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Um sapateiro tem direito à história? Daniel Faustino, destacado antifascista

Foi um dos líderes da resistência à ditadura de Salazar numa capital de distrito: Santarém. Por duas vezes foi preso pela PIDE, em 1946 e em 1953. Como é que foi possível uma comunidade local esquecer uma figura assim? Por Luís Carvalho.
Daniel Faustino.
Daniel Faustino.

Foi um dos líderes da resistência à ditadura de Salazar numa capital de distrito: Santarém.

Por duas vezes foi preso pela PIDE, em 1946 e em 1953.

Sendo apontado, em ambas as ocasiões, como “o responsável” pela organização clandestina do PCP naquela cidade.

Esteve ao todo quatro anos encarcerado em prisões políticas do chamado “Estado Novo”: Aljube, Caxias, Peniche. Mais uma esquadra ou outra, de intermezzo.

Ao tempo de cárcere, somou mais oito anos sob ameaça latente: de pena suspensa, em liberdade condicional, ou com processo a correr em tribunal.

Pelo meio sobreviveu a uma doença grave, que matava muita gente no Portugal da época: tuberculose.

Mas não desistiu de lutar pelas suas convicções. Até ao final da vida.

Como foi possível, uma figura assim, ser esquecida pela comunidade local?

Origens

Daniel de Matos Faustino nasceu a 2 de outubro de 1903. Numa aldeia sobranceira ao rio Tejo: Ortiga, no concelho de Mação.

A exemplo de um irmão mais velho, abraçou o ofício de sapateiro e rumou para Santarém. Ali casou e teve cinco filhos. Criou raízes.

E foi ali que a PIDE lhe bateu à porta de casa às sete horas da manhã, numa quinta-feira de Agosto…

O ano era 1946.

A partir de prisões iniciais efetuadas pela GNR, dois meses antes, a PIDE lançou uma ofensiva contra a resistência clandestina na zona de Santarém.

Resistência que era movida pelo PCP.

Daniel esteve então dois meses preso. Findo esse tempo, ficou com um processo judicial pendente.

Até que, já em 1948, ele foi um de vinte condenados em tribunal, pelo ‘crime’ de “propaganda subversiva”. Basicamente, por fazerem circular o jornal «Avante», em Santarém e alguns arredores.

Embora apontado como responsável pelo “comité local” do PCP, Daniel ficou com pena suspensa pela circunstância de estar gravemente doente.

Na mesma leva de condenados estava o seu sobrinho Diamantino Faustino, que foi dirigente de várias coletividades locais. Nomeadamente da «Sociedade Recreativa Operária”, de Santarém, que ainda hoje existe.

Esse sobrinho acabaria por falecer três meses depois de sair da prisão do Forte de Peniche, com apenas 35 anos de idade.

Daniel sobreviveu.

E não se rendeu.

Persistência

Em 1953, a PIDE lançou outra ofensiva em Santarém. E voltou a prender Daniel Faustino.

Dessa vez, ele ficaria quatro anos encarcerado.

Em 1955, foi o único condenado num processo que visou 18 pessoas daquela cidade, pelo mesmo ‘crime’ de “propaganda subversiva”.

Tinha sido novamente identificado como “o responsável” pela organização local do PCP.

Daniel saiu da prisão em 1957. Mas ficou mais 5 anos em regime de liberdade condicional.

Ainda assim persistiu na luta contra a ditadura.

Neste ano de 2024, ainda há no PCP quem tenha sido recrutado por ele, já nos seus últimos anos de vida.

Na hora da morte

Daniel Faustino não viveu para ver o dia 25 de Abril de 1974.

Faleceu cinco anos antes.

Na altura, foi homenageado pelo principal jornal da oposição democrática (na legalidade): o jornal «República».

A censura à imprensa não permitia dizer muito. Mas ainda assim ficou escrito que Daniel “nunca abdicou dos seus ideais, sabendo suportar, com altivez, todas as agruras que por vezes lhe foram impostas, mantendo-se firme nos sãos princípios da Democracia até à hora da sua morte” [«República», 08/03/1969, p.15].

Mencionou-se ainda que, no funeral, teve um elogio partilhado por dois outros destacados antifascistas de Santarém: Humberto Lopes (do PCP), e Manuel Alves Castela (que viria a ser do PS).

Mas depois aquela cidade esqueceu-o.

Algumas memórias e tantas amnésias…

Como é que foi possível uma comunidade local esquecer uma figura assim?

É certo que a desigualdade social também se reflete na memória histórica.

Mesmo no que toca à resistência antifascista: fala-se sobretudo é em grandes líderes, grandes mártires, grandes intelectuais…

Mas isso não é uma visão redutora?

Que desvaloriza e obscurece a dimensão popular da resistência à ditadura?

Afinal, (no passado como no presente) qual é o lugar dos comuns, da classe trabalhadora?

Quem é a gente que faz mover o mundo?

Um sapateiro, como Daniel Faustino, tem direito à história da sua cidade?

Por esse país fora, quantos e quantas como ele?


Luís Carvalho é investigador.

Termos relacionados Esquerda com Memória, Política
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