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Trabalhadores das corticeiras em greve toda a semana

Empresas corticeiras de Norte a Sul do país têm greves marcadas para toda a semana. Trabalhadores reclamam aumentos salariais e fim do assédio no local de trabalho num setor que "tem dados muitos milhões que não estão a chegar aos trabalhadores".
Foto: CGTP.
Foto: CGTP.

Começou esta segunda-feira uma semana de luta dos trabalhadores das corticeiras, com greves e manifestações de Norte a Sul do país, com especial incidência nas unidades do grupo Amorim, líder mundial do setor.

Esta terça-feira e até amanhã, há greve na Amorim Revestimentos de São Paio de Oleiros. Segunda-feira pararam já várias unidades industriais em Santa Maria de Lamas, Argoncilhe e Rio Meão. Para o resto da semana, estão convocadas greves em Curuche e Vendas Novas (quarta), Salteiros e Ponte de Sôr (quinta), e Mozelos (sexta). A maior parte delas têm associadas concentrações e manifestações, num calendário com numerosas ações. Esta segunda-feira, dezenas de trabalhadores manifestaram-se também à porta da Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR), representante das empresas do setor.

O motivo da semana de greves é a revisão do contrato coletivo de trabalho (CCT) do setor. Os sindicatos reclamam um aumento salarial de 3% para mais 23 euros, a atualização do subsídio de refeição em 45 cêntimos para 6 euros por dia, 25 dias úteis de férias, e diuturnidades para todos os trabalhadores, entre outros.

Outra reivindicação é a introdução no CCT de uma cláusula de combate e proibição ao assédio sobre trabalhadores. O setor tem em Cristina Tavares, trabalhadora da Fernando Couto Cortiças em Santa Maria da Feira, um dos casos mais conhecidos no país de assédio laboral e despedimento ilícito, que continua nos tribunais desde 2017.

A APCOR, representante patronal, recusa o aumento salarial de 3% pedido pelos trabalhadores e aceita apenas 1,8%. "Considerando que esse aumento só dá uns 14 euros por mês a 90% dos trabalhadores do setor, nós insistimos nos 3%, porque a cortiça tem dado a ganhar muitos milhões de euros e esses lucros não estão a chegar aos trabalhadores", afirmou à Agência Lusa Alírio Martins, do Sindicato dos Operários Corticeiros do Norte (SOCN), que reclamou "também mais justiça social na distribuição dos lucros de um setor que continua a dar muito dinheiro".

O patronato também só aceita um aumento de cinco cêntimos no subsídio de refeição, contra os 45 cêntimos pedidos pelos sindicatos. De resto, recusa todas as outras reivindicações dos trabalhadores.

Além das reivindicações anteriores, situações de pressão sobre os trabalhadores no setor também motivam as greves. Manuel Silval, porta-voz da comissão de trabalhadores da Amorim Revestimentos, referiu à Lusa que "linhas de produção que antes tinham cinco ou seis pessoas agora estão com duas ou três e há perseguição das chefias se elas quiserem ir à casa de banho ou parar para lanchar, porque os poucos que lá ficam têm que tomar conta das secções todas". A consequências é a queda de qualidade da produção, com "devoluções de dezenas de milhares de metros quadrados de material" e "recordes de prejuízos" para a empresa, afirmou.

Moisés Ferreira, deputado do Bloco pelo círculo de Aveiro, esteve presente na manifestação de segunda-feira  à porta da APCOR em Santa Maria da Feira, onde manifestou solidariedade com as reivindicações dos trabalhadores. Em declarações à Lusa, concordou que "os lucros do setor não se têm refletido no salário dos trabalhadores" e que além disso se assiste a "um retrocesso nas suas condições de trabalho". Condenou ainda o que considerou tentativas de "impor a selvajaria" no setor, dizendo que "tem havido muitos despedimentos coletivos, como aconteceu na Pietec e na Piedade, e está-se a tentar impor a laboração contínua, o que prejudica seriamente a qualidade de vida dos trabalhadores".

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