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A União Europeia vai aumentar as reservas de gás até ao inverno. E daqui para a frente?

Parlamento Europeu aprovou novas regras para o armazenamento de gás na União Europeia, por entre receios crescentes de que o aval dado ao investimento em infraestruturas do gás atrase ainda mais a necessária transição energética.
Tanque para gás natural liquefeito. Foto Jaxport/Flickr

Os deputados do Parlamento Europeu aprovaram esta quinta-feira (dia 23 de junho) a proposta relativa às novas regras para o armazenamento de gás na União Europeia. O objetivo passa por garantir que os países da UE alcancem uma taxa de armazenamento de pelo menos 80% da capacidade total até ao início de novembro deste ano.

No texto aprovado pelo Parlamento, pode ler-se que “os Estados-membros e os operadores devem esforçar-se por atingir 85%” e ainda que “a partir do próximo ano, o objetivo será de 90% a fim de proteger os cidadãos da UE de possíveis problemas de abastecimento”. Com esta proposta, os países da UE procuram começar a preparar o próximo inverno face às perspetivas de um corte de fornecimento do gás por parte da Rússia, que continua a ser uma das principais fontes de abastecimento da região (antes da guerra, era responsável por 40% das importações de gás da UE).

Este passo surge depois da Agência Internacional da Energia (AIE) ter alertado os países da UE sobre a necessidade de se prepararem rapidamente para a possibilidade de a Rússia “fechar a torneira” do gás no próximo inverno. Fatih Birol, que lidera a AIE, disse que a redução no fornecimento de gás russo, que o governo de Putin tem justificado com a ocorrência de trabalhos de manutenção das instalações, pode constituir uma estratégia para impedir a UE de armazenar gás para o inverno.

O risco de os países ficarem “aprisionados” ao gás

O esforço para aumentar as quantidades de gás armazenadas na UE é compreensível face ao risco de os países não serem capazes de fazer face às necessidades energéticas, que tenderão a aumentar nos meses do inverno com a utilização crescente de aparelhos de aquecimento nos edifícios. Aumentar a capacidade de gás armazenada permite evitar soluções mais exigentes, como a redução da atividade em indústrias intensivas em energia caso a Rússia deixe de exportar combustíveis para a Europa.

No entanto, a proposta aprovada no Parlamento Europeu implica alguns riscos para o futuro da transição energética no continente. O principal problema prende-se com o facto de a proposta dar aval à aposta dos países em infraestruturas de armazenamento e distribuição de gás, além do possível aumento da produção. Isto pode originar um efeito de “aprisionamento” do gás: em poucas palavras, os investimentos necessários podem levar a que os países (e as empresas) tenham menos incentivos para abandonar a dependência do gás no futuro, atrasando a transição para fontes de energia renováveis.

É isso que parece estar a acontecer na UE: o portal digital Euractiv dá conta de que alguns países estão a aproveitar o momento para reavivar a aposta nos combustíveis fósseis. Um dos exemplos é o projeto de extração de gás no Mar do Norte, uma iniciativa conjunta da Alemanha e dos Países Baixos, que se encontrava suspenso mas irá agora avançar face ao impacto da guerra na Ucrânia. Outros países, como a Itália ou a Roménia, ponderam alterar a legislação nacional para permitir que as empresas explorem reservas de gás que atualmente se encontram interditadas.

Os eurodeputados do Bloco de Esquerda, Marisa Marias e José Gusmão, abstiveram-se na votação desta proposta. Se, por um lado, reconhecem a necessidade de estabilizar o abastecimento de energia para preparar os meses do inverno, por outro, temem que a aposta no gás venha a atrasar a necessária transição energética e o combate às alterações climáticas.

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