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Trump: “acordo do século” falha antes de começar

O “acordo do século” para israelitas e palestinianos não foi o que Trump achava. A conferência para apresentar um plano de paz a passou a workshop. Finalmente, parece que vai ser apenas um encontro de empresários.
Fotografia: commons/wikimedia.org
Fotografia: commons/wikimedia.org

Foram décadas a falar sobre planos de paz entre Israel e Palestina. Desde o plano de partição da ONU aos acordos de Oslo, e depois à administração de Trump, o governo norte-americano esteve meses a falar de um plano. O nome era megalómano: “deal of the century”, acordo do século.

A ideia inicial era apresentar esse acordo no Bahrein. Daí, passou-se para um workshop. Finalmente, parece que acontecerá apenas um encontro de empresários. Nele, não estará nenhum representante palestiniano, já que a Autoridade Palestiniana afirmou que boicotaria qualquer encontro devido à falta de neutralidade dos Estados Unidos. Os Estados Unidos afirmaram ainda que não seriam convidados representantes israelitas de forma a não “politizar” o encontro, devido à ausência de palestinianos. Finalmente, parece que o próprio promotor do plano, Jared Kushner, também não marcará presença.

O plano foi de tal forma falado sem pormenores que alguns jornalistas especializados no conflito israelo-árabe afirmaravam que este não existia. Ao longo dos meses de debate, apesar de não se conhecer o teor do acordo, cada vez parecia mais certo que este não incluía a criação de um Estado palestiniano, resultando num corte com o consenso de décadas em relação ao território em disputa. As resoluções da ONU e as administrações americanas até à administração Trump mencionaram sempre a solução de dois Estados.

O principal problema é que a Autoridade Palestiniana quer um Estado. “Quem quer que queira resolver a questão palestiniana devia começar com a questão política, depois a questão política, e de seguida a questão política. E só então se poderia falar das ilusões dos milhares de milhões que dizem que nos vão apresentar”, afirmou há semanas o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas.

Contudo, a ideia do plano de Kushner era convencer empresários dos países árabes a investir no território da Palestina, e não no Estado.

Já Hanan Ashrawi, membro da comissão executiva da OLP, considera que, se os EUA “estivessem realmente preocupados com a economia palestiniana deviam começar por levantar o cerco a Gaza, impedir Israel de roubar” o dinheiro, os recursos e o território palestinianos.

Na solução dos dois Estados, haveria ainda uma discrepância de exigências, já que as concessões pedidas estariam maioritariamente do lado palestiniano. Para mais, este lado, com ações como a transferência da embaixada para Jerusalém, os EUA deixaram de ser vistos como um mediador neutro.

Para além das objeções do lado palestiniano, a política interna de Israel também dificultou o plano. Como o país volta a ir a votos dentro de três meses, só terá governo numa altura em que já não será de grande interesse para a administração Trump estar embrenhada em conversações com pouco sucesso antes da campanha de Trump para as próximas presidenciais.

Assim, a administração Trump teve de reformular o plano. Sendo impossível apresentar “o acordo do século”, o encontro no Bahrein, marcado para terça e quarta-feira, é agora referido como “conferência económica” ou como “workshop”.

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