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Um contágio de más ideias, por Joseph Stiglitz

A grande recessão de 2008 transformou-se na recessão do Atlântico norte. E são Europa e EUA que caminham, juntos ou separados, na direcção de um grande desastre. Por Joseph Stiglitz.
“As noções económicas equivocadas de ambos os lados do Atlântico reforçaram-se entre si”. - Foto de Obama, Sarkozy, Angela Merkel e David Cameron

A grande recessão de 2008 transformou-se na recessão do Atlântico norte: são principalmente a Europa e os EUA, não os mercados emergentes mais importantes, que são afectados pelo lento crescimento e pelo alto desemprego. E são Europa e EUA que caminham, juntos ou separados, na direcção de um grande desastre. A explosão de uma bolha conduziu a um estímulo keynesiano massivo que evitou uma recessão muito mais profunda, mas também impulsionou défices orçamentais importantes. A resposta – cortes massivos de gastos públicos – garante que os níveis de desemprego inaceitavelmente altos (um vasto desperdício de recursos e um excesso de oferta de sofrimento) se prolonguem durante anos.

A União Europeia finalmente comprometeu-se a ajudar os seus membros com dificuldades financeiras. Não tinha opção: a agitação financeira ameaçava estender-se de países pequenos, como Grécia e Irlanda, para outros grandes como Itália e Espanha, e a própria sobrevivência do euro enfrentava perigos crescentes. Os líderes europeus reconheceram que as dívidas dos países com problemas não poderiam ser administradas a menos que as suas economias pudessem crescer, e que o crescimento não se obteria sem ajuda.

Mas se prometeram que a ajuda estava a caminho, os líderes europeus reforçaram a sua crença de que os países em crise devem cortar os seus gastos. A austeridade resultante atrasará o crescimento europeu e com isso o das suas economias com maiores problemas: aliás, nada ajudaria mais a Grécia que o crescimento robusto dos seus sócios comerciais. E o baixo crescimento prejudicará a arrecadação tributária, afectando também a meta proclamada de consolidação fiscal.

As discussões prévias à crise ilustraram o pouco que havia sido feito para reparar os fundamentos económicos. A oposição veemente do Banco Central Europeu a algo essencial para todas as economias capitalistas – a reestruturação da dívida das entidades ameaçadas de quebra ou insolventes – evidencia a contínua fragilidade do sistema bancário ocidental.

O BCE argumentou que os contribuintes deveriam assumir o custo total da dívida externa grega, por medo que qualquer participação do sector privado pudesse provocar um calote que forçasse importantes resgates de CDS (títulos de seguro contra insolvências), provocando uma futura crise financeira. Mas se esse é um medo real do BCE – se não se trata meramente de agir a favor dos emprestadores privados -, ele teria que ter exigido dos bancos que mantenham mais capital.

Além disso, o BCE teria que ter proibido os bancos de operar no arriscado mercado dos CDS, onde são reféns das decisões das agências de classificação de risco sobre o que constitui de facto um calote. Sem dúvida, uma decisão positiva dos líderes europeus na recente cimeira de Bruxelas foi começar o processo de limitar tanto o BCE como o poder das agências de qualificação norte-americanas.

De facto, o aspecto mais curioso da posição do BCE foi a sua ameaça de não aceitar os títulos reestruturados como garantia se as agências de classificação decidissem que a reestruturação deveria ser classificada como um calote. A ideia da reestruturação era liquidar dívida e conseguir com que o resto fosse mais manejável. Se os títulos eram aceitáveis como garantia antes da reestruturação, certamente seriam seguros depois dela e, portanto, igualmente aceitáveis.

Este episódio serve para lembrar que os bancos centrais são instituições políticas com uma agenda política e que os bancos centrais independentes tendem a ser capturados (pelo menos cognitivamente) pelos bancos que, supostamente, devem regular.

E a situação não está muito melhor do outro lado do Atlântico. Aí, a extrema-direita ameaçou paralisar o governo dos EUA, confirmando o que sugere a teoria dos jogos: quando pessoas racionais se enfrentam com quem está irracionalmente decidido a causar a destruição se os seus objectivos não forem atingidos, são estes últimos que prevalecem.

Como resultado, o presidente Barack Obama concordou com uma estratégia desequilibrada de redução da dívida, sem aumentos de impostos – nem sequer para os milionários que foram tão bem tratados nas últimas duas décadas -, e sem sequer eliminar gentilezas tributárias para as empresas petrolíferas, que prejudicam a eficiência económica e contribuem para a destruição ambiental.

Os optimistas argumentam que o impacto macroeconómico de curto prazo do acordo para aumentar o tecto do endividamento norte-americano e evitar o incumprimento da dívida soberana será limitado: cortes no gasto público de aproximadamente 25 mil milhões de dólares para o próximo ano. Mas o corte nos impostos sobre os salários (que contribuiu com mais de 100 mil milhões para o rendimento dos cidadãos comuns) não foi renovado e, seguramente, as empresas, antecipando as consequências contraccionistas, serão ainda mais relutantes a garantir créditos.

A cessação do estímulo é, em si mesma, contraccionista. E à medida que os preços dos imóveis continuarem a cair, que o crescimento do PIB vacile e o desemprego teime em manter-se elevado (um em cada seis norte-americanos que desejam um trabalho a tempo integral não consegue obtê-lo), o que faz mais falta é mais estímulo e não austeridade – inclusive para equilibrar o orçamento. O factor mais importante para o crescimento do défice é a baixa arrecadação fiscal causada por um pobre desempenho económico; o melhor remédio seria que os EUA voltassem ao trabalho. O recente acordo da dívida é uma jogada na direcção equivocada.

Houve muita preocupação sobre o contágio financeiro entre a Europa e os EUA. Afinal, os erros de gestão financeira dos EUA desempenharam um papel importante no desencadeamento dos problemas europeus, e a agitação financeira europeia não será boa para os EUA – especialmente considerando a fragilidade do sistema bancário norte-americano e a sua contínua actuação nos poucos transparentes CDS.

Mas o problema real surge de outro tipo de contágio: as más ideias cruzam facilmente as fronteiras e as noções económicas equivocadas de ambos os lados do Atlântico reforçaram-se entre si. O mesmo se aplica à estagnação que essas políticas provocam.

Artigo publicado publicado no jornal El Pais, a 14 de Agosto de 2011, traduzido para português por Katarina Peixotopara Carta Maior

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