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Ucrânia: uma negação de autonomia em nome da geopolítica e/ou da paz

Gilbert Achcar analisa as divisões que têm surgido na esquerda por causa da invasão da Ucrânia e que derivam de duas novidades: a invasão russa de um país vizinho mais fraco em nome de ambições expansionistas nacionalistas declaradas abertamente e o apoio ativo e consistente da NATO à resistência do país invadido.
Manifestação contra a guerra do "Comité Ucrânia" da Suíça. Foto do Facebook da organização.
Manifestação contra a guerra do "Comité Ucrânia" da Suíça. Foto do Facebook da organização.

A esquerda anti-imperialista e anti-guerra em todo o mundo tem estado profundamente dividida por causa da guerra na Ucrânia a partir de linhas políticas bastante invulgares. Isto deve-se a dois fatores: por um lado, a novidade da situação da invasão russa de um país vizinho mais fraco em nome de ambições expansionistas nacionalistas declaradas abertamente; e, por outro, o apoio ativo e consistente da NATO à resistência do país invadido. Esta mesma esquerda já tinha sido rasgada por desacordos sobre a intervenção assassina da Rússia na Síria após a do Irão, mas as condições eram então muito diferentes.

Moscovo tinha intervindo em apoio ao regime sírio estabelecido, um facto que alguns tomaram como pretexto para justificar ou desculpar a intervenção. Os mesmos denunciaram veementemente a mortífera intervenção liderada pela Arábia Saudita no Iémen, embora também tenha ocorrido em apoio ao governo estabelecido – um governo certamente mais legítimo do que a ditadura síria que está no poder há mais de 50 anos (o governo iemenita emergiu das eleições realizadas após a revolta de 2011 que depôs o ditador de longa data daquele país).

O apoio à intervenção militar russa na Síria ou, na melhor das hipóteses, a recusa de a condenar baseou-se, na maioria dos casos, num "anti-imperialismo" geopolítico unilateral que via o destino do povo sírio como subordinado ao objetivo último de se opor ao imperialismo ocidental liderado pelos EUA, que eram vistos como apoiantes da revolta síria. Mais uma vez, houve uma flagrante contradição no facto de os apoiantes desta posição não se terem manifestado contra a guerra liderada pelos EUA contra o auto-proclamado “Estado islâmico” e exigirem que esta fosse travada.

De facto, alguns dos que, em nome da oposição ao imperialismo dos EUA, se recusaram a condenar a intervenção da Rússia para salvar a ditadura síria, apoiaram a intervenção dos EUA ao lado do YPG, a milícia curda na Síria próxima do Partido dos Trabalhadores do Curdistão turco (PKK), na sua luta contra o “Estado Islâmico” (os EUA até apoiaram ao mesmo tempo as milícias pró-iranianas do Iraque neste conflito).

A guerra na Ucrânia apresentou um caso que parecia ser mais claro e inequívoco. A Rússia está a travar uma guerra de invasão na Ucrânia semelhante às travadas pelo imperialismo americano em vários países desde a Segunda Guerra Mundial, da Coreia ao Afeganistão, do Vietname ao Iraque. Como o invasor não é Washington, mas Moscovo e como os que combatem a invasão não são apoiados por Moscovo e Pequim, mas por Washington e os seus aliados da NATO, grande parte da esquerda anti-guerra e anti-imperialista tem reagido de forma muito diferente.

Uma franja desta esquerda, levando ao extremo a sua oposição unidimensional neo-campista ao imperialismo norte-americano e aos seus aliados, apoiou a Rússia como "anti-imperialista", transformando assim o conceito de imperialismo originalmente baseado na crítica do capitalismo num conceito baseado num ódio quase cultural do Ocidente. Outro lado reconheceu a natureza imperialista do atual Estado russo mas considerou-o como uma potência imperialista menor à qual não nos deveríamos opor de acordo com a lógica do "mal menor".

E uma outra parte da esquerda anti-imperialista anti-guerra, reconhecendo a natureza imperialista da invasão russa da Ucrânia, condenou-a e exigiu que ela a parasse. No entanto, não apoiou a resistência da Ucrânia à invasão, exceto para lhe desejar piedosamente o melhor, negando ao mesmo tempo o seu direito de obter as armas de que necessita para se defender. Pior, a maioria dessas pessoas opôs-se à entrega de tais armas pelas potências da NATO, subordinando descaradamente o destino dos ucranianos à consideração tida como "suprema" da oposição ao imperialismo ocidental.

A versão mais hipócrita desta atitude tem sido fingir que se preocupam com a situação dos ucranianos que estão alegadamente a ser utilizados pela NATO como carne para canhão numa guerra inter-imperialista por procuração. A este respeito, muito se tem falado de uma entrevista com Chas Freeman, um antigo funcionário norte-americano de 79 anos, que se reformou em 1994 após ter ocupado uma série de cargos, incluindo o de embaixador dos EUA no Reino Saudita na altura da destruição do Iraque pelos EUA, em 1991. A entrevista foi conduzida pelo website Grayzone, especializado em propaganda russa, discurso anti-vacinas e teorias da conspiração.

Interrogado sobre o que pensava dos comentários do Presidente Zelensky da Ucrânia que, segundo o Grayzone, teria declarado que os membros da NATO lhe tinham dito que não admitiriam o seu país na NATO, ao mesmo tempo que deixavam oficialmente a porta aberta, Freeman respondeu:

“Penso que é uma posição notavelmente cínica ou talvez tenha sido ingénua e irrealista por parte dos líderes ocidentais. Zelensky é obviamente um homem muito inteligente e viu quais seriam as consequências daquilo que ele chamou uma relegação para o limbo: que a Ucrânia seria abandonada à sua sorte. E que o Ocidente dizia basicamente, 'lutaremos até ao último ucraniano pela independência da Ucrânia', o que continua a ser basicamente a nossa posição.”

