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Testes de anticorpos ao SARS-Cov-2: um passaporte de imunidade?

Na Alemanha, já começaram a aplicar testes serológicos a milhares de pessoas. Em Portugal foi criado o consórcio Serology4covid que pretende criar e implementar estes testes no nosso país. Artigo de Ana Isabel Silva, bioquímica e investigadora do I3s.
O nome laboratorial deste teste tem o nome de ELISA e consiste em colocar numa placa a proteína do vírus ao qual o anticorpo se liga. Foto de Governor Tom Wolf, Flickr.

Todos temos ouvido falar da necessidade de criar uma imunidade de grupo. Esta permitiria que uma grande percentagem da população fosse imune ao vírus e não o transmitisse, quebrando assim uma grande parte das cadeias de transmissão. Idealmente, esta imunidade de grupo seria conseguida com uma vacina. No entanto, como sabemos que essa vacina está ainda muito longe de estar disponível, a alternativa para se atingir imunidade seria através da infeção.

Para se fazer o diagnóstico e perceber se alguém está ou não infetado, faz-se um teste molecular, chamado PCR em tempo real, que nos permite detetar a presença de material genético do vírus. Praticamente logo a seguir ao genoma do SARS-CoV-2 ter sido identificado, foi possível implementar esta técnica de diagnóstico.

Atualmente, todo o mundo, e Portugal não é exceção, tem falado de testes de imunidade.

Em que consiste este teste e que informações nos dá?

Quando alguém está infetado com o SARS-Cov-2, o diagnóstico feito por PCR em tempo real será positivo. À medida que o seu corpo vai conseguindo lutar contra a infeção, a carga do vírus vai diminuindo, passando a ser nula a certo ponto. Nesta altura, o teste de PCR em tempo real já não irá detetar o material genético do vírus.

Os novos testes serológicos, correntemente chamados de testes de imunidade, não detetam o vírus. Estes testes detetam a presença de anticorpos produzidos pelo nosso corpo contra o vírus. Quando o nosso corpo deteta uma presença estranha, como é o caso do SARS-CoV-2, produz anticorpos para o combater. No caso do novo coronavírus, os anticorpos começam a surgir apenas na segunda semana após o início da infeção. Inicialmente, teremos uma grande quantidade de vírus dentro do nosso corpo, que irá diminuindo à medida que o número de anticorpos para o combater aumenta. No final da infeção, estaremos livres do vírus mas os anticorpos usados para o combater serão ainda possíveis de detetar.

Em teoria, se voltarmos a estar em contacto com o vírus, a nossa resposta imunitária será bastante mais rápida e o vírus não terá grande probabilidade de se replicar. Isto garante a nossa segurança mas também garante que não somos capazes de o transmitir a terceiros.

Este teste irá permitir, usando uma amostra da população, perceber melhor qual a percentagem de pessoas que foram infetadas com o vírus SARS-CoV-2 e estiveram assintomáticas. Isto permitirá calcular com maior precisão a taxa de infeção do vírus. Permite-nos também tentar perceber o porquê de algumas pessoas não desenvolveram a doença, ao contrário de outras. A taxa de mortalidade do vírus será também calculada com mais precisão.

Este teste traz também a promessa de, em caso de testes positivos para presença de anticorpos, permitir a essa pessoa voltar a trabalhar em segurança.

Este teste será também importante no processo de desenvolvimento de vacinas. Permitindo perceber quais delas estão a funcionar, levando à produção de anticorpos.

Mas então porque demorou tanto tempo a ser desenvolvido este teste?

Os anticorpos produzidos durante uma infeção por SARS-CoV-2 são específicos para este vírus. Há então uma complementaridade entre as proteínas do vírus e os anticorpos.

Em pessoas que recuperaram da Covid-19, foram já detetados 3 tipos de anticorpos contra o vírus. Estes anticorpos podem detetar apenas o vírus ou ter realmente capacidade de o neutralizar.

