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Tsipras: "É preciso resistir à chantagem"

No dia da visita de Angela Merkel a Atenas, o líder do Syriza Alexis Tsipras escreve um artigo no jornal inglês Guardian a defender que é altura dos contribuintes europeus entenderem que o seu dinheiro está perdido se continuar a servir para financiar mais austeridade nos países do Sul.
Alexis Tsipras. Foto Gue/NGL

Quando Angela Merkel chegar a Atenas na terça-feira, ela encontrará a Grécia no quinto ano consecutivo de recessão. Em 2008 e 2009, a recessão era um alastramento da crise financeira global. Desde então ela foi causada e aprofundada pelas políticas de austeridade impostas à Grécia pela troika - do FMI, da UE e do BCE - e pelo governo grego.

Estas políticas estão a devastar o povo grego, sobretudo os trabalhadores, pensionistas, pequenos empresários e as mulheres, e naturalmente os mais jovens. A economia grega contraiu mais de 22%, os trabalhadores e pensionistas perderam 32% do seu rendimento, e o desemprego atingiu uns nunca vistos 24% com o desemprego jovem a atingir 55%. As políticas de austeridade levaram aos cortes nos subsídios, à desregulação do mercado laboral e à deterioração em maior escala do estado social limitado que tinha sobrevivido ao massacre neoliberal.

O governo diz que só a agenda de austeridade poderá tornar a dívida grega de novo sustentável. Mas o contrário é que é verdade. As políticas de austeridade impedem a economia de voltar a crescer. A austeridade cria uma espiral viciosa de recessão e um aumento da dívida que por sua vez arrasta tanto a Grécia como os seus credores para a calamidade.

Tudo isto é do conhecimento das elites e dos políticos gregos e europeus, incluindo Merkel, que tentam implementar programas semelhantes em todos os países europeus a braços com o problema da dívida, como a Espanha, Portugal e Itália. Porque é que insistem de forma tão dogmática neste caminho para o desastre político e social? Achamos que o seu objetivo não é resolver a crise da dívida mas sim criar um novo enquadramento ao nível europeu, baseado no trabalho barato, desregulação do mercado laboral, baixa despesa pública e isenções fiscais para o capital. Para o conseguirem, esta estratégia usa uma forma de chantagem política e financeira para convencer ou coagir os europeus a aceitarem os pacotes de austeridade sem resistência. As políticas do medo e da chantagem usadas na Grécia são a melhor ilustração dessa estratégia.

O meu partido, Syriza - Frente Social Unida, respeita o contribuinte europeu a quem pedem para arcar com empréstimos aos países em dificuldades, incluindo a Grécia. Os cidadãos europeus devem saber, contudo, que os empréstimos à Grécia são depositados numa conta dedicada e usados exclusivamente para pagar empréstimos antigos e recapitalizar bancos privados à beira da bancarrota. O dinheiro não pode ser usado para pagar salários e pensões, ou comprar medicamentos para os hospitais ou leite para as escolas. A condição prévia para estes empréstimos é de ainda mais austeridade, paralisando a economia grega e aumentando a possibilidade de incumprimento. Se existe o risco dos contribuintes europeus ficarem sem o seu dinheiro, ele é criado pela austeridade.

Isto tem de acabar imediatamente. A Europa precisa de um novo plano para aprofundar a integração europeia. Um plano que tem de desafiar o neoliberalismo e conduzir as economias europeias no caminho da recuperação. Deve dar prioridade às necessidades dos trabalhadores, pensionistas e desempregados, não aos interesses das companhias multinacionais e banqueiros falidos. O Syriza-FSU compromete-se com este caminho. Sabemos que ele é difícil. Mas é o único plano que pode restaurar a visão europeia de justiça social, paz e solidariedade.

Este plano só terá sucesso se as lutas populares mudarem radicalmente a relação de forças. Estas lutas já começaram e levaram ao crescimento da esquerda e dos movimentos de resistência em toda a Europa. Eles mantêm viva a democracia, a igualdade, liberdade e solidariedade, que são os valores mais importantes da tradição política da Europa. Estes valores têm de prevalecer. Caso contrário a Europa irá recuar a um passado sombrio que todos achámos que estava definitivamente afastado.

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