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"Um país mais justo respeita quem constrói os seus serviços públicos"

Em comício em Braga, Catarina Martins saudou as conquistas de cuidadores informais, amas, precários do PREVPAP, e elogiou quem "faz milagres todos os dias" nas escolas e hospitais e merece melhores condições. Manifestou também confiança na eleição de um segundo deputado pelo distrito.
Comício do Bloco em Braga, 1 de outubro de 2019. Foto: Paula Nunes.
Foto: Paula Nunes.

Num comício muito concorrido na noite desta terça-feira na Avenida Central de Braga, Catarina Martins saudou as vitórias recentes conseguidas por cuidadores informais, amas, funcionários das escolas à espera do PREVPAP, e elogiou aqueles que "fazem milagres todos os dias" para manter escolas e hospitais a funcionar. Mas muito resta por fazer na próxima legislatura, lembrou. Luís Fazenda dissecou a obsessão do défice do PS, que passou agora a "obsessão do superavit". Já os candidatos pelo distrito Sónia Ribeiro, Alexandra Vieira, e José Maria Cardoso sublinharam os diversos problemas que a região enfrenta mas também o reconhecimento crescente que o Bloco granjeia entre os minhotos.

Gente que faz "milagres todos os dias" para cuidar dos nossos

Catarina Martins começou a sua intervenção por saudar Carlos Peixoto, que exibia no comício um cartaz com a sua história: trabalhou desde os 12 anos, descontou durante 47 anos, mas na hora da reforma teve uma penalização de 44% devido às regras iníquas de Pedro Mota Soares, então ministro do governo CDS-PP. Hoje, quem estiver na mesma situação já recebe a reforma por inteiro. "Celebramos essa vitória sem nunca esquecer que ainda falta fazer justiça a quem teve os cortes de Mota Soares", afirmou.

Os cuidadores informais, que começaram o dia de campanha do Bloco, foram também referidos. 800 mil pessoas, 250 mil delas a tempo inteiro, que "estiveram invisíveis durante tanto tempo". "Finalmente, temos um estatuto, e como trabalhámos para ele", congratulou-se Catarina Martins. Mas também aqui, advertiu, "sabemos que há muito por fazer e a nossa responsabilidade na próxima legislatura é concretizar o estatuto: dar o direito ao descanso, à formação, a apoio, ter uma legislação que não obrigue as pessoas a escolher entre trabalhar e cuidar, reconhecer a carreira contributiva".

Catarina Martins saudou ainda as amas da Segurança Social, que "nunca nos deixam esquecer que é possível dar a volta". "Há quatro anos iam despedi-las", lembrou. "Hoje, têm um vinculo à Segurança Social. São um exemplo de que é possível fazer muito melhor".

O dia teve também notícias positivas no PREVPAP, durante manifestações de técnicos especializados das escolas contra a demora na resposta aos seus processos. Psicólogos, intérpretes de língua gestual, educadores sociais e outros souberam durante a manifestação que os seus processos haviam sido homologados. "O Estado reconhece que esta gente é precisa nas nossas escolas. Este é o primeiro passo para terem contrato de trabalho, que merecem há tanto tempo", congratulou-se Catarina.

Exemplos para a coordenadora do Bloco de "como vale como vale a pena lutar, como vale a pena não desistir, não aceitar quando nos dizem que é impossível ou que sempre foi assim. Pode ser doutra forma". Vitórias para celebrar, mas "sabendo sempre tudo o que há por fazer".

Catarina Martins fez também um elogio a todos trabalhadores que fizerem e fazem a escola e a saúde públicas. "Em condições tão difíceis, tem havido quem todos os dias vá trabalhar e garanta que cuida das nossas crianças, dos nossos jovens, de quem está doente e vulnerável, de quem mais precisa". Professores, enfermeiros, médicos, professores, técnicos auxiliares, gente com quem o país pode contar e todos os dias "faz verdadeiros milagres para que as escolas, os centros de saúde, os hospitais funcionem". Gente que, reciprocamente, precisa de ver as suas carreiras respeitadas, de viver sem precariedade e com melhores condições de trabalho.

