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Uma Degenarris

As pessoas que compram os passes mensais estão a pagar por um serviço que não funciona. Será isto considerado fraude? Por Fábio Moniz.
Foto José Carlos Oliveira/Flickr

O que mais preocupação gera é o facto de se estar a depender de um sistema que não está a funcionar. Isto afecta um número enorme de pessoas, principalmente, as pessoas que não têm um meio alternativo.

A Carris Metropolitana, depois da transição, a 1 de Janeiro de 2023, na Área 1, a Margem Norte do Tejo, apareceu como uma grande novidade.

Uma nova imagem, um novo serviço. Um serviço que prometia mais e melhor. Uma mudança para melhorar a mobilidade das pessoas.

A queda foi menor, por ser possível, aos resistentes e resilientes sintrenses colocar nenhuma expectativa. Ainda assim, não deixou de causar estragos.

Se se tinha um sistema de transportes disfuncional, agora, tem-se um sistema de transportes quase inexistente. Carreiras que não são feitas e nem um aviso prévio. Pessoas que ficam à espera durante horas por um autocarro fantasma. Trabalhadores que, por estarem a recibos verdes, acabam por perder o dinheiro das horas que passaram numa paragem de autocarro deixada ao abandono.

Percebe-se que a nova equipa esteja ainda em fase de aprendizagem. Tudo bem. Agora, falta o mais importante: aparecer. Ter uma equipa a exercer uma função e nem sequer aparecer é igual a não ter um serviço. As pessoas que compram os passes mensais estão a pagar por um serviço que não funciona. Será isto considerado fraude?

Em pouco mais de duas semanas, devem ter falhado dezenas de carreiras, gerando um fluxo de pedidos de serviço de transporte personalizado (Táxi, Uber, etc.) maior do que o habitual. Este tipo de acontecimento deveria ser pontual, uma excepção à regra, uma raridade. No entanto, não acontece dessa forma. As pessoas compram os passes mensais para não os usarem e pagarem extra de viagens neste tipo de serviço.

O número de autocarros a circular com o texto fora de serviço no letreiro circulam mais do que os autocarros que realmente fazem as carreiras. É vergonhoso, para um país com um nível de desenvolvimento como Portugal, ter um sistema de transportes deste nível tão baixo, fraco e que não é capaz de servir a população.

Sabe-se, na região de Sintra, pelo menos, as pessoas estão a ser prejudicadas pelo serviço e estas falhas estão a priorizar o transporte particular, algo que não pode acontecer. Abominável. A prioridade deve ser o transporte público. Promover a mobilidade e a sustentabilidade.

Como se poderia, então, melhorar o sistema de transportes?

É verdade que se sabe muito falar mal e apresentar críticas construtivas é raro, por isso, juntam-se, aqui, algumas sugestões que nunca ninguém neste mundo terá pensado nem sequer existe a tecnologia, ainda, para se aplicar (ler em tom de sarcasmo):

Notificar as pessoas, com antecedência (assinantes dos passes mensais, assim como avisar em mensagens nas estações e paragens – quanto possível), em como as carreiras foram canceladas;

Ter, sempre, motoristas de reserva, para, quando, numa paragem terminal, não estar um carro pronto a sair para cumprir o horário, estar outro motorista disponível para fazer a carreira;

Contratar mais pessoas.

Mais coisas terão de mudar, porque o serviço continuaria a não funcionar de forma fluida. Veja-se, por exemplo, a redução ou manutenção de horários que se verificou. Um sistema de transportes digno teria, a circular, sem parar, carros de, pelo menos, 20 em 20 minutos. Aceitável seria de 15 em 15 ou de 10 em 10. Existem fundos para investir neste tipo de serviço, porque irá permitir a mobilidade às pessoas e, com a mobilidade das pessoas, haverá a possibilidade de as pessoas pouparem tempo para se deslocarem até ao local de trabalho e de não perderem tempo de vida para elas.

Estão a roubar a dignidade e a vida das pessoas.

Se o serviço escasseia em empatia, antes de existir, já falhou enquanto serviço de direito para a comunidade.

Fábio Moniz

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