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“Uma saída positiva para as grandes massas, nunca está na moderação, está na radicalidade”

Ao esquerda.net, José Mário Branco fala da disponibilização pública do seu arquivo, do seu último álbum, dá-nos um importante testemunho sobre o Maio de 68 e afirma que “é terrível” a perseguição aos imigrantes. Entrevista de Carlos Santos.
“Não vejo grandes hipóteses de uma força política proteger os desgraçados que querem fugir do inferno se não tiver uma visão de classe no seu sítio”, afirma José Mário Branco
“Não vejo grandes hipóteses de uma força política proteger os desgraçados que querem fugir do inferno se não tiver uma visão de classe no seu sítio”, afirma José Mário Branco

Entrevistámos José Mário Branco em 26 de junho de 2018. Começámos por falar sobre a disponibilização do seu arquivo na internet e do seu mais recente álbum 'Inéditos 1967-1999'. Ouvimos também as suas opiniões sobre a perseguição aos imigrantes por parte das políticas de Trump e da União Europeia.

O testemunho do artista sobre o Maio de 68 será publicado noutro artigo do esquerda.net, que estará disponível neste domingo, 22 de julho de 2018.

As coisas que a gente faz não nos pertencem”

“O Manuel Pedro Ferreira que é do departamento de Musicologia da Universidade Nova [de Lisboa] aqui há uns anos propôs-me a digitalização integral do meu arquivo”, começou por nos apontar o músico, salientando que foi um processo longo, mas em que desde logo foi decidido “abrir à consulta pública o site com a documentação toda”. Embora não esteja ainda tudo carregado, o site disponibiliza “tudo quanto há de documentos, partituras, ficheiros informáticos”.

“Acho que as coisas que a gente faz não nos pertencem, são coisas que vão à sua vida, fazem o seu caminho” realça José Mário Branco
“Acho que as coisas que a gente faz não nos pertencem, são coisas que vão à sua vida, fazem o seu caminho” realça José Mário Branco

“Uma coisa que eu sempre quis fazer, aliás já tinha tentado fazer sozinho, mas não consegui. Porque acho que as coisas que a gente faz não nos pertencem, são coisas que vão à sua vida, fazem o seu caminho, e, portanto, não fazia sentido nenhum estar aqui tudo fechado”, sublinha.

Sobre o álbum “Inéditos 1967-1999”, era também um projeto antigo, de meados da década de 90, “quando a EMI – Valentim de Carvalho passou os meus álbuns para CD”, “incluindo alguns discos que eu gravei, pequenos discos que não passaram nunca para CD, para digital, e outras coisas feitas para filmes, inclusive algumas coisas de maquetas gravadas, que eu tinha feito há muitos anos”.

Naturalmente, foi preciso fazer uma escolha, mas também “foi preciso que a tecnologia evoluísse para se poder ir a esses suportes antigos buscar som de forma que fizesse sentido ser publicado”, explica-nos.

“Eu nunca paro de trabalhar e tenho esse grande privilégio de só fazer o que gosto, que é mesmo um privilégio na sociedade em que a gente vive”, salienta o artista, esclarecendo que não tem projetos imediatos, porque “comecei a sentir que não estava a falar bem, não estava a falar exatamente do mundo em que a gente vive agora” e “não começaram ainda a surgir as canções que falam disso”.

Um problema terrível”

Era obrigatório que falássemos da atual situação no mundo e que, em particular, questionasse o Zé Mário sobre a perseguição aos imigrantes nos Estados Unidos de Trump e na União Europeia. “É um problema terrível”, respondeu de imediato, referindo que “Marx no século XIX propôs uma globalização, que era a globalização da luta de classes”, que “esse projeto não conseguiu ir avante”, mas que “o capitalismo, pelo seu próprio desenvolvimento, globalizou o capitalismo”, considerando que “é um percurso da história que vai fazer com que globalizando o capitalismo se globalize a luta de classes”. “Não é que eu deseje isso, mas é uma realidade que está perante nós”, destaca.

“O capital deu há muito tempo toda a liberdade de circulação ao capital”, mas “nem pensar em dar liberdade de circulação aos seres humanos”

José Mário Branco realça que “o capital deu há muito tempo toda a liberdade de circulação ao capital”, mas “nem pensar em dar liberdade de circulação aos seres humanos”. “Isso é impensável, porque isso seria a derrocada total do capitalismo”, frisa.

“Uma das coisas que se nota com essa evolução do capitalismo, que representa historicamente o início do fim do Estado-nação, [é que] faz ressurgir uma série de sentimentalismos nacionalistas”, considera José Mário Branco, salientando que “agora há um renascimento de nacionalismos, por causa dessa globalização, que são nacionalismos de direita ou de extrema-direita, como foram a maior parte dos nacionalismos do século XX, excetuando alguns países do terceiro mundo e algumas coisas meio bacocas que eu não percebo”.

Referindo-se à Catalunha, José Mário Branco diz: “Sinceramente, não sinto razões nenhumas para apoiar um movimento em que estão juntos os operários catalães e os patrões catalães. Esse tipo de unidades não me diz nada”.

A maior parte morre antes de chegar à praia”

“É neste contexto que a porcaria toda que as potências ocidentais semearam à sua volta provoca um tal sofrimento, uma tal degradação que as pessoas são capazes de fazer dois mil quilómetros a atravessar o Sahara para conseguirem chegar onde pensam que se vive bem”, destaca o artista.

“Nós falamos muito nos que morrem nos barquinhos do Mediterrâneo. A maior parte não é aí que morre, a maior parte morre antes de chegar à praia”, salienta.

“Não vejo grandes hipóteses de uma força política proteger os desgraçados que querem fugir do inferno se não tiver uma visão de classe no seu sítio”, afirma José Mário Branco

Para José Mário Branco, “é normal que a reação da classe dominante na Europa seja construir muros”, sublinhando que “eles querem fazer o que Trump fez no México” e que “dão dinheiro ao Erdogan para não deixar os gajos passar”.

“É normal isso, mas ao mesmo tempo, como sempre fez, como sempre fizeram as políticas moderadas em tempos de crise, estão a alimentar a extrema-direita”, acusa José Mário Branco e aponta: “não vejo grandes hipóteses de uma força política proteger os desgraçados que querem fugir do inferno se não tiver uma visão de classe no seu sítio”.

Referindo que “os políticos assassinados são sempre os moderados”, cita Olof Palme, Allende, Kennedy, Martin Luther King, Ghandi, “são sempre esses que são assassinados”, e conclui: “Uma saída positiva para as grandes massas, nunca está na moderação, está na radicalidade”.

Entrevista de Carlos Santos e Miguel Bordalo (vídeo)

Entrevista a Zé Mário Branco | ESQUERDA.NET

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