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Três economistas e uma crise: debate juntou milhares em direto no Facebook

Mariana Mortágua, Ricardo Cabral e Ricardo Paes Mamede participaram no segundo debate online promovido pelo esquerda.net. Os debates deste ciclo AO ENCONTRO têm lugar às terças e sextas às 21h30 e contam sempre com intérprete de Língua Gestual Portuguesa.

No segundo debate on-line do ciclo AO ENCONTRO, o tema era “que soluções para a economia?”. A conversa entre a deputada bloquista Mariana Mortágua e outros dois economistas, Ricardo Cabral e Ricardo Paes Mamede foi vista por muitos milhares de pessoas no Facebook esta segunda-feira.

Mariana Mortágua iniciou o debate lançando algumas perguntas: No curto prazo, como é que lidamos com uma economia paralisada? Como é que garantimos que os custos desta paralisação não são pagos com desemprego e baixos salários? Como é que se responde à crise no médio e longo prazo?

A deputada afirmou que as medidas de curto prazo tomadas pelo Governo têm uma base correta, de suspensão da economia com o “mínimo de disrupções” até ao fim do isolamento. Mas estão a demorar muito tempo a ser implementadas. Categorizou-as em três grupos distintos: criação de linhas de crédito com garantias públicas; aplicação de moratórias sobre os créditos; e o regime de lay-off simplificado. Considerou ainda que a abrangência e o desenho de algumas das medidas estão desadequadas. As linhas de crédito, por exemplo, deixam nas mãos da banca a decisão sobre as empresas a financiar e em que condições, ou as moratórias que estão desenhadas para endividar ainda mais as pessoas aumentando juros. Já o lay-off tem, entre outros inconvenientes, um impacto elevado na redução de rendimentos dos trabalhadores e apresenta uma elevada dificuldade de aplicação às empresas de menor dimensão.

Mariana Mortágua defendeu que as moratórias devem abranger outras despesas além de créditos bancários, como são exemplo as contas da luz. E isso implica a participação de grandes empresas como a EDP no suporte de custos. Defendeu ainda a intervenção direta do Estado na atribuição de créditos em vez de entregar aos bancos a sua livre atribuição. Como forma de proteger a economia e o emprego, lançou várias propostas: proibir a distribuição de dividendos e lucros, que descapitalizam as empresas; proibir despedimentos das empresas com lucros ou que beneficiem de apoios públicos; aplicação de medidas fiscais para corrigir os desequilíbrios entre os impostos sobre as grandes empresas e os impostos sobre o trabalho; definir investimento público como ferramenta de recuperação económica.

Ricardo Cabral: "Os governos estão todos a apalpar terreno"

Ricardo Cabral apontou que o vírus obrigou deliberadamente a parar a atividade económica, colocando dificuldades às políticas públicas sobre o que fazer. Por isso, acrescentou, os “Governos estão todos a apalpar terreno”. Neste momento, é importante questionarmo-nos sobre os objetivos das políticas públicas, que no seu entender devem no curto prazo tentar amortecer o choque e ganhar tempo, evitando erros na aplicação de recursos públicos e preservando capacidade de investimento para futuro.

Quanto ao recurso ao regime de lay-off, Ricardo Cabral defendeu que a sua generalização cria riscos acrescidos para uma grande recessão. O economista apontou para a necessidade de estabelecer um programa para o crescimento económico e alertou para a possibilidade de uma crise política, caso não sejam protegidos os empregos e os rendimentos das pessoas. Para Ricardo Cabral, não se pode repetir uma resposta austeritária. “Esta situação vem testar as respostas que foram dadas” na sequência da crise financeira internacional de 2008/09, que considera nunca ter sido verdadeiramente resolvida.

Ricardo Paes Mamede: Crise será longa e "vai deixar lastro"

Por seu lado, Ricardo Paes Mamede considerou que estamos perante um desafio muito grande, pois além do desafio sanitário, “tudo aponta para uma crise muito longa e severa”. Mas os custos da crise não decorrem apenas desta paralisação: por ser incerta, a situação cria dúvidas sobre os atores económicos, provocando respostas que podem não ser as mais adequadas. Paes Mamede defendeu que na ausência de uma resposta rápida por parte da União Europeia, “esta situação vai deixar lastro” com muitas empresas que não irão recuperar.

Segundo o economista, o Estado português devia ser capaz de intervir e garantir rendimentos para as pessoas durante este período, minimizando estragos na destruição de capacidade produtiva, para podermos rapidamente retomar. Paes Mamede antecipa uma pressão enorme sobre as dívidas públicas, semelhante à da última crise, e defende que a atual arquitetura da União Europeia contribui para a crise que aí vem. Sublinhou ainda a necessidade de garantir rendimentos a todas as pessoas que perderam as fontes habituais, assim como de proibir despedimentos coletivos por empresas de grande dimensão. E deixou o alerta que numa crise que vai durar muito tempo, há sectores que não vão cá estar quando os apoios desaparecerem, porque esse tipo de negócio vai perder o seu espaço. A conclusão é que isso reforça a necessidade de um planeamento democrático da economia que permita criar emprego em determinados setores economicamente viáveis e úteis à sociedade.

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