo Lander, entrevistado por Amy Goodman, no Democracy Now. Tradução de Felipe Calabrez, para Outras Palavras.

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