Depois de identificados os anticorpos é necessário perceber a que proteína do vírus se ligam. Essa proteína viral será depois produzida em laboratório. Apenas depois disto, se consegue fabricar o teste. O nome laboratorial deste teste tem o nome de ELISA e consiste em colocar numa placa a proteína do vírus ao qual o anticorpo se liga. Em seguida, coloca-se uma amostra de sangue. Se houver ligação à proteína do vírus significa que o anticorpo para o SARS-CoV-2 está presente nessa amostra.

No entanto, os cientistas alertam para a necessidade de o desenvolvimento deste teste ter de ser o mais cuidadoso possível.

Quais as precauções a ter com estes testes serológicos?

É muito importante garantir a especificidade deste teste, ou seja, temos de garantir que estamos apenas a detetar anticorpos para o SARS-CoV-2 e não para outro vírus pertencente à família do coronavírus. Se o teste for pouco específico corremos o risco de as pessoas se acharem imunes e diminuírem as medidas de segurança, apesar de não estarem.

Para conseguir garantir isto é necessário testar estes testes com amostras de sangue de pacientes que sabemos terem recuperado do vírus e amostras de sangue doadas antes do início desta pandemia, para servirem como controlos negativos. Atualmente, a especificidade dos testes disponíveis comercialmente não é tão alta como desejado, podendo levar a um grande número de falsos positivos e negativos.

Um outro problema com estes testes é o facto de não se saber ainda se o facto de uma pessoa ter os anticorpos significa que está já livre da infeção. Sabe-se que a carga viral diminui muito lentamente após a formação dos anticorpos [1]. Isto pode significar que alguém que tenha anticorpos para o vírus poderá ainda ter alguma carga viral, conseguindo ainda contagiar terceiros.

O timing no qual o teste é realizado é também muito importante. Mesmo que a pessoa seja potencialmente imune ao vírus, por já ter sido infetada, se o teste for feito demasiado cedo, não se irão detetar anticorpos. No entanto, o timing da resposta imune ao SARS-CoV-2 ainda tem muitas incógnitas.

Este teste tem lançado também o debate sobre a quem deve ser feito. Há quem defenda a aplicação deste teste apenas a profissionais de saúde, para permitir que estejam no seu trabalho com maior segurança. Há também quem defenda a sua aplicação a um número mais alargado de pessoas, para permitir que mais gente volte ao seu trabalho. Esta última opção é o que tem vindo a ser chamado de “passaportes de imunidade”. No entanto, há a legítima preocupação de que pessoas com dificuldades económicas se exponham deliberadamente ao vírus para atingirem a imunidade e, assim, voltarem a trabalhar.

Infeção não é igual a imunidade

Há ainda um grande debate na comunidade científica sobre se a presença destes anticorpos significa realmente que a pessoa está imune ao vírus.

É ainda incerto se os anticorpos produzidos são capazes de prevenir a entrada do vírus nas células caso a pessoa esteja mais uma vez em contacto com o vírus. Para se estar realmente imune é necessária a produção de anticorpos neutralizadores. No entanto, não é ainda claro que todos os pacientes de Covid-19 recuperados desenvolvam este anticorpo [2].

Testes em macacos mostraram que estes não voltavam a ser infetados pelo menos um mês depois de terem estado em contacto com o vírus [3]. No entanto, se esta imunidade é mais duradoura ainda não se sabe.

Os cientistas acreditam que, no pior dos cenários, e tendo em conta informações de outros coronavírus, a imunidade ao SARS-CoV-2 poderá durar pelo menos três meses.

Sendo um vírus recente, muita investigação falta ainda fazer para termos respostas à maior parte das perguntas. No entanto, os investigadores, inclusive portugueses, estão a trabalhar a tempo inteiro para nos garantirem mais informação e mais testes seguros.


Notas:

1. Wolfel, R., et al., Virological assessment of hospitalized patients with COVID-2019. Nature, 2020.

2. Wu, F., et al., Neutralizing antibody responses to SARS-CoV-2 in a COVID-19 recovered patient cohort and their implications. medRxiv, 2020: p. 2020.03.30.20047365.

3. Bao, L., et al., Reinfection could not occur in SARS-CoV-2 infected rhesus macaques. bioRxiv, 2020: p. 2020.03.13.990226.

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