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Têxteis infantis vendidos como "verdes" têm substâncias tóxicas

Os rótulos verdes não dão conta da presença de PFAS, um grupo de químicos adicionado aos têxteis para aumentar a sua impermeabilidade e resistência a manchas, mostra um estudo norte-americano.
Tecido à prova de água.

Um estudo publicado esta quarta-feira na revista Enviromental Science and Technology conclui que há têxteis infantis, de roupas, roupas de cama ou revestimento de mobiliário, apresentados como sendo “verdes” e ao mesmo tempo resistentes a líquidos e manchas, que contêm substâncias potencialmente nocivas à saúde.

Os cientistas do Instituto Silent Spring identificaram a presença de PFAS, substâncias perfluoroalquiladas​, em mais de metade dos 93 produtos analisados. Estas substâncias são apresentadas por eles como sendo “químicos persistentes e tóxicos usados em muitas aplicações comerciais e industriais”. Servem para aumentar a capacidade de resistência à água e a manchas e a sua presença não é, as mais das vezes, indicada nos rótulos, o que impede os consumidores de escolherem produtos que não os contenham.

Laurel Schaider, a autora principal do estudo, explicou ao Público que “as certificações verdes são úteis para ajudar os pais e outros consumidores a evitar outros tipos de produtos químicos nocivos. Contudo, os nossos resultados mostram que este tipo de ‘selo’ poderia prestar um serviço melhor se protegesse os consumidores dos PFAS, ao incluir tais substâncias nos critérios de atribuição da certificação”. A cientista acrescenta que “os pais também devem estar cientes de que rótulos como ‘não tóxico’ ou ‘ecologicamente correcto’ não exigem certificações de terceiros”.

Esta investigadora defende a não utilização dos PFAS nos casos em que isso não seja essencial. O caso é mais grave quanto às crianças porque os seus corpos “ainda estão em desenvolvimento e são especialmente sensíveis a exposições químicas. Faz sentido que os pais queiram evitar produtos que contenham ingredientes que possam afetar a saúde dos filhos hoje e no futuro”, sublinha.

Como a rotulagem verde não garante a sua não presença e dado que o estudo provou que “os produtos rotulados como resistentes a manchas são mais propensos a ter PFAS do que os produtos rotulados como à prova de água”, Schaider defende que se evite o uso destes. Por outro lado, lembra que os produtos que precisam mesmo de ser impermeabilizados podem sê-lo “de outras maneiras”, por exemplo “com uma camada de borracha, por exemplo, que não requer a adição de PFAS”.

Os especialistas lembram ainda que alguns tipos de PFAS já não podem ser produzidos quer nos EUA, onde o estudo foi feito, quer na União Europeia, devido ao seu grau de toxicidade.

Ao mesmo órgão de comunicação social, Susana Fonseca, vice-presidente da associação ambientalista Zero, nota que o fim da produção destes tipos de PFAS fez com que aí fossem usados outros tipos, substâncias que “ainda não estão bem estudadas”. A União Europeia poderá banir a médio prazo todos os PFAS com a implementação do novo regulamento europeu sobre substâncias químicas, o REACH. Até porque “muitos especialistas apoiam a aplicação do princípio da precaução para restringir o uso de PFAS como uma classe, particularmente em usos não essenciais, como é o caso de produtos têxteis infantis”.

A dirigente da organização ambientalista portuguesa recomenda também “evitar por precaução” produtos que se anunciem como resistentes à água ou às manchas. E que o cuidado seja redobrado nas compras online porque muitas vezes as regulações ambientais dos países produtores são “menos apertadas”.

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