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Trabalho sem carreira

Neste testemunho, a nossa leitora Patrícia Barbosa, escreve sobre as pessoas assistentes operacionais de saúde, que “são invariavelmente invisíveis aos olhos de quem nos tutela” e realça a criação da carreira profissional na generalidade, “para a qual deve ser enaltecido o trabalho do Bloco de Esquerda”.
Técnicos Auxiliares de Saúde em frente ao Parlamento esta sexta-feira, antes de terem visto ser reconhecida a sua carreira. Foto de Ana Mendes.
Técnicos Auxiliares de Saúde em frente ao Parlamento esta sexta-feira, antes de terem visto ser reconhecida a sua carreira. Foto de Ana Mendes.

Os bastidores dos hospitais são infindáveis, e a batalha que por lá se trava é impercetível àqueles que agora e cada vez mais deles necessitam. Começando esta pequena dissertação, os mais incautos pensarão: - Eis o início de um relato de um profissional de saúde. Mas ao que consta assim não sou considerada, sou auxiliar de ação médica… perdão, sou assistente operacional. Isso mesmo, assistente operacional, sem qualquer diferenciação de outro qualquer do setor público, ou do sector do comércio e retalho, ou de qualquer operador, com a mesma mísera retribuição mensal, com o mesmo reconhecimento ou falta dele.

Tal como no início ia dissertando, os bastidores de um hospital são um mundo complexo, agitado, mas acima de tudo uma engrenagem cujo funcionamento perfeito visa o bem-estar dos utentes e a salvaguarda do bem maior de cada um de nós, a saúde. E no meio de tudo isto, existem peças basilares dessa engrenagem que são esquecidos e relegados, não para segundo plano, mas para um plano não existente, os assistentes operacionais, que são invariavelmente invisíveis aos olhos de quem nos tutela, mas que representam o terceiro maior grupo profissional no setor da saúde e 20% da força produtiva, na sua grande maioria mulheres.

Vou tentar então relatar o que tantos não veem, outros não querem ver e alguns só se lembram momentaneamente. Numa época em que tanto se fala de ostracização de credos, raças e todos os tipos de fenómenos na nossa sociedade, nós Assistentes Operacionais, somos um desses fenómenos.

Como Assistente Operacional já acudi em urgência, como parte de uma equipa com enfermeiros e médicos, estive em salas de reanimação a batalhar no limbo da vida e da morte

Como Assistente Operacional já acudi em urgência, como parte de uma equipa com enfermeiros e médicos, estive em salas de reanimação a batalhar no limbo da vida e da morte, como Assistente Operacional tenho que saber todo o material médico em cada ação dos médicos e dos enfermeiros, saber manusear esses materiais, saber o que necessitam e antecipar cada passo, tenho que mobilizar doentes, higienizar doentes, alimentá-los, cuidá-los e no meio de toda esta azáfama que é a nossa profissão ,ainda dar a mão e aquela palavra de conforto que confere o humanismo e o sentido de dever naquilo que faço, com isto posso deduzir que sem dúvida os Assistentes Operacionais são do leque de profissionais dentro dos hospitais os que mais próximo estão de quem precisa. Ironicamente, somos os de quem nunca se lembra, somos os que têm que estar presentes para auxiliar em tudo os restantes e esses denominados sim de profissionais de saúde, mas olhados como os que servem apenas para tarefas menores e tratados como não elementos na acima citada engrenagem hospitalar.

Vivemos um momento na saúde em Portugal, em que os relatos serão os mais variados, mas tentarei relatar na primeira pessoa a batalha e o retrato de centenas de colegas por todos estes hospitais do SNS, que batalham diariamente, mas sentem na pele a falta de reconhecimento, a banalização do seu trabalho e a não devida compensação financeira do seu estoico esforço.

A precarização do trabalho, também na saúde, é uma realidade, os chamados hoje por todos os hospitais deste país “contratos covid” são um crescendo

A precarização do trabalho, também na saúde, é uma realidade, os chamados hoje por todos os hospitais deste país “contratos covid” são um crescendo. Assim estive também, os sinos tocaram a rebate e na primeira vaga covid, as entidades hospitalares chamaram em catadupa pessoas a necessitar de trabalhar, tanto elementos já aprovados em bolsas de recrutamento, bem como de empresas de prestação de serviços, com oferta de contratos de 4 meses. Fomos enviados para o campo de batalha covid, alguns já com experiência profissional em meio hospitalar, outros sem saber sequer ao que iam. Não houve tempo para formações, integrações feitas em pleno campo de batalha, onde não havia sequer tempo para explicar o que era um EPI [Equipamento de Proteção Individual] ou como usá-lo devidamente, mas fomos e fomos tantos, porque tantos são os que têm como realidade o desemprego.

Ficará agora mais evidente a tal ostracização em relação a esta classe profissional sem carreira, já seria o bastante referir que para tudo isto o vencimento é 645€, mas ainda assim fomos humilhados com a não inclusão no prémio de compensação aos trabalhadores do SNS envolvidos no combate à pandemia

Pois é, os Assistentes Operacionais tinham que estar prontos para todas as frentes, cuidar dos doentes em todas as suas vertentes, depois de executar essas tarefas, pegar nas outras armas e fazer a outra parte, desinfetar, todas as áreas. Na dança do entra e sai de doentes covid, que foram muitos, que são cada vez mais esta é a nossa maratona diária em turnos infindáveis. Todos os dias em passos determinados sabia que caminhava para o perigo, sabia que deixava a família em casa, sabia que como outro qualquer elemento numa unidade hospitalar covid, estava exposta ao vírus que tantos tem derrubado. Ficará agora mais evidente a tal ostracização em relação a esta classe profissional sem carreira, já seria o bastante referir que para tudo isto o vencimento é 645€, mas ainda assim fomos humilhados com a não inclusão no prémio de compensação aos trabalhadores do SNS envolvidos no combate à pandemia da doença COVID 19 , atribuído pelo Decreto-lei nº101-B/2020, de 03 de Dezembro humilhados e barrados à porta de superfícies comerciais ao mostrar o cartão não ter a dita prioridade por não ser considerado profissional de saúde.

Este exemplo relativo à COVID é um dos muitos exemplos em que a não existência de uma carreira profissional, nos torna vulneráveis, injustiçados e acima de tudo não valorizados. Somos parte de uma equipa, somos alicerces fundamentais no SNS e temos que ser reconhecidos como tal. Com o reconhecimento de uma carreira profissional de TAS [Técnico/a Auxiliar de Saúde], inevitavelmente a sua progressão seria uma realidade e seria não só um benefício para os profissionais em causa, bem como para o SNS e o seu melhor funcionamento.

Agora com a criação da carreira profissional na generalidade, para a qual deve ser enaltecido o trabalho do Bloco de Esquerda, impõe-se que as forças políticas representadas na Assembleia da República, possam ser breves para a sua efetiva aprovação em votação final. Após isto, é urgente que o governo regulamente com a brevidade e celeridade que se exige, repondo a justiça que é devida para com estes trabalhadores.

Artigo de Patrícia Barbosa, Assistente Operacional no IPO do Porto

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