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Uma história alternativa da guitarra de Coimbra

A propósito do seu documentário, A Guitarra de Coimbra, Soraia Simões de Andrade reflete sobre a  relação entre a narrativa dominante e discurso invisível, sobre desocultamento de outros lados das histórias, longe da saturação e a sobrevalorização do que é sobejamente conhecido e inscrito em variadíssimos dispositivos.
A Guitarra de Coimbra.
A Guitarra de Coimbra.

Recebi, continuo a receber, à volta de uma centena de e-mails comoventes acerca do meu documentário A Guitarra de Coimbra. De colegas, de músicos que entrevistei ou com os quais desenvolvi projectos ao longo desta década, de muitos desconhecidos, de pessoas com quem fiz teatro e estudei durante os anos noventa em Coimbra, etc. Um agradecimento estendido a todas elas.

A relação entre uma narrativa dominante, oficial, e discurso invisível, essa relação casuística, é-me familiar em vários domínios musicais na cultura popular. No caso da guitarra de Coimbra ela foi ainda mais sentida.

Desocultar outros lados da história, outras reflexões, foi portanto uma missão, uma tomada de posição evidente, à semelhança de muitos dos projectos que tenho desenvolvido ao longo destes anos. Aqui acrescendo o factor familiar e afectivo e a homenagem que pretendo claramente fazer à minha avó paterna, colocando mulheres, e ao meu pai, recentemente falecido em Coimbra, um amante de música do mundo.

Houve quem escrevesse, acerca da canção de Coimbra (Rodney Gallop), que "é [esta] a canção de quem ainda guarda e anima as suas ilusões e não dos que irreversivelmente as perderam".

Vivi uma Coimbra alternativa a esta, que dialogou com outras tipologias musicais e outras geografias, pelo que retratar uma guitarra viva e com outras possibilidades, existentes desde o seu início mas inteiramente silenciosas e silenciadas de um discurso público sobre a sua história, tornou-se uma demanda.

Uma das condições (auto) impostas no meu guião e na minha narrativa foi portanto não ter neles, uma vez mais, a saturação e a sobrevalorização do que é sobejamente (re) conhecido e já inscrito em variadíssimos dispositivos (literários, documentaristas, por aí fora). Isto é, aquilo que é a minha história, e a minha visão sobre aquilo que me é familiar: uma história alternativa (que existe desde o início à margem da oficial) não podia, portanto, de maneira alguma estar fechada nos seus nomes de culto (António Pinho Brojo, Aeminium, António Menano, Fernando Rolim, Praxis Nova, Jorge Tuna, Edmundo Bettencourt, Manuel Branquinho, António Bernardino, Alma Mater, Luiz Goes, Alta Medina, Toada Coimbrã, José Carvalheiro, Armando Goes, José Miguel Baptista, etc), nas etiquetas (Alvorada, Rapsódia, Columbia ou Valentim de Carvalho), nem no cariz de Hilário e espírito futrica. Porque não era esse documentário que eu queria fazer.

Estou muito contente pela avalanche de mensagens positivas que perceberam, que conseguiram, justamente, entender o fundamental da obra. Mas sobretudo, se emocionar com ela. Objectivo cumprido.

Esta guitarra de Coimbra é a guitarra que não está, nem quer estar, fechada na mitificação de um conjunto de intérpretes ou no prolongamento da adolescência, do estroina de corpo e de alma, de amadores em serenatas de paixão ou na boémia universitária. É a guitarra que desafiou fronteiras e fórmulas estanques, que viajou e se encontrou com Lisboa e o mundo. Tal como Carlos Paredes.

Este documentário, para quem ainda não pôde ver, passa novamente na madrugada do dia 27 de outubro, cerca das 1.00, na RTP2 e dia 09 de novembro (7:00) na RTP Internacional América.

Este disponível igualmente no RTP Play carregando aqui.

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