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Um funeral para o glaciar morto na Islândia

O glaciar Okjökull, mais conhecido como Ok, não sobreviveu às alterações climáticas. No próximo domingo, terá direito a um funeral simbólico com descerramento de uma placa para sensibilizar sobre a crise ambiental numa altura em que os restantes 400 glaciares do país estão ameaçados.
Placa comemorativa do glaciar Ok.
Placa comemorativa do glaciar Ok. Twitter de Andri Snær Magnason

A sua morte tinha já sido anunciada. O seu funeral é a novidade. O Okjökull tinha deixado de ser considerado um glaciar em 2014 com “atestado” passado pelo cientista Oddur Sigurdsson. Passados cinco anos, o seu “funeral”, que vai decorrer no próximo domingo, tem o objetivo de sensibilizar a população acerca dos efeitos da crise ambiental.

O Ok não morreu de morte súbita. Em 1901 a sua área era de 38 quilómetros quadrados. Em 1978 já era apenas de três. Em 1986, as imagens de satélite ainda permitiam ver uma enorme mancha branca. As imagens da NASA de 1 agosto deste ano mostram que a zona gelada ocupa nesta altura menos de um quilómetro quadrado.

Agora que deixou de ser um glaciar, a zona vai ter uma placa fúnebre escrita em inglês e islandês por Andri Snær Magnason, um escritor local. Esta é “uma carta para o futuro” na qual se pode ler :“Ok é o primeiro glaciar islandês a perder o estatuto de glaciar. A previsão é que, nos próximos 200 anos, todos os nossos glaciares sigam o mesmo caminho. Este monumento foi instalado para reconhecer que sabemos o que está a acontecer e o que precisa ser feito. Apenas você sabe se conseguimos.”

Em artigo publicado no Guardian, Magnason lembra que 10% do seu país está coberto por glaciares e que o seu derretimento irá afetar centenas de milhões de pessoas. Neto de cientistas que exploravam glaciares, o escritor lembra que cresceu presumindo que estes eram um símbolo de eternidade e daí a dificuldade de escrever um memorial a estes. Sobre as alterações climáticas escreve que somos como os sapos da fábula que ficam quietos enquanto são cozidos em lume lento e pergunta “colegas sapos, estamos a cozinhar, o que vamos fazer quanto a isso?”

Not Ok!

A iniciativa de descerramento da placa foi dos antropólogos da Universidade de Rice, Cymene Howe e Dominic Boyer. Vem no seguimento do documentário que realizaram em 2018, chamado “Not Ok” narrado por Jón Gnarr, ex-Presidente de Câmara de Reiquiavique, no papel do próprio glaciar.

Para além do filme, os cientistas estão realizar visitas ao local. Enquanto que o turismo glaciar na Islândia promete vistas e experiências no gelo, o seu percurso “Un-glacier”, não-glaciar, é apresentado como um passeio guiado aos restos mortais do Okjökull que é “um ajuste de contas com a morte glaciar tanto quanto uma celebração da vida glaciar”.

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