Cerca de 150 pessoas reuniram-se recentemente em Kiev para assistir a uma conferência realizada por organizações de esquerda ucranianas, entre as quais a Oposição de esquerda, com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. A conferência, intitulada “A esquerda de Maidan” discutiu perspetivas para a esquerda ucraniana.
Também participaram pessoas vindas da Rússia, de França, Alemanha, Polónia e Bielorrússia, assim como deputados da esquerda do Bundestag alemão e da Duma russa1. Ben Neal, militante da organização anticapitalista britânica “Socialismo Revolucionário no século XXI” entrevistou Denis Pilas, um dos organizadores da conferência.
Ben Neal: Podia-nos explicar quais eram os objetivos da conferência?
Denis Pilas: Foi organizada por militantes de esquerda que participaram nas manifestações de Maidan, para partilhar as suas experiências e análises com o objetivo de elaborar um plano e uma visão clara da estratégia futura da esquerda na Ucrânia. E, evidentemente, vejo esta conferência como uma ferramenta importante para promover a solidariedade internacional. Fiquei verdadeiramente feliz com a participação de militantes sindicais independentes de Dniepropetrovsk e de Kryvoï-Rog (no sudeste da Ucrânia), de dirigentes operários veteranos [que participaram nas greves dos mineiros de 1989, no fim da União Soviética] e de jovens mineiros que participaram nas suas “Maidans” locais e nas manifestações por causas sociais.
Quais foram os principais resultados da conferência?
Um dos principais resultados foi a consolidação das iniciativas de esquerda em Maidan pela preparação das futuras manifestações sociais – hoje contra o novo governo. Houve também o lançamento da “Assembleia pela Revolução Social”, a primeira lista de esquerda radical em Kiev nas eleições do conselho da cidade, baseada no conceito da “democracia delegativa”2. Foi feito um acordo de participar sob a égide do partido “Ucrânia Socialista”.
Um dos principais temas de discussão, e que tem um interesse particular para os socialistas revolucionários na Grã-Bretanha, é saber como a esquerda internacional deve abordar a situação na Ucrânia, em particular no que diz respeito à esquerda neste país. Que pode dizer sobre isto?
A esquerda internacional não pode sucumbir a nenhum tipo de “geopolítica” ou de apoio ao imperialismo do “mal menor”. Em vez disso, é preciso fazer uma campanha contra a política militarista e aventureirista tanto dos Estados Unidos quanto da Rússia. Seria necessário um autêntico movimento antiguerra contra o risco de uma eventual guerra civil na Ucrânia.
É preciso opor-se ao regime conservador, autoritário e oligárquico de Putin na Rússia e solidarizar-se com os militantes de esquerda perseguidos por este regime.
No caso da Ucrânia, é preciso apelar aos trabalhadores do oeste e do leste da Ucrânia a unir-se na luta contra as oligarquias. Convém igualmente protestar contra as exigências do FMI e incluir a Ucrânia em todas as lutas europeias contra a austeridade.
Que deve exigir a esquerda dos governos ocidentais?
As reivindicações aos governos ocidentais deveriam ser as seguintes:
– Anulação da dívida ucraniana;
– Supressão dos vistos para deslocamento dos cidadãos ucranianos;
– Anulação das exigências de austeridade;
– Sanções eficazes contra os oligarcas ucranianos, o confisco dos seus bens no oeste para restitui-los à população.
Que pode fazer a esquerda internacional para construir a solidariedade com os militantes da Ucrânia?
Pode contribuir criando as ligações com os sindicatos ucranianos e os movimentos populares progressistas e promovendo campanhas por causas comuns. Os militantes podem vir à Ucrânia, ver a realidade com os seus próprios olhos e partilhar as suas experiências com outros militantes no regresso.
Tradução para o francês para Avanti4.be de G. Cluseret. Tradução do francês para o português de Luis Leiria para o Esquerda.net
1 Respetivamente Andrei Hunko da bancada do partido Die Linke no Bundestag e Ilya Ponomarev, da Frente de Esquerda, que foi o único membro da Duma russa a votar contra a anexação da Crimeia.
2 http://blogs.mediapart.fr/blog/franckd/141212/democratie-delegative (note de Avanti).