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Trump perdoa Bannon, aliados e famosos

O ideólogo da extrema-direita mundial acusado de desvio de fundos, um amigo do genro acusado de perseguir online a ex-mulher, um angariador de fundos dos republicanos e um rapper apoiante de Trump fazem parte da lista de perdões presidenciais de última hora.
Steve Bannon em 2018. Foto de Mike Licht/Flickr.
Steve Bannon em 2018. Foto de Mike Licht/Flickr.

São mais de 140 perdões e comutações de penas nas últimas horas em que Donald Trump ocupa o cargo de Presidente dos EUA. E o padrão mantém-se até ao final: aliados políticos, pessoas com ligações pessoais a si ou a familiares e famosos são contemplados.

O mais famoso de entre os 73 perdoados esta quarta-feira é Steve Bannon. Conhecido por ser um dos ideólogos da extrema-direita mundial, que anunciara estar a trabalhar para fazer o mesmo na Europa que tinha sucedido nos EUA com a eleição de Trump, foi seu conselheiro. Como tantos outros, acabou por ser afastado do cargo, mas o presidente agora cessante não se terá esquecido dos serviços prestados. Steve Bannon foi preso em agosto de 2020, acusado do desvio de mais de um milhão de dólares de uma campanha para construir o muro entre o seu país e o México. O julgamento estava marcado para maio.

Recentemente, Bannon foi banido do Twitter e de outras redes sociais depois de apelar à decapitação do mais conhecido epidemiologista dos EUA, Anthony Fauci, e do diretor do FBI Christopher Wray.

Entre os perdoados encontram-se ainda famosos como os rappers Lil Wayne, que tinha apoiado Trump publicamente, e Kodak Black, acusados por posse ilegal de armas. Há também aqueles cujas causas foram promovidas por famosos ou por apoiantes ricos do presidente: Kim Kardashian West, uma estrela de reality shows, fez lóbi por Alice Marie Johnson, e Trump incluiu-a na lista de perdões; os patrões da indústria tecnológica e apoiantes de Trump Peter Thiel e Palmer Luckey pressionaram para o perdão do engenheiro Anthony Levandowski que confessou ter roubado segredos industriais do projeto de automóvel sem condutor da Google e depois foi contratado por uma unidade da Uber que trabalha para o mesmo fim.

Menos conhecido, mas muito mais próximo dos republicanos, é Elliott Broidy, ex-vice-presidente do setor financeiro da Comissão Nacional Republicana e angariador de fundos para este partido (e para Trump) que se declarou culpado na violação das leis de lóbi internacional ao tentar fazer com que o mega-escândalo de corrupção na Malásia não fosse investigado. Ainda mais desconhecido, mas ainda mais próximo do círculo pessoal de Trump, Ken Kurson, amigo do seu genro, foi perdoado. Estava acusado de perseguição online na sequência do seu divórcio. Também se encontram entre os perdoados.

A lista não acaba aqui. Paul Erickson, do mesmo lado político e ligado ao lóbi das armas, foi perdoado dos crimes de fraude e lavagem de dinheiro. Rick Renzi, ex-eleito republicano no Arizona também foi totalmente perdoado de extorsão, suborno, fraude fiscal, entre outros crimes. Robin Hayes, antigo líder do Partido na Carolina do Norte e congressista durante uma década, confesso autor de um suborno, teve igual sorte. Tal como Duke Cunningham, da Califórnia, que passou oito anos na prisão por ter sido subornado.

Esta derradeira leva de perdões não encerra a controvérsia. Segundo a CNN, Trump teve de ser convencido no sábado passado pelos seus conselheiros jurídicos a não se perdoar a si próprio, ou outros eleitos republicanos que não foram até ao momento acusados formalmente de crimes, porque isso sugeriria culpa e colocá-lo-ia em perigo legal.

Por outro lado, surgiu a especulação de que os nomes anunciados podem não esgotar a lista verdadeira de perdoados. Isto porque, como sublinham vários órgãos de comunicação social, como por exemplo a Newsweek, o presidente não é obrigado a revelar publicamente todas as pessoas que perdoou.

Entre os perdões famosos e o “mercado dos perdões”

As decisões surgem depois de uma notícia no New York Times ter revelado que aliados de Trump estavam a recolher “dezenas de milhares de dólares – e potencialmente muito mais” de pessoas que procuravam perdões.

Este “lucrativo mercado de perdões” terá sido desmascarado através de documentos e entrevistas com mais de trinta dezenas de lóbistas e advogados. Lóbistas como Brett Tolman, que aconselha a Casa Branca com os seus perdões, teria “monetarizado” a sua função. O ex-advogado pessoal de Trump, John M. Dowd, também se apresentava como influente para conseguir obter perdões presidenciais junto de possíveis clientes, tendo aceite dezenas de milhares de dólares de um condenado rico. Outro ex-advogado do presidente Mark D. Cowan passou a ganhar a vida desta forma depois de abandonar a representação de Trump em 2018. John Kiriakou, que já foi conselheiro do presidente, recebeu 50 mil dólares para fazer pressão para que um ex-agente da CIA condenado por revelar informação classificada fosse ilibado. Este último diz que alertou o FBI de que lhe foi dito que Rudolph Giuliani, advogado de Trump, lhe garantiria um perdão através do pagamento de dois milhões de dólares.

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