Problemas não só em Braga como de todo o país: "sabemos da sobrecarga de doentes com pouco pessoal no SNS, dos alunos por turma que são demais, da carga excessiva de trabalho, do burnout". Por isso, "para reforçar o país, precisamos de cuidar quem cuida de nós todos os dias", declarou Catarina.

O caminho do Bloco, afirmou, é de um país com o investimento de que precisa nos transportes, saúde, habitação, justiça; que respeita quem trabalha, que combate a precariedade, que luta por direitos iguais para todos. Em suma, "juntar as lutas para puxar este país para cima".

Por fim a coordenadora do Bloco dirigiu-se aos indecisos: "Não faltem à chamada". O Bloco, por sua parte, "não faltará" a seguir às eleições nos seus compromissos. E deixou uma palavra em especial para os eleitores de Braga: "podemos aqui ter mais deputados desta esquerda que não se engana no momento de lutar. Estivemos tão perto há quatro anos. Que seja agora".

Um voto seguro contra a "ditadura do superavit"

Na primeira intervenção da noite, Luís Fazenda focou-se na "obsessão do superavit" do PS, que sucedeu à antiga "obsessão do défice". O dirigente nacional começou por referir que Portugal terá poucas hipóteses de aproveitar um novo programa de compra de dívida pelo BCE, o que prenuncia maiores apertos no pagamento da dívida pública. Ora, alertou, o programa do PS propõe que a dívida pública desça para 100% do PIB no final da próxima legislatura, menos 20 pontos percentuais que hoje, o que representará de uma forma ou de outra um "aperto brutal na política orçamental".

Há outra coisa "muito concreta e definida" que Fazenda encontrou no programa do PS, que de resto "prima pela ausência de quantificações": um superavit primário todos os anos de 3% do PIB. Outro indicador de que os planos do PS passam pelo aperto orçamental para cumprir as suas metas.

Motivos para Luís Fazenda sentenciar que o PS substituiu a "obsessão do défice" pela "obsessão do superavit". Um caminho que, a ser seguido, vai comprometer o investimento público e com ele o caminho de recuperação de salários, rendimentos e serviços dos últimos quatro anos. Regressam assim com "pezinhos de lã e na ausência de debate público" os "ditames de Bruxelas", alertou.

Para Luís Fazenda, mais que especulações ou "aritmética casuística" nos media sobre cenários pós-eleitorais, importante será o que cada força queira fazer ao investimento público após o voto. O programa do PS, alertou, não tem "condições para o investimento público". Por isso, Fazenda deixou uma mensagem para quem quer escola pública, reforço do SNS, da habitação, melhorias da situação dos trabalhadores de público e privado: "o investimento público é que alavanca tudo isso. Para isso, o voto certo, o voto seguro é no Bloco de Esquerda". Um voto, concluiu, que permitirá a "superação do que foi a Geringonça sem ficarmos reféns da ditadura do superavit".

"Nunca votei em vocês, mas desta vez é no Bloco"

José Maria Cardoso, cabeça de lista do Bloco por Braga, fez uma revisão extensa da ação e propostas do Bloco no distrito, enquanto as candidatas Sónia Ribeiro e Alexandra Vieira focaram questões de trabalho e política local.

Antes da intervenção do cabeça de lista bracarense, a candidata Sónia Ribeiro mencionou a sua longa ligação ao movimento sindical e constatou como a precariedade permanece uma realidade premente no Minho, espalhando-se agora do têxtil e calçado para novos setores em expansão, como o turismo. Denunciou vivamente o período experimental de 180 dias, introduzido pelo PS e pela direita no Código de Trabalho, e reclamou por mais emprego com salário e direitos, no publico como no privado. Já Alexandra Vieira, também candidata, contou como ativistas cobriram a 25 de abril passado a estátua do marechal Gomes da Costa, um "atrevimento" que pôs a nu "nichos de conservadorismo" na cidade. O Bloco, contrapôs, representa o "cheirinho de alecrim" de que falava Chico Buarque, outrora na fase do "mesquitismo" como agora na fase do "mesquitinho alaranjado".