Mais tarde, na mesma entrevista, pergunta-se a Freeman sobre a ideia de que a Ucrânia está a ser utilizada como carne para canhão contra a Rússia, uma opinião que Grayzone acredita que prevalece em Washington. Freeman responde: "Não custa absolutamente nada aos EUA, desde que não cruzemos alguma linha vermelha russa que levaria a uma escalada contra nós". Nas suas respostas, Freeman soou mais como se estivesse a criticar a NATO por não admitir a Ucrânia no seu seio e os Estados Unidos por não lutarem pela Ucrânia, como se quisesse que a Aliança se envolvesse diretamente na defesa do território e soberania da Ucrânia, em vez de a deixar no limbo.

No entanto, a citação sobre combater "até ao último ucraniano" foi interpretada como se o próprio Freeman tivesse dito que Washington está a usar ucranianos como soldados por procuração substitutos e a empurrá-los para combater até ao último. Isto foi mesmo tratado como se fosse uma declaração oficial da política dos EUA. O próprio Vladimir Putin repetiu a mesma frase "até ao último ucraniano", numa declaração pública a 12 de Abril. Daí surgiram falsas manifestações de piedade para com os ucranianos que são descritos como estando a ser cinicamente abastecidos com armas pelas potências da NATO para se manterem a lutar até ao esgotamento total. Isto permite àqueles que expressam tais opiniões oporem-se à entrega de armas defensivas aos ucranianos pelos governos da NATO sob o pretexto de uma preocupação humanista para com eles.

Contudo, esta falsa simpatia oculta completamente a autonomia dos ucranianos, ao ponto de contradizer o óbvio: não passou um único dia, desde o início da invasão russa, sem que o presidente ucraniano censure publicamente as potências da NATO por não enviarem armas suficientes, tanto em quantidade como em espécie! Se as potências imperialistas da NATO utilizassem cinicamente os ucranianos para enfraquecer o seu rival, a Rússia imperialista, como este tipo de análise incoerente sugeria, não seria preciso certamente implorar-lhes para enviar ainda mais armas.

A verdade é que as grandes potências da NATO estão ansiosas pelo fim da guerra – isto é particularmente verdade no caso da França e da Alemanha, grandes fornecedores de armas à Ucrânia. Embora a guerra tenha muitos benefícios para os complexos militar-industriais destes países, os ganhos nestes sectores específicos não pesam muito em comparação com o impacto global da escassez de energia, do aumento da inflação, da enorme crise dos refugiados e da perturbação do sistema capitalista internacional como um todo, numa altura de incerteza política global e de ascensão da extrema-direita.

Finalmente, outra parte da esquerda anti-imperialista mundial rejeita a entrega de armas aos ucranianos em nome da paz, defendendo as negociações como alternativa à guerra. Poder-se-ia pensar que estamos de volta aos dias da Guerra do Vietname, quando o movimento anti-guerra foi dividido entre os partidos comunistas pró-Moscovo que defendiam a paz e a esquerda radical que desejava abertamente a vitória do Vietname contra a invasão dos EUA.

Mas a situação é hoje muito diferente. Na época de guerra do Vietname, ambas as alas do movimento anti-guerra estavam plenamente solidárias com os vietnamitas. Ambas apoiavam o direito dos vietnamitas adquirirem armas para se defenderem. O seu desacordo era tático, sobre qual o slogan a apresentar para construir mais eficazmente um movimento anti-guerra que pudesse ajudar o Vietname na sua luta nacional.

Hoje, por outro lado, aqueles que defendem a "paz" enquanto se opõem ao direito dos ucranianos a adquirirem armas para a sua defesa, opõem essa paz ao combate. Por outras palavras, apoiam a capitulação da Ucrânia, pois que “paz” poderíamos ter tido se os ucranianos não tivessem sido armados e, portanto, não pudessem ter defendido o seu país? Poderíamos escrever hoje "A Ordem reina em Kiev!", mas essa seria a Nova Ordem imposta por Moscovo à nação ucraniana sob o pretexto ultra-falacioso de a “desnazificar”.

Estão em curso negociações entre Kiev e Moscovo, mediadas pela Turquia, membro da NATO. Só conduzirão a um tratado de paz se uma de duas condições for cumprida. A primeira seria que a Ucrânia não pudesse continuar a lutar e fosse obrigada a capitular e aceitar o diktat de Moscovo, ainda que este diktat tenha sido consideravelmente diminuído em relação aos objetivos iniciais declarados por Putin, graças à resistência heroica das forças armadas e da população ucraniana.

A outra condição seria que a Rússia já não fosse capaz de continuar a lutar, quer por razões militares devido ao esgotamento moral das suas tropas, quer por razões económicas devido ao descontentamento generalizado da população russa. Foi assim que, na Primeira Guerra Mundial, as dificuldades com que se depararam as tropas da Rússia czarista e as consequências económicas da guerra para a população russa levaram-na a levantar-se e a derrubar o czarismo em 1917 (uma causa semelhante tinha levado à revolução fracassada de 1905, após a derrota da Rússia na sua guerra contra o Japão).

Os verdadeiros internacionalistas, ativistas anti-guerra e anti-imperialistas só podem desejar de todo o coração o segundo cenário. Devem, portanto, apoiar o direito da Ucrânia a obter as armas de que necessita para a sua defesa. A posição oposta é apoiar a agressão imperialista da Rússia, ainda que se reivindique o contrário.


Gilbert Achcar é professor de Estudos do Desenvolvimento e Relações Internacionais no SOAS da Universidade de Londres.

Publicado originalmente na Contretemps.Traduzido por António José André para Esquerda.net.

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