José Maria Cardoso Cardoso começou por elogiar a dinâmica de campanha no Minho, com boa receção popular nas feiras, fábricas e praças por onde o Bloco tem passado. Entre reformados, trabalhadores, entre o povo, afirmou, uma reação muito ouvida tem sido: "É do Bloco? Então aceito". Cardoso recordou em particular dois idosos em Fafe a quem ouviu: "Nunca votei em vocês, mas desta vez é no Bloco", pois para eles o aumento da pensão, mesmo parca, passou a permitiu-lhes comprar medicamentos. "Esta é uma resposta objetiva que demos às pessoas", congratulou-se.

À porta das empresas, também muito apoio, referiu José Maria Cardoso: "dizem-nos: não esquecemos que foram vocês que fizeram aumentar o salário mínimo". Um aumento que teria sido residual pelo PS, criticou, mas que se conquistou e tem de continuar rumo aos 650 euros no próximo ano e 800 euros nos próximos quatro anos. Será um referencial para uma subida generalizada dos salários, pois "se cresce a economia, têm de crescer os salários — até porque já se percebeu que salários fazem crescer a economia", completou. Importante também, sublinhou, é garantir a igualdade entre trabalhadores do público e privado, tanto no salário mínimo como nas 35 horas por semana e na dispensa para levar filhos à escola.

Cardoso lamentou por outro lado o revés das alterações ao Código do Trabalho, que entraram hoje em vigor, aprovadas pelo PS "numa das suas derivas direitistas" com o consentimento da direita. "Não podemos aceitar a normalização do anormal que o PS tenta fazer" com o alargamento do período experimental ou dos contratos informais, denunciou.

Na habitação, Cardoso recordou visitas a bairros de Barcelos e Guimarães, onde o Bloco debateu e apresentou proposta para criar mais de centena e meia de novos fogos. Em ambos os casos, referiu, os moradores reconheceram "o papel de intervenção e acompanhamento do Bloco". Saudou também a entrada em vigor da Lei de Bases da Habitação, que "elimina muito do que a amaldiçoada Lei Cristas provocou", e abre possibilidades para responder à especulação imobiliária. Para as aproveitar, todavia, é preciso que o PS não tenha maioria absoluta e o Bloco tenha mais força.

Cardoso alertou também para a dificuldade de combater as alterações climáticas sem uma política adequada de transporte. Um exemplo é a viagem Braga-Guimarães, que de comboio dura 2 horas, com 50 minutos de paragem pelo meio, entre cidades que distam 20 quilómetros. Para dar alternativas ao carro, é preciso avançar com medidas previstas no plano ferroviário do Bloco, como uma linha direta Braga-Guimarães e a recuperação da linha do Tâmega. Os passes sociais, cuja redução foi importante, devem ter regras de financiamento mais claras e equilibradas, para que o financiamento público não fique concentrado em 85% nas áreas metropolitanas.

José Maria Cardoso deixou ainda elogios ao PREVPAP e às amas da Segurança Social em Braga, "verdadeiras guerreiras do Minho" que conseguiram o "feito extraordinário" de passar a ter recibo de vencimento desde este mês, após "décadas a trabalhar sem direitos nem proteção".

O candidato bracarense saudou também "enfaticamente" que o hospital de Braga tenha deixado o regime PPP para voltar à gestão pública. Mas lembrou a necessidade de abrir finalmente o concurso para o hospital de Barcelos, prometido há décadas, bem como reabrir os serviços de atendimento permanente 24h nos centros de saúde, que terras como Vieira do Minho ou Cabeceiras de Basto já tiveram e perderam.

José Maria Cardoso terminou num tom de confiança quanto à possibilidade de eleger a segunda deputada por Braga, que ficou perto há quatro anos: "Acho que este é momento do Bloco".

Veja a fotogaleria do comício.

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